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Cotidiano
Pela segurança delas

Campanha '16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres' faz alerta

De ontem até o próximo dia 10, ações de cidadania serão realizadas, por meio da Secretaria Executiva de Política para Mulheres (SEPM) da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), visando fortalecer o combate à violência e sensibilizar a população sobre a temática 26/11/2016 às 09:07
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Representantes de vários órgãos participaram da abertura da campanha na manhã de sexta-feira (Fotos: Winnetou Almeida)
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Os preocupantes índices de violência contra a mulher no Amazonas foram pano de fundo para a abertura, nesta sexta-feira, no Centro de Convivência da Família Padre Pedro Vignolia, na Cidade Nova, Zona Norte, da campanha “16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres”. De ontem até o próximo dia 10, ações de cidadania serão realizadas, por meio da Secretaria Executiva de Política para Mulheres (SEPM) da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), visando fortalecer o combate à violência e sensibilizar a população sobre a temática.

De acordo com o Mapa da Violência de 2015, o número de homicídios de mulheres no Amazonas cresceu 174,3% entre 2003 e 2013. A taxa de homicídios de mulheres por cada 100 mil habitantes do Amazonas foi a sexta que mais cresceu entre os Estados brasileiros no período. O Mapa também aponta que o Município de Barcelos (a 399 quilômetros de Manaus) está em 1º lugar na lista de cidades com as maiores taxas médias de homicídios de mulheres.

Já os números da pesquisa “Estatísticas do Registro Civil 2015” atestam que, nos últimos dez anos, o Estado do Amazonas registrou aumento de 171,4% nos óbitos violentos de mulheres, contra  128,7% entre a parcela masculina, liderando o crescimento de mortes violentas (óbitos causados por acidentes de trânsito, afogamentos, suicídios, homicídios e quedas acidentais) e bem à frente do segundo colocado, Sergipe, que apresentou percentual de 85,7%.

Outro dado alarmante do estudo é que, somente em 2015, na faixa etária dos 15 aos 24 anos, ocorreram 56 mortes de mulheres e 402 de homens no Estado, totalizando 458 óbitos nessa parcela de jovens.

A titular da Delegacia Especializada de Crimes contra a  Mulher, delegada Andréa Nascimento, disse que a maior incidência da violência contra a mulher está dentro dos lares. “Somente neste ano nós já ultrapassamos, contabilizando as duas delegacias delegacias da mulher, mais de 10 mil boletins de ocorrências. Quer dizer, são mais de 10 mil denúncias de violência que ocorrem dentro do âmbito familiar. E isso sem levar em consideração as outras delegacias que também recebem esse tipo de registro”, informa a delegada titular.

Conforme explicou o defensor público Gualberto Graciano Melo, titular do Núcleo de Atendimento Especializado à Mulher (Naem) da Defensoria Pública do Amazonas (DPE-AM), a campanha tem a finalidade de ativismo para que se permaneça vivo na memória da sociedade a intenção clara de combater a violência doméstica: “A perspectiva em face desse quadro é que não podemos ser hipócritas e achar que a violência vai acabar. É uma questão cultural que envolve homens. A violência doméstica prescinde de um preconceito do homem em relação à mulher, e isso é cultural, fica difícil imaginar quando vai acabar. E é preciso esse ativismo para diminuir esses números”.

A campanha tem como símbolo o laço branco e trata-se de uma ação internacional em que os homens abraçam a causa do enfrentamento a violência contra a mulher. “É muito importante envolver os homens porque eles são os principais protagonistas da violência, e queremos levar cada um a declarar o seu respeito à integridade física e moral das mulheres. Queremos essa ampla participação porque quando somamos forças em diversas ações, estamos avançando para reduzir a violência”, destacou Keyth Bentes, secretária Executiva de Política para Mulheres.   

Ronda Maria da Penha

Presentes ao  evento de ontem, os policiais militares Mayra Coutinho e Hélio representaram a Ronda Maria da Penha, que existe há 2 anos e que é subordinada a 27ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom) do Novo Aleixo) e 13ª Cicom do Cidade de Deus, auxiliando as vítimas através da fiscalização das medidas protetivas de urgência, efetuando o boletim de ocorrência nas delegacias e, a partir daí, dando orientações e atendendo essas mulheres para que saíam do ciclo de violência.

Nesses 2 anos o projeto já realizou, no loteamento Novo Aleixo e no bairro Cidade de Deus, ambos na zona Norte, um total de 3.724 visitas. Desse total foram atendidas 712 mulheres, das quais 47 ainda permanecem em atendimento, e 476 solicitaram o fim das visitas por se sentiam seguras.

“É muito importante darmos esse acompanhamento pois as vítimas se sentem inseguras e com medo do agressor reaparecer”, disse a policial Mayra. “A vítima com certeza se sente bem mais à vontade com uma policial feminina, e dessa forma podemos ajudá-la”, explica ela.

