Sábado, 20 de Julho de 2019
ENTREVISTA

As dicas de Max Gehringer sobre como planejar carreira e prevenir fracasso

Nome consagrado no mundo corporativo traça, em entrevista, um panorama sobre o mercado de trabalho e a atual situação do País



maxgeh.JPG Max Gehringer esteve em Manaus durante a semana (Foto: Márcio Silva)
24/09/2017 às 14:54

Um dos nomes mais consagrados no Brasil em questões corporativos e gestão empresarial, Max Gehringer palestrou na última semana em Manaus sobre o tema 'Gerenciamento de Mudanças’. Em entrevista para A CRÍTICA, ele fala sobre as principais dúvidas do mercado de trabalho no atual cenário de instabilidade política e econômica, as profissões do futuro e como se portar numa entrevista de trabalho. A seguir a entrevista.

Todos os dias somos surpreendidos por uma nova mudança no mundo corporativo e no mercado de trabalho. Em sua opinião, elas estão mais rápidas, ou nós estamos mais lentos?

As mudanças ficaram mais rápidas principalmente pela tecnologia. Houve uma aceleração neste século devido às muitas invenções. Anteriormente as pessoas se reuniam em grupo na biblioteca, um tinha que achar um livro o outro tinha que procurar o tema no livro, mas hoje se consegue fazer a mesma coisa em mais ou menos dois minutos baixando arquivos. A comunicação telefônica também mudou. Tudo ficou mais acelerado do que era. Uma bela maneira de ver isso é assistir filmes dos anos 60 e 70, pois se passa coisas que vemos hoje como no filme ‘Blade Runner’, mas eles erraram tudo e erraram para menos, acelerou muito mais do que as pessoas que escreviam ficção imaginavam, o mundo está cada vez mais rápido, nós que temos que correr atrás.

O senhor costuma dizer que a melhor maneira de enxergar à frente é olhando para trás. Pode explicar melhor isso?

Nós aprendemos fundamentalmente na vida com os erros. Um dia vamos passar por determinadas situações. Não adianta alguém chegar e falar que você precisa ser um super homem, as pessoas resolvem as situações de maneiras diferentes. A experiência é acúmulo de tentativas e erros que nós fazemos.

Ainda é possível fazer um planejamento de carreira com as incertezas que se apresentam no mercado de trabalho?

Não. Eu conhecia muitas empresas que tinham plano de carreira, mas poucas ainda têm. O mercado ficou tão rápido e as pessoas estão mudando de emprego numa velocidade impressionante ficando cada vez menos no trabalho. Está ficando difícil dizer que a cada dois anos vai acontecer determinada coisa. Nós temos que ter integração, treinamento e desenvolvimento, começando a trabalhar tudo isso em 45 minutos. Os melhores ficam e serão recompensados e os que não forem bem, não ficam.

Em sua palestra, o senhor menciona “remédios para prevenir o fracasso”. Que remédios são esses?

O fracasso é sempre a falta adequada da preparação numa situação. A prevenção do fracasso é estar preparado para as situações e nós nos preparamos enfrentando elas. Um conselho corporativo de carreiras é começar a trabalhar aos 16 anos, não ficar estudando e empilhando diplomas um atrás do outro até os 25 anos, pois vai ser difícil conseguir trabalhar nessa idade sem nunca ter trabalhado e quem começa com 16 anos quando chegar aos 18 já aprendeu muita coisa e vai surpreender como profissional, já vai saber o que é uma empresa, um chefe e que alguns são nervosos ou mais chatos e é este aprendizado que nos leva a aprender o suficiente para evitar coisas que eu chamaria de fracasso.

O senhor vê risco de azedamento na relação entre empresas e empregados com a recente reforma trabalhista aprovada?

A reforma trabalhista é polarizada como muita coisa que está acontecendo no Brasil hoje. Houve um grupo que foi radicalmente contra as mudanças e outros a favor. Eu acredito que a verdade geralmente está no meio, mas nós viramos time de futebol no Brasil, quem é contra uma coisa não pode dizer nada de positivo, então ficamos com opiniões muito distantes. Eu acredito que a terceirização seja uma necessidade, claramente cria empregos, por outro lado vamos criar uma categoria que tem menos compromisso com a empresa. Temos uma série de aspectos positivos e outros negativos. Vamos precisar de tempo para ver o que acontece.

Estamos observando o surgimento de novas ocupações (gestor de redes sociais, por exemplo). A velha orientação vocacional vai ficar obsoleta?

