Sábado, 07 de Dezembro de 2019
Em Coari

Automedicação atinge quase 80% da população no interior do AM

Pesquisa revela que falta de acesso a serviços e profissionais de saúde leva ribeirinhos a colocar a saúde em risco



CID_Automedica__o_Coari_Foto_divulga__o_3.jpg Pesquisa foi realizada em comunidades ribeirinhas de Coari, no Médio Solimões (Fotos: Divulgação)
17/04/2017 às 05:00

A pouca fiscalização na venda de medicamentos, a influência de familiares e da mídia com promessas milagrosas no tratamento de doenças, além do acesso limitado aos serviços púbicos de saúde são os principais fatores que levam 76,3% da população de oito regiões de lagos e rios da zona rural de Coari, no Médio Solimões, a se automedicar. Quem aponta é o professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Abel Santiago Muri Gama.

A prevalência elevada da automedicação nas comunidades situadas nessas localidades foi observada em uma pesquisa desenvolvida pelo professor. Intitulado “Automedicação em Comunidades Ribeirinhas na Região do Médio Solimões”, o estudo foi concluído em 2016, com a proposta de analisar a prática de automedicação e fatores associados entre ribeirinhos daquela região. Os resultados foram divulgados recentemente. 



Gama revela que, embora a carência de recursos financeiros seja comum nessas regiões, os medicamentos são adquiridos pela população em farmácias particulares, uma vez que, nas públicas, há a necessidade de prescrição. Os remédios mais utilizados na prática de automedicação são os analgésicos (57,5%) e antimicrobianos (13,0%), os quais são usados para tratar principalmente os problemas álgicos (que provocam dor) de diferentes origens (58,1%). 

Riscos ocultos

Para o professor, as consequências do uso irracional de medicamentos pelos ribeirinhos - sobretudo pelos jovens do sexo masculino, que não procuram por serviços de saúde por conta do tempo elevado de deslocamento da comunidade à zona urbana - são diversas, embora difícil de se registrar pelo desconhecimento da população. “Pode ocorrer interações medicamentosas, inibindo ou potencializando a ação dos fármacos, intoxicações medicamentosas, reações adversas, resistência microbiana, além de gastos desnecessários com medicamentos”, alertou.

Omissão

A falta de ações do poder público nas comunidades ribeirinhas também contribui para a automedicação das populações do interior, conforme Gama. “Não tenho dúvidas de que isto é um dos principais aspectos que contribuem para automedicação. Na ausência de serviços de saúde, e uma vez que estas comunidades são distantes da zona urbana, a única alternativa é adquirir os medicamentos quando vão à cidade, estocar na residência e utilizar quando necessário, sem, no entanto, prescrição correta”, afirmou.

Desafios da região

O professor Abel Gama, que participou da pesquisa, ressaltou que as ações de saúde para as populações ribeirinhas são complexas, pois praticamente todo acesso à zona rural é por via fluvial, o que eleva os custos. Além disto, por conta das dimensões geográficas do Estado, é preciso pensar em ações que não sejam desarticuladas e descontinuadas, para que, assim, vários aspectos da vida ribeirinha sejam melhorados.

Usando a ‘telona’ para informar

Durante as atividades desenvolvidas na coleta de dados da pesquisa, o grupo liderado pelo professor Abel Santiago Muri Gama, também realizou atendimentos de saúde e promoveu ações educativas para os comunitários, como o ‘Cine Ribeirinho’.  “O cine reproduzia obras cinematográficas mundiais nas comunidades e tinha cunho educativo. O foco era conscientizar os comunitários sobre os riscos da automedicação”, explicou o professor.

Conforme ele, os pesquisadores elaboraram, em conjunto com os alunos no laboratório do ISB/Ufam, pequenos vídeos de forma lúdica com 2 a 4 minutos, com temas voltados aos riscos da automedicação e uso racional de medicamentos. “Os vídeos foram inseridos durante a exibição do filme. Foram realizadas três sessões, com a participação de 156 ribeirinhos de 6 a 89 anos”, contou.

Pesquisa evidencia falhas do sistema

De acordo com o pesquisador Abel Santiago Muri Gama, as informações do estudo   contribuirão para agregar informações destas populações, ainda pouco conhecidas.

Ele também destacou que o primeiro ponto é o reconhecimento do uso irracional de medicamentos nestas comunidades. Além disto, ao considerar que os antimicrobianos foram a segunda classe de medicamentos mais consumida na automedicação, mesmo com sua venda restrita à prescrição, o que evidencia um importante problema de saúde pública. 

“Este aspecto e outros alertam para as limitações de acesso aos serviços de saúde e à prescrição de medicamentos por profissionais habilitados, além da pouca fiscalização sobre a venda destes produtos, substanciam as seguintes ações futuras para melhoria do quadro atual: melhoria de acesso aos serviços de saúde; e ações que viabilizem o uso racional de medicamentos”, observou Abel.  

Apoio de instituições e pesquisadores

O estudo contou com apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam). Todo o auxílio concedido pela bolsa foi revertido para custeio das viagens até as comunidades ribeirinhas. Ao final do projeto foram navegados cerca de 2.000 quilômetros entre rios e lagos da zona rural de Coari, durante os quatro meses de coleta de dados.

Outro apoio foi da ONG  Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (Adra do Brasil), que cedeu a embarcação. O projeto é uma parceria entre a Ufam, com o pesquisador Abel Gama, e a Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP), com a pesquisadora Silvia Regina Secoli.


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