Segunda-feira, 02 de Agosto de 2021
404 ANOS

Amor por Belém: paraenses relembram a cidade, iguarias, futebol, cultura e a fé

Neste domingo, data na qual a capital do Pará completa 404 anos de fundação, nascidos em Belém e que residem em Manaus falaram do carinho que têm pela 'Cidade das Mangueiras' ou 'Metrópole da Amazônia', como a cidade é conhecida



paraenses_F307824D-70AB-459D-A6BA-D78CEAF5F042.JPG Dona Zuleide, Mauro Contente e Mauro Tiago: família, que tem mais duas filhas, traz literalmente a capital do Pará para dentro de Manaus com a Casa Paraense / Foto: Euzivaldo Queiroz
11/01/2020 às 16:41

Eles saíram de Belém há vários anos, mas Belém nunca saiu do coração deles. Neste domingo, data na qual a capital do Pará completa 404 anos de fundação, os belenenses que residem em Manaus relembram do carinho que têm pela “Cidade das Mangueiras” ou “Metrópole da Amazônia”, como a cidade é chamada, do amor por iguarias como o tacacá e o açaí, da beleza da cultura marajoara e da fé por Nossa Senhora de Nazaré e o tradicional Círio.

Eles trazem histórias de quem recomeçou sua vida em Manaus após deixarem Belém, falaram do que mais sentem falta da cidade natal em relação à vida no Amazonas e contaram como trazem um “pouco de Belém” para a capital amazonense.



E trazer um pouco de Belém para Manaus foi o que fez o casal Mauro Contente Nogueira, 59, que é assssor parlamentar, e Zuleide Machado, dona de casa: há 1 ano eles fundaram a Casa Paraense, um restaurante cujo carro-chefe é a culinária da terra das mangueiras na rua Valência, 16, bairro Planalto.

“Vim para Manaus no final da década de 1980, na véspera de Natal, e já havia conhecido a minha esposa, que é de Terra Santa (PA), em uma viagem ao Baixo Amazonas, em Nhamundá. Vim aos 20 anos como estudante, e chegando aqui deixei uma vida tranquila em Belém. Comecei na antiga empresa Moto Importadora e depois na indústria Philips da Amazônia. Depois virei empresário montando uma sorveteria, numa época difícil de inflação gigantesca que acabou muitos negócios como o meu. Posteriormente fui aprovado em um concurso da Assembleia Legislativa do Estado em 1989 e estou lá até hoje. Já fui vice-prefeito em Nhamundá, minha esposa foi vereadora e hoje é o meu filho, Mauro Nogueira, que é administrador de empresas, o vereador atual”, relata ele. A união com a também paraense Zuleide gerou também as hoje médicas Liziane Nogueira, 35, e Lilian Nogueira, 33. 


Zuleide com o saboroso tacacá e Mauro com o delicioso açaí com tapioca: iguarias de Belém aqui em Manaus / Foto: Euzivaldo Queiroz

Quem entra na Casa Paraense da família se sente realmente em Belém: a fachada do restaurante, que abre todos os dias, tem pintada a bandeira do Pará. Em seu interior, o estabelecimento é decorado com, por exemplo, as camisas de clubes de futebol do Estado como o Clube do Remo, Paysandu, Cametá e Tuna Luso, o time do coração de Mauro Contente – a esposa é Papão. No cardápio, a legítima e deliciosa gastronomia oriunda do Pará com iguarias como tacacá, açaí com farinha de tapioca, maniçoba, pato no tucupi e o vatapá feito com  farinha de trigo (o do amazonense é com pão francês), entre outros. Tudo para consumação no local ou em delivery.

Antes dos quitutes, o cliente pode até saborear, de aperitivo, a cachaça que é produzida pela família. 

O som ambiente é, claro, carimbó, calypso e muita guitarrada: um aparelho de TV exibe constantemente videoclipes com artistas como o ex-casal Joelma e Chimbinha, que formavam a banda Calypso.  A esposa gosta de dançar carimbó, ritmo característica dos paraenses.

O casal vai todos os anos ao Círio de Nazaré. “É sagrado e pelo menos duas vezes ao ano vamos a Belém. Nas vezes que não fomos foi por causa de alguma dificuldade financeira que passamos no momento”, comentou Mauro.