Uma das manias obsoletas que eu tenho é colecionar revistas desde a década 70, de negócios semanais ou informações que levam na capa informações do futuro. A profissão do futuro é aquela que vai me dar futuro. Se eu moro em Manaus tenho que verificar se essa profissão do futuro que estão falando vai me dar futuro aqui depois que a acabar a faculdade ou ainda durante o curso. Pelo menos 90% das pessoas que seguissem as orientações das revistas ia se dar muito mal, pois o Brasil muda muito rápido. Existem as profissões do futuro que são as mais tradicionais possíveis: direito, administração, medicina e engenharia, quem faz um desses não erra. A minha orientação é fazer um desses cursos que são os mais genéricos, arrumar um emprego e acostumar com o que faz e depois fazer uma pós-graduação.

Sobre a instabilidade política que o Brasil vive, o senhor diria que o País passa por uma crise de liderança?

Eu diria que essa crise é diferente das outras, pois não é apenas uma crise são três: política, econômica e moral. A dúvida é qual crise nós resolvemos primeiro para minimizar os efeitos das outras duas. O que estamos tentando resolver até agora é a crise econômica. O resto entra no eixo, mas ao mesmo tempo que a economia começa a dar sinais bons tem um processo criminal contra o presidente da república, então continuamos com a crise política. Na hora que a crise econômica acabar vai melhorar o empregos, os negócios e muita coisa, já a crise moral é um problema de cada um que decide como vai agir.

Que competências da gestão corporativa o senhor diria que os gestores públicos precisariam adotar com mais urgência?

A grande diferença entre o público e privado se chama concorrência. As promoções são diferentes, no privado é por mérito e é promovido imediatamente, no público depende de várias aprovações. A vantagem do serviço é que ele é mais estável, agora pelo menos permite a remuneração na aposentadoria com valor integral, o que não acontece nas empresas privadas. Então é importante fazer cursos e o mais importante é tentar criar um clima bom entre os funcionários, aonde as pessoas cheguem de manhã com vontade de trabalhar e no fim do dia saiam do expediente com vontade de trabalhar em seguida. Se eu pudesse sugerir um curso de especialização seria psicologia, dessa forma a pessoa vai entender tudo o que é preciso entender sobre ser humano.

Em uma entrevista de emprego quando se pergunta sobre defeitos, o que responder?

Pode responder qualquer defeito, não tem problema, mas é sempre mostrar uma solução para aquele defeito. Exemplo, eu sou gago, mas estou indo a um fonoaudiólogo para cuidar da gagueira. Então não adianta inventar defeitos que parecem virtudes, por exemplo, perfeccionismo, as pessoas acham que parece uma virtude, mas é um tremendo de um defeito, o pior defeito que a pessoa pode ter citado.

Quais as dicas de como proceder em uma entrevista e de como preencher um bom currículo?

Na entrevista, a pessoa que está recrutando está representando a empresa e procura um (a) candidato (a) que melhor se encaixe no perfil da empresa, então é bom sempre dar resposta curtas e entender para onde o entrevistador quer levar, geralmente a primeira pergunta e ‘fale um pouco sobre você’. Aí a pessoa vai dizer a história da bisavó do tempo da borracha, não vai levar em nada, por isso seja sucinto e breve. O currículo precisa ter no máximo uma página, com descrição breve de onde trabalhou com no máximo duas linhas, na verdade o currículo devia ser um anexo de uma carta pessoal do interessado pela a vaga.

O serviço de RH e as empresas especializadas em selecionar profissionais são cada vez mais atuantes e criteriosas. Seria possível traçar o perfil do profissional que as empresas estão procurando?

Não. Nunca achei possível. Assim como guardava as profissões do futuro também guardava artigos que diziam sobre o perfil profissional do século XXI. Cada empresa tem um estilo profissional diferente, um jeito de falar, de vestir, de interagir. Mas se você conhece a empresa se vista de acordo com aquela empresa.

O que as empresas priorizam e o que é mais valorizado hoje: talento, conhecimento teórico ou experiência?

O que mais empresas valorizam hoje são os resultados em curtos prazos que podem ser conseguidos hoje com muito esforço ou talento. Se tiver que dispensar uma pessoa entre a talentosa e a esforçada libere a que tiver resultados piores.

O medo do desemprego preocupa jovens profissionais e até mesmo quem ainda não ingressou nas universidades. Existe algum segredo para se diferenciar num mercado competitivo? O que é preciso fazer para se manter no mercado? Planejar a carreira é uma saída?

Minha recomendação não seria considerar um emprego como a primeira opção de vida. A primeira escolha é ser autônomo ou abrir um negócio. No Brasil, um a cada quatro jovens não consegue um emprego, são salário baixos, exigem muito e pagam pouco, passa anos em uma graduação para ganhar apenas R$ 2 mil, isso não vale a pena. Começa a pensar no próprio negócio, veja o que está faltando em Manaus. Temos vários canais alternativos na internet para ver o que a China e os Estados Unidos estão fazendo de diferente e temos franquia também disponíveis no mercado. Então primeiro faça um concurso público, depois entre numa empresa mostrando resultados melhores que os objetivos, respeite o chefe e busque sempre se atualizar.

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