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Cotidiano
Desigualdade

Pesquisa aponta que Manaus concentra 93% dos médicos disponíveis do Amazonas

Segundo a pesquisa Demografia Médica 2018, apenas 6,9% dos especialistas estão atuando no interior do Estado. Dados mostram que os médicos do Amazonas representam apenas 1,1% do total do País 22/03/2018 às 19:25
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Pediatria e clínica médica são as áreas médicas com mais especialistas no Amazonas (Foto: Euzivaldo Queiroz)
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Mais de 93% dos médicos do Amazonas estão concentrados em Manaus que, por sua vez, abriga pouco mais da metade dos cerca de 4 milhões de habitantes do Estado. O dado é da pesquisa Demografia Médica 2018, realizada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com o apoio institucional dos conselhos Federal de Medicina (CFM) e Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp). Segundo o levantamento, do total de 4.844 médicos, 4.508 estão na capital (93,1%) e 336 (6,9%) prestam atendimento nos outros 63 municípios amazonenses.

A pesquisa também mostrou que os médicos do Amazonas representam apenas 1,1% do total do País, que é de 452.801 (equivalente a uma média de 2,18 médicos por mil habitantes no Brasil).

No Estado, a pediatria concentra o maior número de especialistas (410), seguida pela clínica médica (352), cirurgia geral (329), ginecologia e obstetrícia (317) e anestesiologia (231). As especialidades com menor número de especialistas são genética médica (1), medicina física e reabilitação (3), geriatria (4), medicina nuclear (5) e alergia e imunologia (7).

“No interior as condições são muito ruins e precárias. Há várias dificuldades para os médicos. Uma delas é que eles ficam reféns dos prefeitos. Quando se negam a fazer campanha, são mandados embora. O prefeito que entra também pode mandar embora se o médico for popular, pois vira ‘concorrente’ do prefeito. Se você for atencioso, ganha votos das famílias que lhe são gratas pelo atendimento. As cidades do interior não oferecem segurança para o médico e o paciente, além de haver a falta de medicamentos e equipamentos. Essas situações fazem os médicos ficarem migrando de cidade em cidade”, afirmou o presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Amazonas (Cremam), José Bernardes Sobrinho.

Criação de polos

Para ele, falta vontade política para tornar atrativa a ida de médicos para o interior do Estado. “Falta um plano de governo e hospitais qualificados com equipes médicas para atender 70% das doenças da cidade de média e pequena complexidade”, afirmou.

Uma solução ideal, na opinião de Sobrinho, seria a criação, no Amazonas, de polos de atendimento com centros de média complexidade, com hospitais e o envio de 10 médicos para atendir uma região específica. “Nesse sistema se atenderia as doenças daquela região e, em Manaus, aquelas como neurocirurgias e de alta complexidade. Isso economizaria tempo de viagens de um paciente que demora 10 dias para vir de São Gabriel da Cachoeira para Manaus e que perde esse mesmo tempo retornando à sua cidade”, explicou.

“Situação gravíssima”, diz Simeam

O presidente do Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam), Mário Viana, taxou de “gravíssima” a situação do baixo número de profissionais da categoria no interior. “Quem sai de Manaus não quer ficar no interior pelas condições difíceis que vai enfrentar, por ter só seis linhas aéreas regulares e as demais por barco e por não encontrar infraestrutura”, analisa.

“Os números mostrados pela pesquisa de Demografia Médica para o Estado do Amazonas traz dados novos da desigualdade na distribuição da população médica entre regiões, estados, capitais e municípios do interior, mas uma realidade conhecida há muito tempo”, conta Viana.

“E falta comprometimento dos gestores”, diz ele. “A gestão pública não tem interesse em resolver essa situação. Os médicos só vão para o interior se tiverem carreira no Estado que ’enche’ os olhos do profissional. Na Amazônia não é fácil”, afirma.

Ele finaliza que o grande número de escolas compromete a qualidade médica. “Já temos 500 mil médicos e daqui a alguns anos, podemos chegar a um milhão. As coisas do jeito que estão configuram um crime do poder público contra a sociedade”, critica o presidente do Simeam.

Médicos cada vez mais jovens

O levantamento Demografia Médica 2018 também mostra que a média de idade do conjunto de profissionais em atividade no Brasil tem caído ao longo dos anos e hoje é de 45,4 anos, resultado do aumento da entrada de novos médicos no mercado em razão da abertura de mais cursos de medicina. A média de idade entre os homens é de 47,6 anos e, entre as mulheres, de 42,8 anos.

De acordo com o professor Juscimar Carneiro Nunes, gerente de Ensino e Pesquisa do Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV) e diretor da Comissão Estadual de Residência Médica, essa queda, na região, está proporcionalmente relacionada ao aumento da quantidade de formados pelas escolas medicina. “Há 15 anos tínhamos só o curso de Medicina da Universidade Federal do Amazonas, onde ingressavam 80 pessoas, mas não necessariamente formavam as 80. Na minha turma, por exemplo, formaram 74. Atualmente, ingressam anualmente 112 alunos na UFAM, na UEA, 120, na Nilton Lins, 100, na Fametro outros 100 e mais 20 em Coari, totalizando 452 vagas de Medicina por ano. Está se formando muitos médicos, ou seja, muitos médicos novos entrando rápido no mercado de trabalho”, explicou o professor.

Em contrapartida, segundo ele, o interior é carente desses profissionais e “por isso é preciso que, mesmo que poder público não ofereça condições de trabalho nessas cidades, se formem mais médicos para que possam migrar para o interior”.

O que atrapalha a interiorização, entre outros aspectos, é a ausência de uma remuneração digna, falta de condições de trabalho e subsistência de ambiente para se trabalhar, na visão de Nunes. “Faltam políticas públicas”, criticou. O professor aposta que, mesmo que essas políticas não surjam, “a tendência é que com o aumento da população médica reflita na migração para o interior”.

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