“Tudo na vida é a maneira como você olha. Nunca tivemos facilidades, mas as dificuldades graças a Deus foram todas suplantadas uma a uma. O advento de eu ter conseguido esse emprego na Assembléia depois de 9 anos em Manaus, depois ter ido pro interior, onde fui vice-prefeito...nosso maior objetivo foi criar nossos filhos. Nesse período de luta não tivemos carro, nem muita grandeza. Tínhamos dois quartos: um para eu e ela, outro para os três filhos: tudo era para a formação deles, para terem condições de estarem estabilizados”, explica o pai.

Em nome da família, a mãe dona Zuleide Machado é só agradecimentos a Manaus: “Manaus nos deu tudo e temos gratidão a ela!”. Neste domingo, eles vão comemorar os 404 anos de Belém trabalhando, recebendo clientes paraenses e amazonenses e dando mais uma vez a prova da união entre os dois Estados.

Arte marajoara

Uma das maiores defensoras de causas sociais do Estado do Amazonas, incluindo o meio ambiente e a revitalização da Santa Casa de Misericórdia, e com obras que chegaram às mãos de personalidades como o papa Francisco,  a artista plástica Rosa dos Anjos, 48, veio de Belém para Manaus com quase 2 anos de idade trazida pela mãe, Celita dos Anjos, 70. “Ainda me lembro da minha tia me arrumando lá em Belém para mim viajar, d’eu viajando no barco. Meu pai, Francisco dos Anjos, veio trabalhar nos Correios como encanador hidráulico e passamos a morar no São Jorge em definitivo em 1972”, relembra a artesã, que conta sempre visitar os familiares de Belém.

 “Aqui era mais fácil em tudo, emprego por exemplo. Naquela época as coisas ainda eram baratas , tudo farto. Chegamos a possuir nove carros. Hoje temos moto: o Francisco anda em uma aos 75 anos de idade”, diz Celita dos Anjos.

“O paraense é diferente dos outros brasileiros: ele é bairrista, se agarra às coisas com muito valor. Isso está na minha veia, e apesar de estar morando no Amazonas durante muitos anos da minha eu não consegui me desvencilhar do gosto da comida, da culinária, da comida, da dança pois eu amo carimbó. Essas coisas estão dentro de mim, vieram junto comigo lá de Belém. Nunca tive contato com meu avô, Raimundo Conceição, que era ceramista e morreu quando eu tinha 11 anos de idade. Nunca o vi produzindo, mas sabia o que ele fazia, e depois fui conhecer de perto o que era a cerâmica marajoara lá em Belém. Mas desde criança eu fazia meus brinquedos com barro, como lá no igarapé do Santo Antônio, no bairro onde morávamos. Eu pegava a argila. Eu gastava meus cadernos (de escola) desenhando. Era natural para mim. É minha herança marajoara. Todo trabalho que eu faço em relação á escultura e modelagem foi feito com esse embasamento cultural da cerâmica marajoara que veio do meu avô”, conta a artista. Detalhe: ela nasceu no bairro de Icoaraci, local característico da cerâmica marajoara na terra das mangueiras. “E quem nasce lá é chamado de ‘pé-redondo’ porque têm muitas bicicletas”, diz a mãe Celita, que sente falta do açaí, do camarão  e do carangueijo.

 “Aqui tem, mas lá em Belém a comida é típica, que a gente gosta demais. Aqui tem o bodó; lá em Belém o mesmo peixe é o acari. Adoro ficar lá na cidade, de ir pra lá. Ano passado fui duas vezes”. Ela não frequenta o Círio de Nazaré: é evangélica.


Rosa dos Anjos e a mãe, Celita: lembrança e herança biológica da capital paraense / Foto: Euzivaldo Queiroz

“Mas acompanhamos a tradição e como é a cultura paraense. Acho bonito de ver a festa, a crença das pessoas em relação a algo que elas acreditam mesmo, o trabalho de ornamentação, do porquê do surgimento da corda, da fé, da persistência. Tudo isso me faz pensar mais ainda que o paraense dá valor a sua cultura, e de que todos nós, brasileiros, deveríamos ser exatamente assim. Recentemente a comida paraense foi considerada a melhor gastronomia do Brasil. Eu amo carangueijo”, explica Rosa dos Anjos, admiradora, não fanática, do Paysandu – a mãe é torcedora do Clube do Remo.   

“Em Belém tudo vira festa. Até quando as mangas caem lá na Praça da República”, ressalta Rosa dos Anjos.

Na entrevista, ambas ressaltam o característico linguajar do paraense, que traz elementos como a freqüente frase “olha já, então!”. “Foi com a mamãe que eu aprendi palavras como o ‘olha já, então’. E até hoje a mamãe fala, que é comum e imperceptível para ela. Tem também a palavra ‘egua’”, explica Rosa.


