Domingo, 17 de Novembro de 2019
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Barco Sumaúma 2 forma 756 pessoas em 22 cursos técnicos

A CRÍTICA conta a história de pessoas pessoas que encararam quase uma hora de rabeta e trocaram o trabalho na agricultura pela qualificação profissional



1.jpg Ozevan de Sales Macedo (camisa verde) é o terceiro filha na linhagem de 15 irmãs. Ele abriu mão de oito horas de trabalho diário na roça para poder concluir o curso de eletricista e ajudar a família
16/03/2015 às 21:58

Imagine morar em um lugar onde vivem apenas 12 famílias e há pouca estrutura, como eletricidade e saneamento básico precários. Imagine também enfrentar quase uma hora de rabeta para chegar à cidade mais próxima. Imagine ser o segundo na linhagem de 13 filhos, na luta por uma oportunidade de emprego numa localidade onde não existe Internet ou acesso à universidade.   Essa é a realidade de Ozevan de Sales Macedo, 23, morador da comunidade “São Jorge”, próximo ao município de Tefé (distante 523 quilômetros de Manaus em linha reta).

Ele lida diariamente com estes obstáculos e, no início deste mês, conquistou algo que pode parecer pequeno para quem mora na “cidade grande”: o certificado do curso de eletricista residencial. Foram 40 dias na qualificação, deixando o trabalho pesado da plantação e cultivo da terra para aprender uma nova profissão.



“Não foi fácil porque eu venho de uma comunidade que fica a uma hora de viagem de rabeta. Eu gastava, no mínimo, três litros de gasolina por dia. Saía de casa às 11h e retornava às 19h. Eu vim porque sabia que esse curso teria um resultado muito grande para mim”, disse, ao revelar que desejava aprender sobre a área. “Desde pequeno eu sonhava em ter conhecimento sobre a parte elétrica. Chegou essa oportunidade e eu não quis perdê-la”, completou.

O rapaz faz parte do grupo de 756 formandos, de 22 cursos técnicos, do Barco-Escola Samaúma 2, inaugurado em Tefé e que já está atracado em Coari (a 363 quilômetros de Manaus) desde a última semana. O projeto de educação profissional itinerante é da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), por meio do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai-AM).

Para concluir o curso de eletricista, com carga de 160 horas, ele precisou abrir mão de 8 horas diárias de trabalho na roça. Hoje, a família dele sobrevive com a produção de hortaliças e outros produtos agrícolas, que correspondem a uma renda total de R$ 1 mil mensais. “Tenho uma esperança muito grande em relação ao meu futuro. Espero conseguir um emprego na cidade e ganhar um salário bom para ajudar mais a minha família”, disse Macedo.

Ele dedicou ao pai, José Rougevan, 51, e a mãe, Noemi de Sales, 42, que o apoiaram na busca pelo conhecimento profissionalizante, almejando um futuro melhor para o filho, bem como, a esperança de elevar a qualidade de vida de toda a família, formada por 15 membros.

Para o pai do novo eletricista, José Rougevan, permitir a ausência do “braço direito” nos serviços de plantio e colheita foi acertada. “Sempre queremos o melhor para nossos filhos. Fizemos um sacrifício, pois, além de não poder contar com ele na roça ainda precisávamos pagar pelos três litros de gasolina para ir e voltar do curso e isso não foi nada fácil”, disse, ao lembrar que o litro do combustível em Tefé custa R$ 4.

Oportunidade é para se aproveitar

A barreira da distância também foi rompida por Waldernan Assis, 18. Ao decidir que iria se inscrever no curso de operador de microcomputador, ele imaginava os desafios que enfrentaria devido a falta de transporte público do bairro Vila Nova, a 20 quilômetros do centro de Tefé, onde o Samaúma ficou ancorado. O ônibus passava em horários incertos e, por conta disso, o jovem teve que dormir muitas vezes em casa de parentes.

“Eu precisava me qualificar, pois quero entrar no mercado de trabalho esse ano e é importante ter um curso profissional que me permita mais chances de conseguir um emprego. Em todos os lugares precisam de funcionários que tenham conhecimento em informática básica, então resolvi me empenhar e não desisti, pois eu queria garantir esse aprendizado e meu certificado profissional”, disse.

Aos 38 anos de idade, Auriomar Tiago dos Santos, 38, venceu outro desafio: o da idade. Pai de cinco filhos, ele se formou em eletricista de comandos elétricos. Durante a entrega dos certificados, representou a classe, mesmo com uma febre de 40 graus. “Eu trabalhava na área, mas desconhecia muitas coisas, não era profissional como agora. Foi muito bom. Com o barco Samaúma 2 e o professor Nazaré ganhei uma chance única. Realizei um sonho”, disse.

Orgulho do professor eletricista

Assim como a família, o educador de Ozevan de Sales Macedo fica emocionado ao ver o esforço do aluno ter sido recompensado. Estreante no projeto Samaúma, Raimundo Nazaré Gomes Bonfim, 50, também leciona o curso de eletricista de comandos elétricos. “Foi um aluno que se destacou. Notei que ele se diferenciava dos demais. Ele me falou que é devido à necessidade, porque lá na comunidade onde ele mora tem muita coisa para arrumar”, disse.

O instrutor, inclusive, revelou que o rapaz já é “famoso” na pequena comunidade. “Ele começou a fazer a instalação elétrica da igreja, nas casas dos vizinhos e dos pais dele. Ele está fazendo a diferença na comunidade, fez o serviço na igreja do jeitinho que era para fazer, distribuiu os quadros direitinho. A própria comunidade já o vê com outro olhar, como um profissional. É muito satisfatório”, afirmou orgulhoso.

O docente fez questão de enfatizar a importância do curso para quem mora no interior, onde as oportunidades são escassas e, consequentemente, faz com que muitos jovens deixem as famílias para tentar a vida em Manaus. “A gente diz ‘ah, esse curso é gratuito”, mas para eles não é. Ele gastou 240 litros de gasolina, em 40 dias úteis. Eram 120 litros para ir e mais 120 para voltar. Se você somar R$ 4 por litro da gasolina, não foi de graça”, declarou.


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