Concurso

A causa também envolveu os alunos da rede pública estadual de ensino com a quarta edição do concurso da violência contra a mulher. o concurso teve a participação de 84 escolas estaduais da capital e interior e 200 trabalhos inscritos nas categorias de redação, cartaz, encenação teatral e música. Entre os municípios que participaram, estão Anamã, Boa Vista dos Ramos, Japurá, Presidente Figueiredo, Careiro castanho e Nhamundá.

A proposta foi expressar a mensagem de respeito às mulheres.  Os vencedores foram premiados durante o evento no Centro de Convivência,  como é o caso do aluno Lucas da Silva, 18, da Escola Estadual Professor Jorge Karam Neto. Ele venceu na categoria musical com a composição “mulher faz o que quer”. “ Eu fiz a música a partir de vivências na minha família e na vida de amigos, e eu acredito que a mulher pode fazer e o que quer porque ela tem conquistado esse espaço ao longo do tempo”, disse o aluno.

Os vencedores do concurso foram a Escola Estadual Gilberto Mestrinho, com a aluna Maria Eduarda Garcia de Souza (Cartazes), Escola Estadual Olga Falcone, com a aluna Tainara da Silva e Silva (Redação), Escola Estadual Jorge Karam Neto, sendo premiado o estudante Luca da Silva Brito (Música) e Escola Estadual Agnello Bittencourt, com a vencedora a aluna Pablinny Regina Ribeiro Eugênio (Teatro). 

Análise

*Ivânia Vieira

Há um sistema organizado na sociedade que historicamente mantém o vigor da violência contra as mulheres.

Como sistema seus braços estão multiplicados e em operação nas várias áreas: produção do conhecimento; nos ambientes de convivência, nas relações supostamente amorosas; na construção das afetividade; nos ambientes do trabalho, das escolas; das igrejas; nos conteúdos de entretenimento; na postura da mídia; Enfim, está desenhada e enraizada a cultura da violência cuja identidade é o não-respeito a outra pessoa, é enxergar a mulher como objetivo que tem dono e esse dono decide o que é bom e ruim para essa pessoa - mulher; decide como a mulher deve viver e deve morrer, descarta a pessoa.

É muito complicado enfrentar tamanha estrutura. Precisamos fazer alianças estratégicas com as lutas igualmente históricas das mulheres em todo o mundo. Precisamos construir diálogos entre nós, mulheres, e com os homens que somam nessa luta porque estamos tratando de algo que diz respeito a uma nova humanidade. Como aceitar que 13 mulheres sejam assassinadas a cada dia, como ocorre no Brasil? E outras milhares sejam sequeladas para viver sib a marca do medo, do pavor?

Nós, mulheres jornalistas do Amazonas, demos um passo na direção dessas alianças. É um passo talvez pequeno - o nosso primeiro na versão mais coletiva - e teremos escorregões nesse caminhar. Penso animada que seguiremos, mais juntas ainda que tenhamos diferenças para ampliar nossa participação criativa e solidária nessa causa. Sim, queremos mudar o mapa da violência contra a mulher. E mudando esse mapa mudaremos outros de outras violência. Hoje nossos corpos e almas estão marcados pelo sangue de tantas mortes e pela tristeza profunda das perdas sofridas. É a esperança-ação que encanta a luta das mulheres. Por isso, a resistência alimenta as mulheres a seguirem em frente para desconstruir a naturalização do machismo.

*Ivânia Vieira é jornalista, ativista do movimento de mulheres solidárias do Amazonas(Musa) e do Fórum de Mulheres Afro-ameríndias do Amazonas e professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Agenda

Dia Internacional da Não-Violência contra às Mulheres

-25/11 - Abertura da Campanha, Premiação do 4º Concurso Estadual de Prevenção à Violência contra às Mulheres e Ação de Cidadania

08h às 15h - Centro de Convivência da Família Pe. Pedro Vignolia 

Rua Gandú, 119 bairro Cidade Nova         

 -25/11- Ato de Combate ao Assédio Moral e Sexual contra Mulheres

15h - SPA Alvorada       

Rua Loris Cordovil bairro Alvorada

-21 a 30/11 - Oficinas Populares Viver Sem Violência é Direito de Toda Mulher

09h às 17h - Associações, empresas, Cras, escolas

-29/11 - Encontro de Elaboração do Plano Estadual de Políticas para às Mulheres (2016-2019)

09h às 17h - Auditório DDPM da Semed 

Rua Maceió bairro Adrianópolis, após o viaduto Miguel Arraes

Dia Mundial de Luta contra a Aids “Eu me importo – E Você?”

01/12 - Oficinas Populares Saúde Reprodutiva e DST/Aids das Mulheres

08h às 17h - Associações, empresas, Cras, escolas, etc

Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres

06/12 - Campanha do Laço Branco 

Mobilização pelas redes sociais com depoimento de homens

06/12 - Oficinas Populares O Valente Não é Violento

08h às 17h - Associações, empresas, Cras, escolas, etc

Dia Internacional dos Direitos Humanos

10/12 - Viradão dos Direitos Humanos

17h às 00 – Centro de Manaus 

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