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Campus da Universidade Federal do Amazonas é alvo de agressão

Poluição de todo tipo e invasões por moradores do entorno para uso recreativo e criminoso estão prejudicando um dos maiores fragmentos de florestas do mundo 21/11/2015 às 15:52
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Estudo de conclusão de curso identificou todo tipo de poluição dentro da Área de Preservação Ambiental do campus da Universidade Federal do Amazonas
Silane Souza Manaus (AM)

A ação do homem pode ser a causa do declínio acentuado da população de duas espécies de répteis - a cobra jararaca da Amazônia e o lagarto tamaquaré -, que vivem na Área de Proteção Ambiental (APA) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), situada na Zona Centro-Sul, área que corresponde ao Campus do Aleixo e onde estão concentrados a maioria dos curso da instituição federal.

Um estudo de conclusão de curso de alunos de ciências biológicas da Ufam mostrou que entre 2008 e 2015 houve uma redução de 92% no número de cada uma dessas espécies, antes abundantes nas matas do campus do Aleixo.

De acordo com o professor do departamento de Ciências Biológicas da Ufam, Igor Luis Kaefer, a jararaca e o tamaquare são espécies muito associadas aos igarapés e riachos que cortam a área da Ufam e o que se imagina é que degradação desses corpos d’água esteja causando o declínio na abundância dos animais. Conforme ele, as pessoas continuam entrando nessa área para fazer uso recreativo e também para caçar e coletar frutos.

“Durante a coleta de dados dos dois projetos de Iniciação Científica, desenvolvidos no campus, foi encontrado bastante lixo no interior dessa área, como resíduos sólidos, embalagens de reagentes químicos e também de material institucional descartado no interior do fragmento florestal. No momento não podemos relacionar se a redução dessas espécies está associada a essa degradação observada no fragmento, mas isso é um indicativo de que a deterioração das condições dos habitats pode estar causando o declínio de algumas espécies”, comentou.

Cercas danificadas

A bióloga Thais de Almeida Corrêa ressaltou que a APA da Ufam é cercada em alguns pontos, mas a maioria das cercas está caída ou foi danificada a fim de facilitar a entrada de pessoas no fragmento florestal. Conforme ela, existem outros estudos de alunos da Ufam que mostram que nas áreas da APA próximas dos bairros Coroado e Japiim II a população continua invadindo o fragmento, o que não é permitido.

“É uma Área de Proteção Ambiental e não poderia entrar ninguém sem autorização para fazer nada, nem para tirar uma flor”, destacou.Thais contou que durante a coleta de amostragem, a equipe percebeu que alguns igarapés que existiam em 2008 sumiram, ou seja, não foram mais encontrados este ano. “A deterioração de uma área é uma coisa que leva tempo, mas a gente se assustou com a rapidez que está ocorrendo na APA da Ufam.

Os auxiliares de campo percebem que há diferença nítida do ambiente, já que os igarapés parecem estar ficando mais secos e sujos”, salientou.Habitat prejudicadoIgor Luis Kaefer complementou que as espécies que vivem nesse ambiente devem estar sofrendo pela diminuição da qualidade do habitat para sobreviverem dentro do fragmento da Ufam, o qual é o maior fragmento de mata nativa de Manaus, e um dos maiores do planeta dentro de uma cidade.

“Poucas cidades do mundo possuem um fragmento de mata do tamanho deste da Ufam. Este é muito importante, pois abriga algumas espécies ameaçadas de extinção como o sauim-de-coleira, além de servir de refúgio para as demais espécies afetadas pelo crescimento urbano desordenado”, afirmou Kaefer, que pretende levar os estudos para discussão na comunidade

Trabalho monitorou as espécies

A redução na população da cobra jararaca da Amazônia e do lagarto Tamaquaré, que vivem na APA da Ufam, foi verificada por meio do Trabalho de Conclusão de Curso de Thais de Almeida Corrêa e do estudante Diogo Magalhães Costa, cujo orientador foi o professor Igor Luis Kaefer. Em 2008, o estudo foi feito pela então estudante Luciana Frazão Luiz. Em ambos os anos, a pesquisa foi financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Este ano, Thais foi responsável pelo estudo em relação à população das serpentes, que identificou sete espécies na APA da Ufam, e Diogo fez as pesquisas sobre os lagartos, onde foram identificadas 22 espécies vivendo na mesma área. O trabalho dos dois foi apresentado no 3º Simpósio CENBAM e PPBIO Amazônia Ocidental, realizado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Conforme Kaefer, 10 parcelas de amostragem do fragmento da Ufam foram analisadas por cinco meses, em horário de dia e de noite. “O estudo se iniciou em 2008, quando foi feita a primeira amostragem e foi repetido em 2015. No momento não temos nenhum estudo de monitoramento da abundância de populações animais. Essa é a primeira tentativa de iniciar um processo de monitoramento da fauna no campus”, disse.

Competências paralelas ajudam a preservação

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas), que responde pela gestão de 12 áreas protegidas na cidade de Manaus, exceto a Área de Preservação Permanente da Ufam, explicou que a instituição de ensino universitário é federal, mas o fato de estar numa APA não tira dos órgãos federal e estadual a autonomia de atuação na fiscalização de seus limites.

Agora se a intervenção afeta o entorno, a Semmas disse que pode atuar em parceria com o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a própria Ufam. Além disso, a Ufam tem um órgão próprio, a Prefeitura no Campus, que responde pela gestão do lugar e a APA também tem um conselho consultivo que pode ser acionado em casos que envolvam denúncia de cada degradação e poluição de qualquer espécie.

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