Domingo, 05 de Julho de 2020
Toma lá, dá cá

Bolsonaro: medo de impeachment abre espaço ao centrão, analisa cientista político

Governo federal começou a acomodar, em postos de confiança, figuras indicadas por partidos que fazem parte do centrão



boxo_427A484D-0DFA-484F-B076-E5BBA50C8C20.JPG Foto: Adriano Machado/Reuters
27/05/2020 às 17:02

Eleito com o discurso da nova política e de que não negociaria cargo com o Congresso, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se aproxima de lideranças do centrão e já começou a entregar postos de confiança a pessoas ligadas ao grupo. Analistas avaliam que essa é a alternativa encontrada pelo presidente para assegurar governabilidade diante dos pedidos de impeachment e de abertura de CPI.

“Perdeu o discurso da moralidade, da economia liberal sobrando a pauta de costumes e ele tenta se salvar se agarrando nessas velhas práticas da velha política com políticos do centrão. Que usam as siglas partidárias para fazer negócios com o Estado, para beneficiar poucos em detrimento do coletivo. Deixando em segundo plano a pauta do combate à corrupção, é difícil esperar grandes realizações do ponto de vista econômico”, declarou o cientista político Carlos Santiago.



Depois de ter entregue o comando do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, vinculado ao Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR), para o PP, sigla influente do Centrão, o governo Bolsonaro escolheu, o advogado Tiago Pontes para comandar a Secretaria de Mobilidade e Desenvolvimento Regional e Urbano do MDR.

A indicação foi do presidente nacional do Republicanos e vice-presidente da Câmara, Marcos Pereira. O Republicanos é uma das legendas do centrão mais próximas do governo federal. Abriga o filho mais velho do presidente, senador Flávio Bolsonaro (RJ), e o segundo filho, vereador Carlos Bolsonaro (RJ).

Assim como em outros governos, as negociações com o centrão além de garantir a aprovação de medidas, sobretudo, na área econômica, visa assegurar base para frear eventual processo de impeachment.

Bloco

O centrão é um bloco partidário informal de legendas de centro e centro-direita, mais conhecido por negociar espaços através da nomeação nos governos, independente da ideologia. Contra alguns políticos do grupo pesam processos judiciais e condenações por má utilização de recursos públicos como é o caso do presidente do PTB, Roberto Jeferson condenado do mensalão petista.

Siglas como Republicanos, PL, PP, PSD, Solidariedade, PTB, Pros e Avante estreitaram relações com o governo federal. Essa aproximação pode representar o apoio de até 221 dos 513 deputados federais.

O grupo mira o comando do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, Banco do Nordeste, Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, Fundação Nacional de Saúde e Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba.

Na sexta-feira, Bolsonaro reconduziu para o Conselho da Itaipu Binacional, hidrelétrica que fica na fronteira com Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, Carlos Marun, ex-ministro de Michel Temer, e o ex-deputado e delatado da Odebrecht José Carlos Aleluia (DEM-BA).

“Se você questionar se é necessário? O governo para ter essa política no Congresso precisa estar ao lado de partidos fortes. No Brasil, o problema é que a maioria dos partidos não faz aliança de governo. Fazem coligações para disputar as eleições e depois querem fatiar os ministérios, o orçamento e disponibilizar cargos para amigos, correligionários e fazendo caixa dois para funcionamento de campanha. Essa é a lógica que funciona no Brasil”, pondera Santiago.

Negociata

O analista avalia que ao abraçar esses partidos fisiológicos, e suas lideranças há um desgaste no governo e enfraquecimento da administração pública, e o acordo sai muito caro. “A administração fica desgastada politicamente e sendo questionada do ponto de vista ético, que não avança em melhores indicadores sociais, e para quem já tem um traquejo para lidar com esse tipo de negociata requer muitos recursos públicos e cargos partilhados”,concluiu.

Análise: Francinézio Amaral, mestre em sociologia e cientista político

As pessoas se utilizam da forma como a teoria (do presidencialismo) foi elaborada que diz que o presidente para governar precisa do apoio do Congresso, mas é totalmente diferente da política toma lá, dá cá. O apoio vem da necessidade de maturidade política que não temos no nosso país.

O presidente ao mandar um projeto de lei o Congresso não deve avaliar se veio de um adversário ou não, deve analisar qual o bem daquilo para população. Se está bem elaborado e não interessa se o presidente é do meu partido ou de oposição. Infelizmente, isso passa longe do nosso sistema que lida com a necessidade que o presidente tem de fazer alianças, parcerias e apoio para governar na forma do toma lá, dá cá.

O centrão é o exemplo mais puro e acabado do toma lá, dá cá. Em ciência política o pior lugar para se estar é no meio. Tentar ser isento. Isso é mentira e hipocrisia. Isso é o discurso de todos os políticos de centro porque se escondem nessa desculpa de que não toma um lado e vão apoiar quem tiver o melhor projeto. É mentira, só vão apoiar quem der algum tipo de vantagem.

Político, no sentido clássico, é aquele que sabe dialogar, principalmente, com quem pensa diferente dele e tenta conseguir o maior equilíbrio nas decisões. Bolsonaro passa longe disso. Como não tem competência para articulação política, vendeu o discurso de que ia acabar com a ‘mamata’, ia ser contra a velha política, não ia trocar cargo por apoio, mas isso foi só falácia. Agora é refém do centrão.

Com os indícios de crimes de responsabilidade, a única forma dele se manter no poder é adotando a política do toma lá, dá cá. Ele está trocando cargos no governo por uma base de apoio para que com os pedidos de impeachment, que uma hora ou outra vão ter que ser recebidos pelo Maia, tente se salvar tendo uma base que vote contra.

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