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Cotidiano
Dia da Consciência Negra

As histórias de dificuldades e conquistas de uma raça muito trabalhadora

Negros, ícones do futebol, do samba e do direito contam como traçaram uma trajetória de sucesso em meio ao preconceito 20/11/2016 às 05:00 - Atualizado em 23/11/2016 às 18:55
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O desembargador Sabino da Silva Marques, 70, que está há 33 anos na magistratura (Fotos: Antonio Menezes)
Paulo André Nunes Manaus (AM)

É com muito trabalho e respeito ao próximo, além de uma boa dose de paciência e sapiência,  que a raça negra está superando as dificuldades e vencendo na vida. A CRÍTICA conversou com três expoentes de Manaus para falar sobre seus desafios e dificuldades em alusão a este Dia da Consciência Negra.

Há 33 anos na magistratura, o desembargador Sabino da Silva Marques, 70, foi criado onde hoje está localizada o Complexo de Produção de Água da Ponta do Ismael, na Compensa, sendo filho de funcionário público e mãe doméstica.

“Minhas conquistas vieram na base de muito desafio. Eu era de uma família de mecânicos tradicionais, mas resolvi de uma hora para a outra dar uma guinada para a universidade. Lecionei inglês em uma escola particular. Paralelo a isso estudava direito na Universidade do Amazonas (antiga UA e hoje Ufam) com muita dificuldade, trabalhei em uma entidade que foi o Sindicato dos Estivadores, no grupo empresarial Moto Importadora, passei pelo Incra como advogado parecerista e em 1983 ingressei na magistratura onde estou até hoje”, declarou ele, que, a exemplo de outras famílias da cidade, é descendente de imigrantes oriundos de Barbados (país da América Central de negros estrangeiros vieram no século 20, mais especificamente para trabalhar no Amazonas, Porto Velho e Pará).

“Alguém já disse que todo dia é dia da consciência negra. Não resta dúvida que é uma data onde se intensifica, se massifica, essas práticas, sendo um dia para comemorar. Não dá para esconder que existe muito preconceito, e o pior deles é o que fica camuflado. Já tivemos muitos avanços e creio que isso serve de base de exemplo para toda essa luta que hoje se tem”, garante o desembargador. 

Aos 54 anos de idade, Didi Redman, presidente da escola de samba Vitória Régia, da tradicional Praça 14 de Janeiro, gostaria que a data deste domingo servisse para que a humanidade cessasse com a discriminação não so contra os negros, mas em geral também contra “homossexuais e tudo; Quem somos nós para , querer recriminar e discriminar?”. Para ele, as pessoas deveriam cuidar mais das suas vidas, “pois está tão difícil sobreviver, e só Deus e Jesus podem nos julgar”.

le diz sentir saudades das amizades sinceras construídas com ícones da Praça 14 e da escola de samba que já se foram como Tia Lindoca, Tia Lourdinha, Zé Ruindade, Seo Valentino, Seu Funuca, a família Beckman (onde Felipe Beckman era avô do saudoso Nestor Nascimento, considerado a maior liderança negra do Amezonas em todos os tempos) e Paul Oldwin Redman (que era avô de Didi Redman), e de Antonio Araújo e Nego Zéca (que estão vivos).

Guerreiro negro

Quem ouve falar em Marinho Macapá logo fará alusão à aquele volante aguerrido que marcou época no futebol amazonenense de 1979 a 1995 em equipes como o Nacional e Rio Negro. Carlos da Silva Santos, seu verdadeiro nome, tem 61 anos, sendo 15 deles como profissional e, só no Naça, foi campeão Amazonense em 8 oportunidades. Natural de Macapá (daí seu apelido), ele foi criado no Quilombo do Curiaú, perto da residência onde passou a infância e a juventude no bairro de Laguinhos.

Neste dia, diz ele, a data é para refletir, mas também há lamentos infelizmente. “Lembramos o que aconteceu no passado com os negros que vieram para o Brasil trazidos como escravos. Hoje já se tem grandes avanços como estudar e fazer faculdade, e já há programa de cotas raciais”, analisa ele, que é assessor parlamentar na Câmara Municipal de Manaus (CMM).

Análise: Onde estão os negros?

*Vinícius Alves

Em 1960 o Brasil recebeu a ilustre visita do filósofo francês Jean Paul Sartre, em companhia de Simone de Beauvoir, para atender um pedido do escritor Jorge Amado, que lhes convidara para conhecer diferentes regiões da pátria tupiniquim, momento em que o casal vislumbrou as exuberantes belezas naturais de nosso país tropical. Ao longo da concorrida agenda de compromissos o filósofo existencialista realizara palestras, mas em uma de suas conferências ao observar o auditório surpreendera a todos com a pergunta:

“Onde estão os negros?”, por ser o público presente exclusivamente branco, os quais em sua maioria representavam a elite intelectual brasileira da época, logo,não havia negros no recinto. Apesar da sociedade brasileira ter uma composição multiétnica, os negros da década de 1960, não estavam ocupados com o estudo da filosofia, nem tão pouco haviam lido a clássica obra de Sartre, “o Ser e o Nada”, pois estavam e ainda estão excluídos, vitimados, silenciados,relegados a uma condição marginal de existência...

Qual é o lugar historicamente designado à negritude brasileira? Quantos afro-descendentes há como governadores de Estados? Temos negros médicos, diplomatas, magistrados, reitores de universidades? Não, eles estão onde não é necessário possuir formação escolar,e como conseqüência desenvolvem as profissões mais modestas, além de receberem os menores salários. Uma publicação da Revista Época (2012), assegura que menos de 1% dos estudantes dos cursos de ponta da Universidade de São Paulo – USP são negros. Falta aos afro-brasileiros mérito para o ingresso no espaço universitário? Infelizmente, ainda sofremos com a herança da escravatura que abrangeu um período de mais de 350 anos de predomínio do trabalho escravo, sendo o Brasil o último país do continente americano a abolir a escravidão, talvez por essa razão os afro-descendentes ainda encontrem enormes dificuldades de ascenção social.

O Dia Nacional da Consciência Negra é um convite a uma reflexão, para reafirmar permanentemente a cidadania, bem como a valorização da população afro-descendente, assim, importa sonhar com os ideais de uma sociedade menos excludente e mais igualitária, desse modo,o questionamento do pensador francês durante sua visita ao nosso país continua a ecoar: onde estão os negros do Brasil?

*Vinícius Alves é mestrando pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA)

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