A artista plástica Rosa dos Anjos em seu atelier; à direita, criação dela a partir de cerâmica marajoara / Foto: Euzivaldo Queiroz

Neste domingo, Rosa, dona Celita e a família vão festejar os 404 anos de Belém comendo um gostoso vatapá com camarão. “Com certeza vamos ter vatapá, e não será de pão, e sim de trigo, como é no Pará, e acompanhado de um jambuzinho, tucupi, pimenta e camarão dos grandes”, diz a artista plástica, uma amazônida de carteirinha. Ela aproveita para elogiar a receptividade dos amazonenses. “Nunca tive problemas aqui em Manaus por ser do Pará. O amazonense recebe muito bem as pessoas de fora independente de ser paraense ou não. É um povo muito acolhedor e Manaus é uma cidade maravilhosa. Sou suspeita para falar. O Pará, o Amazonas, e vários outros lugares são Amazonia. Sou uma amazônida acima de tudo”, descreve Rosa.

Belém até no nome

Algumas pessoas têm a honra de trazer a capital paraense no próprio nome. É o caso do relações públicas Marco Antônio de Belém Pereira, ou Marko Belém, 56, como a população passou a conhecê-lo desde que desembarcou em Manaus em 1988.

“Belém é um nome de família, e levar esse nome me orgulha muito. Isso virou um marco, uma sigla pra mim. E as pessoas só me chamam de Belém, com algumas outras pensando que não. Sou Belém até no nome, mas o coração é amazonense”, declara ele.

Sua família teve origem em Parintins (a 325 quilômetros de Manaus), onde seu avô foi para Belém do Pará e em seguida para uma localidade paraense chamada Mojú, onde foi prefeito e coletor e teve uma filha, a mãe de Marko, chamada Adelzirene. “Vim de uma família humilde, na qual a minha mãe era costureira, depois passou a ser cabeleireira e todos nós estudávamos. Eu sempre dizia pra mim que eu deveria ter algo, crescer na vida, e só conseguiria através do estudo. A primeira faculdade que eu fiz foi de Educação Física, lá em Belém, fui campeão de aeróbica, de corrida, e isso foi abrindo as portas pois eu sempre fui assim, de nunca perder oportunidades que sempre apareceram pra mim. Sempre fui dinâmico, falava muito, de articular, ter amizades, de estar em locais dos quais eu não tinha condições. E fui abrindo um leque de amigos, pois sempre conheci pessoas ricas e influentes que sempre gostaram de mim. Passei num concurso para serviços gerais no Basa (Banco da Amazônia) e fui trabalhar com o principal colunista de Belém na época, o Edivaldo Martins, do ‘Diário do Pará’. Fui conhecendo as pessoas mais influentes de Belém, mas chegou uma época onde não queria mais servir cafezinho, pedi pra sair do Basa e procurei fazer outra coisa fora de Belém aos 19 anos”, conta ele.


O relações públicas Marko Belém: ele é Belém até no nome e tem devoção por Nossa Senhora de Nazaré / Foto: Junio Matos/Freelancer

De lá ele foi para o Recife, mas não se adaptou. Depois para Natal, a mesma coisa. Até que um colega perguntou porque ele não iria para Manaus, que estava em um momento ótimo com a Zona Franca e no qual tudo vendia. “Vim pra Manaus em 1988 por meio de um amigo chamado Raimundinho Mucura, com 21 anos. Passei a trabalhar na Bola da Suframa com outro amigo chamado Raimundo Nonato, o ‘Pantalona’, que tinha um barquinho que vendia sanduíches de tarde e, pela manhã, atuava no restaurante que ele tinha na Marinha. Mas o salário era muito pouco e comecei a trabalhar em bares. E, por volta de 1990, recebi um convite para trabalhar em Tefé na campanha do então candidato a prefeito Abel Alves. Ele não ganhou, mas o prefeito me convidou para dar aula de Educação Física e organizar eventos. Fui o primeiro organizador da Festa da Castanha. Depois não quis mais, juntei dinheiro e voltei pra Belém pra visitar a família e fiquei durante cinco anos lá. E nesse intervalo eu já tinha conhecido o colunista social de A CRÍTICA Júlio Ventilari. Quando voltei pra Manaus , comecei a dirigir o veículo dele, e substituí o gerente do programa de TV que ele tinha e que havia saído. Para pagar dívidas do programa e da TV eu criei uma feijoada há 20 anos. Conseguimos quitar a dívida e seu segui trabalhando com  o Júlio, conhecendo-o mais e a freqüentar o jornal A CRÍTICA, onde conheci o seu Umberto Calderaro Filho e dona Ritta de Araújo Calderaro. Frequentava as festas com o Júlio e as pessoas passaram a me conhecer”, relembra ele.

