Sábado, 20 de Julho de 2019
SAÚDE

Câncer de pulmão: atraso no diagnóstico precoce é desafio no tratamento

Apesar de ser o que faz maior número de vítimas no Brasil, mais de 90% dos diagnósticos são feitos com a doença em estágio avançado, quando não é mais possível fazer a cirurgia



cigarro-fumando_44F14CF8-35F1-439F-A79B-223C237C2B71.jpg Foto: Reprodução/Internet
24/12/2018 às 11:01

Paulo Silas é jornalista e tem 32 anos. Em 2016, ele foi diagnosticado com câncer de pulmão, depois de oito meses de idas e vindas ao consultório de vários especialistas, incluindo um ortopedista e um neurologista. A funcionária pública Iane Cardim, de 58 anos, também demorou a receber uma confirmação da doença: foram cinco meses entre consultas e broncoscopias até descobrirem a causa real da tosse persistente dela.

Fora o fato de que Iane fumava há anos e Paulo nunca colocou um cigarro na boca (prova de que o câncer de pulmão não atinge só os fumantes), a coincidência entre as duas histórias revela que o atraso no diagnóstico precoce desse tipo de tumor é um dos principais desafios para quem atua no atendimento aos pacientes oncológicos. O tema foi discutido recentemente durante o II Fórum Temático Oncoguia sobre Câncer de Pulmão, realizado em São Paulo.

O médico Ricardo Santos, cirurgião torácico do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa, trouxe o dado mais alarmante – apesar de o câncer de pulmão ser o que faz o maior número de vítimas no Brasil, mais de 90% dos diagnósticos são feitos com a doença em estágio avançado, quando não é mais possível fazer a cirurgia, tida como o tratamento com maior chance de cura.

Segundo ele, isso se deve a múltiplos fatores, como a baixa quantidade de tomógrafos no Brasil. “Durante muito tempo a radiografia foi testada e se mostrou ineficaz para identificar o câncer em estágio inicial. A tomografia de baixa dose é o método mais indicado hoje em dia porque pode ser repetida ao longo do ano para o acompanhamento de possíveis nódulos”, afirma ele.

De acordo com a oncologista e diretora da América Latina na Association for Study on Lung Cancer, Clarissa Mathias, no SUS a taxa é de 4,9 tomógrafos para cada 1 milhão de habitantes, enquanto no sistema privado é de 30,8 máquinas para cada milhão de pessoas. A distribuição é ainda mais desigual nas regiões Norte e Nordeste. “Também é preocupante a baixa taxa de realização de testes moleculares em pacientes com a doença no País. São cerca de 60% dos pacientes testados na saúde privada e cerca de 30% no SUS”.

Para os especialistas, o problema também está ligado à capacitação das equipes de atenção básica. Dados de uma pesquisa online do Oncoguia, por exemplo, mostram que 40% dos pacientes atendidos pelo SUS passaram por mais de três médicos até o diagnóstico conclusivo.

Quanto a esse ponto, o médico Mauro Zamboni, da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, destacou que menos de 20% das faculdades de medicina no Brasil tem em sua grade de formação a cadeira de Oncologia. “Junto a isso, existe um preconceito do próprio médico, porque a tendência é você fugir do que não conhece. Então, o indivíduo chega ao posto de saúde com seis radiografias de tórax, é atendido pelo generalista mal formado e não é encaminhado”, ponderou.

Na avaliação que faz desse cenário, a fundadora e presidente do Oncoguia, Luciana Holtz, ressalta a importância em disseminar a conscientização sobre câncer de pulmão em todos os níveis. “A fala dos pacientes está sempre muito relacionada ao fator tempo: tempo para chegar ao especialista, para fazer o exame e para fechar o diagnóstico. Precisamos criar estratégias para garantir isso. As prioridades são educar a população para identificar sinais e sintomas, começar a discutir rastreamento usando a tomografia para os grupos de alto risco, como os fumantes, e sensibilizar os médicos da atenção básica para a detecção precoce do câncer”.

31 mil

é o número de novos casos de câncer de pulmão no Brasil em 2018, segundo o Inca.

90%

dos casos são diagnosticados com a doença em estágios avançados.

66%

é quanto diminui o risco de câncer para quem para de fumar aos 50 anos.

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