Quinta-feira, 24 de Setembro de 2020
Saúde

Câncer por HPV já matou 161 mulheres no Amazonas em 2020

Sexualmente transmissível, o vírus tão comum que quase todos os homens e mulheres serão infectados alguma vez na vida por um ou mais de seus 150 tipos



190407_DIA-SAUDE_DP00096__1__B1FD015A-C71E-4C5E-A426-AF6B53589737.jpg Foto: Divulgação
10/08/2020 às 10:50

O HPV é um vírus sexualmente transmissível tão comum que quase todos os homens e mulheres serão infectados alguma vez na vida por um ou mais de seus 150 tipos. De todas as variações descobertas até hoje, cerca de 40 delas podem infectar o ânus e a genitália, e ao menos 12 tipos podem causar câncer. Destes, o mais comum no Amazonas é o câncer de colo do útero que, segundo levantamento da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), vitimou 161 mulheres de janeiro a junho de 2020 – uma média de 23,54 mortes ao mês.

O HPV, cuja sigla, oriunda do inglês, significa papilomavírus humano, é um vírus que infecta pele ou mucosas (oral, genital ou anal), tanto de homens quanto de mulheres, provocando verrugas na região íntima ou lesões cancerígenas. O vírus pode ser transmitido pelo sexo penetrativo e até mesmo durante a masturbação do parceiro. Nesse último caso, ocorre geralmente quando as lesões estão na base do pênis ou da vulva e a camisinha pode não impedir a transmissão - o que não é desculpa para dispensar o uso do preservativo nas relações sexuais, pois ainda assim o método reduz o risco de exposição não só ao HPV como também a outras infecções (HIV, a gonorreia, a clamídia, o herpes, entre outros). Estimativas apontam que cerca de 84,6% das mulheres e 91,3% dos homens sexualmente ativos terão contato com o vírus ao longo de suas vidas, o que pode acontecer até mesmo na primeira relação sexual. No geral, mais de 80% das pessoas de ambos os sexos contraem o vírus antes dos 45 anos. Para não alarmar, na maioria das vezes, ele é eliminado pelo próprio sistema imunológico.



De acordo com o médico ginecologista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Valentino Magno, o HPV é uma infecção silenciosa que progride de forma lenta. “Os sintomas do vírus podem ser descobertos apenas quando já está em um estágio mais avançado do que gostaríamos, por isso a importância dos exames de acompanhamento com o médico. Na maioria dos casos, o HPV desaparece por si próprio e não causa problemas de saúde. Porém, quando o vírus não desaparece, pode causar verrugas genitais e até mesmo câncer”, alertou o médico.

As verrugas genitais, explica Magno, geralmente aparecem como uma pequena protuberância na área genital. Elas podem ser pequenas ou grandes, elevadas ou planas. Porém, o HPV também pode causar o câncer cervical (mais conhecido como câncer do colo de útero) ou câncer no fundo da garganta, incluindo a base da língua e as amígdalas (chamadas de câncer de orofaringe). “Não há como saber quais serão as pessoas com HPV que desenvolverão câncer, por isso a importância de rastrear a população”, disse.

Vacinação antes do início da vida sexual é o ideal

A melhor  e mais eficaz forma de se proteger do HPV é a vacinação, especialmente antes do início da atividade sexual. Por isso, a vacina, distribuída gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), tem como público-alvo meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos. A vacina é composta por duas doses com intervalo de seis meses entre a primeira e a segunda aplicação (os meninos tomam três doses após os 15 anos).

Pessoas que vivem com HIV e pacientes transplantados na faixa etária de 9 a 26 anos também têm a direito a dose gratuita nos postos de saúde de Manaus, contudo, a mesma é contraindicada para gestantes. A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) também considera a vacinação de mulheres e homens adultos em seu calendário de vacinação, mesmo que previamente infectados pelo HPV.Segundo a médica ginecologista Mônica Bandeira, a vacina é segura, eficaz e gratuita, por isso é importante uma adesão em massa.

Vacinar os meninos é fundamental para prevenção

A pediatra  e atual vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBim), Isabella Ballalai, reforça que a vacinação contra o HPV poderia impedir que mais de 90% dos cânceres causados pelo vírus se desenvolvam.

"Existem dois tipos de vacina contra o HPV. A quadrivalente, por exemplo, é recomendada para meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14. Todos os indivíduos nessa faixa etária deveriam receber a vacina. Hoje, sabe-se que a resposta imunológica à vacina é melhor quando aplicada até essas faixas etárias, o que não contraindica a sua aplicação para os demais", explicou ela.

A pediatra ainda esclareceu por que é importante que os meninos também sejam imunizados.

 "Eles devem receber a vacina para sua proteção. O HPV tem sido relacionado a verrugas genitais, câncer de pênis, ânus e garganta.

Doença tem tratamento

Não há um tratamento específico para o HPV. No entanto, existem recursos terapêuticos para os problemas de saúde que o vírus pode causar. As verrugas genitais podem ser tratadas com medicamentos prescritos por um médico. Se não forem tratadas, elas podem desaparecer por conta própria, permanecer iguais ou crescer em tamanho ou número.

Já os cânceres relacionados ao HPV também são mais tratáveis quando diagnosticados precocemente. Pela projeção do Instituto Nacional do Câncer (Inca), haverá pelo menos 700 novos casos de câncer de colo uterino no Amazonas em 2020 – uma média de 61,54 casos a cada 100 mil habitantes.

Para a médica ginecologista Mônica Bandeira, da Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado (FCecon), nos últimos 30 anos não houve diminuição de casos deste tipo de câncer no Amazonas, o que, nas palavras dela, é um absurdo.

“Isso é um escândalo, pois esse tipo de câncer é totalmente evitável. Nós temos uma taxa de país subdesenvolvido. Esse tipo de câncer não era mais pra existir. Em 2018, 289 mulheres morreram no Amazonas por conta dele. Ano passado foram registradas 293 mortes. Há uma média de 23 mulheres morrendo por mês. A maioria veio a óbito sem diagnóstico, sem ter feito nenhum preventivo na vida. O poder público tem uma dívida histórica com as mulheres. Está na hora dos nossos gestores enfrentarem esse problema, no mínimo, a médio prazo’’, apontou. Entre os fatores de risco para o desenvolvimento do câncer de colo uterino, estão alguns hábitos de vida, tais como atividade sexual antes dos 18 anos.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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