Belém entrou de vez para o rol da sociedade amazonense por um episódio bastante curioso: ele achou, em meio a um salão ricamente ornamentado e lotado de pessoas, o anel de brilhante avaliado em torno de R$ 100 mil hoje, que uma socialite usava e que havia perdido durante a festa de 15 anos da sua filha. “Fiz uma devoção para São Longuinho que se achasse a jóia eu daria dez pulinhos. Ao olhar para uma parede, vi que algo refletia na parede cheio de cores. E me lembrei que uma tia de Belém falava que o anel de brilhante é uma peça que ‘quando bate’ uma outra luz ele reflete várias cores. Peguei o anel, e falei para a dona da festa abrir a mão. Ela abriu e eu coloquei o anel e ela ficou muito contente. No dia seguinte, o comentário na cidade era do Marko Belém, que havia encontrado o anel de R$ 100 mil naquela época. A partir fiquei mais conhecido”, recorda ele.

Hoje, o dia de Marko é dividido entre os afazeres de relações públicas do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM), assistente do colunista Júlio Ventilari em A CRÍTICA e no programa de TV InComum, além de atuar como assessor de comunicação em algumas iniciativas.


Marko Belém e as imagens sacras que tem em sua residência: a devoção por Nossa Senhora de Nazaré ocupa um capítulo à parte na vida dele / Foto: Junio Matos/Freelancer

Para vir de um Estado para o outro existem três conceitos primordiais que sua sempre passou pra ele, diz Belém. “Você ser uma pessoa de fé, muito trabalhador e honesto.Se você não for honesto, não procurar fazer por onde, você não cresce. Tudo é uma questão de concorrência. Manaus naquela época era uma cidade pequena, ainda se desenvolvendo com a Zona Franca. Então, quando você faz o trabalho para alguém, vá lá, faça, preste contas, e mostre o que tem que ser feito que o seu nome vai em frente. Uma pessoa vai indicando você pra outra. E, com isso, você vai crescendo. Me sinto uma realizada. Sou pai, avô de dois netos maravilhosos – o Bernardo e o Pedro. Não vejo dificuldade mesmo você saindo de sua cidade para outra. Lógico que, pra isso acontecer você tem que ser mais jovem. É difícil, hoje em dia, você querer sair de uma cidade com 50 anos indo para outra pra recomeçar, exceto se você já for um grande profissional”, disse ele.

Marko Belém conta que antigamente sentia muita falta da sua família que residia na capital paraense. “Hoje já não tanta falta porque eles vieram aqui pra Manaus. Consegu trazer meu filho e minha mãe mora aqui comigo. Nessa parte não sinto falta”, diz ele.

A devoção por Nossa Senhora de Nazaré ocupa um capítulo à parte na vida dele: “Todos os anos eu vou a Belém umas duas vezes. E não perco o Círio de Nazaré, que é muito sagrado para mim. O Círio é o Natal do paraense”.

Sobre a gastronomia, há uma saudade que ele procurar preencher trazendo de Belém ou mandando buscar iguarias como o tradicional açaí. “Eu trago Belém, trago uma parte da cidade para a minha casa, como imagens de Nossa Senhora de Nazaré, ou litros de açaí ou tapioca. Trago tudo, porque eu tenho vontade de comer eu como. Minha mãe faz maniçoba. Gosto do vatapá de trigo e não de pão. Quando fico com saudade de praias eu vou pro rio e tento amenizar essa saudade. E os paraenses estão dentro de Manaus. Como Santarém não cresceu as pessoas migraram para Manaus. A cultura de Belém pode até ser avançada, pois de lá se sai pra qualquer lugar de carro, a culinária é boa, mas aqui não se deixa a desejar. Hoje em dia podemos saborear vários pratos e vários chefs vêm pra cá. E a gastronomia em Manaus é maravilhosa, claro”.

Segundo ele, falta os amazonenses ‘puxarem’, estimularem outros próprios amazonenses. Marko conta que vai passar o aniversário da cidade de Belém falando com várias pessoas de lá e postando mensagens.

“É a cidade na qual eu nasci e me criei. Mas eu hoje em dia sou mais amazonense que paraense. Me sinto elogiado quando alguém elogia Belém do Pará, mas fico irritado quando vejo alguém falando mal de Manaus”, ressalta ele.

Repórter de A Crítica

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