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Cotidiano
SAÚDE

Casos de microcefalia relacionada ao Zika vírus chegam a cinco no AM em 2016

Amazonenses que em 2016 deram a luz a bebês com microcefalia associada ao vírus falam de rotina 31/12/2016 às 05:00 - Atualizado em 31/12/2016 às 13:05
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Amazonenses contam como descobriram que filhos tinham microcefalia (Fotos: Márcio Silva)
Silane Souza Manaus (AM)

Envolver-se numa rotina de cuidados e deslocamentos diários em busca de consultas e sessões de estímulo precoce para crianças são apenas algumas dentre as inúmeras dificuldades postas diariamente àquelas que carregam a marca de uma epidemia sem procedentes de Zika vírus. Estamos falando das mulheres amazonenses que em 2016 deram a luz a bebês com microcefalia associada ao vírus. No Amazonas, cinco casos da doença foram confirmados, nove estão sendo investigados.

O amor que essas mães têm pelos filhos é o maior combustível que elas possuem para enfrentar os desafios. “Eu nunca pensei na dificuldade ou na doença porque a Laura sempre foi muito esperada. Nunca penso: 'ah, minha filha não vai falar! Não vai andar!' Pelo contrário, eu acredito que ela possa ter uma vida normal e vou fazer de tudo para isso acontecer. Ela faz fisioterapia e fonoaudiologia e a evolução dela é surpreendente. Ela é muito esperta”, relata a dona de casa Sabrina Barbosa, 22.

A mãe de Laura, de apenas seis meses, pegou Zika vírus em meados de dezembro de 2015, quando estava com quase três meses de gestação. O diagnóstico da doença foi confirmado em fevereiro de 2016, mas ela só soube que o bebê tinha microcefalia meses depois. “Não consegui fazer a ultrassom morfológico, mas batia ultrassonografia de 15 em 15 dias e o exame mostrava que a cabeça dela não se desenvolvia: não saía de 26 cm. Ela nasceu com 29 cm”, conta Sabrina.


Sabrina e os filhos Guilherme e Laura

Diferente de Sabrina, a dona de casa Suziane da Silva Lopes, 23, só soube que o filho que esperava tinha microcefalia quando ele nasceu há um mês. “Fui acompanhada por uma médica que em nenhum momento disse que o meu filho tinha algum tipo de problema. Em todas as consultas ela dizia que ele era normal e estava tudo bem com ele. Só quando fui internada para ter o Miguel foi que descobrimos que ele tinha a cabeça pequena – 31 cm – para a idade gestacional que eu estava”, relata.

Suziane teve a febre do Zika com 11 semanas de gravidez. Ela conta que até o último momento esperou que o filho nascesse sem microcefalia, mas no fundo sentia que havia algo errado com ele. “Mãe sempre sente! Quando peguei Zika pesquisei muito sobre a doença e sabia do risco que havia. A família ficou abalada, mas depois que viu ele tudo mudou. A gente fica com medo: se vai falar, se vai andar, mas espero que dê tudo certo. Tenho fé que ele vai conseguir fazer tudo”, disse emocionada.

O pai do pequeno Miguel, Bruno Ribeiro, 26, acompanhou a esposa Suziane nas pesquisas sobre Zika e microcefalia e também sabia do risco do filho nascer com a doença. Mas sempre teve fé que tudo daria certo e que nada de grave aconteceria com ele. “Quando ele nasceu, nós já estávamos preparados para cuidar dele e para ensiná-lo. Sabemos que ele terá um aprendizado lento, que dependerá de muito estímulo, mas vamos levar ele para fazer muitas coisas como qualquer outro filho”, garante.


Suziane e Bruno com o filho Miguel, o primeiro do casal

Acompanhamento de especialistas

Com inúmeros fatores causadores, a microcefalia não tem um padrão de sequelas. Alguns conseguem ter vida normal, outros não conseguem andar ou falar e são muitos os que têm comprometimento mental. O acompanhamento de especialistas como fonoaudiólogos, fisioterapeutas, psicólogos e neurologistas pode diminuir as consequências da malformação, mas os estímulos têm que ser feitos o quanto antes.

36 notificações

De acordo com o 66º Informe Epidemiológico, foram notificados 1.249 casos de infecção por Zika vírus em mulheres grávidas no Amazonas, com 473 casos confirmados, 750 descartados e 26 em investigação. Em relação à microcefalia, foram 36 notificações. Desse total, cinco casos da doença foram confirmados com relação ao Zika, 11 foram descartados e nove estão sendo investigados. Também foram confirmados 11 casos de microcefalia não relacionados ao vírus.

Frases


Sabrina Barbosa, 22, com a filha Laura

“Quando ela (Laura) nasceu, falaram que ela não podia mamar, que usaria uma sonda. Minha mãe disse que a neta dela não iria usar sonda e mandou eu colocar o peito pra fora. Na hora, minha filha começou a sugar. Foi um chororô de emoção porque ela era muito esperada e é muito amada pela família”.

“O Guilherme (de três anos), meu primeiro filho, é louco pela irmã. Se ela sai de casa ele começa a chorar”.


Suziane da Silva Lopes, 23, com o filho Miguel

“Quando peguei Zika pesquisei muito sobre a doença e sabia do risco que havia do meu filho nascer com microcefalia, mas até ele nascer eu acreditei que não tinha microcefalia porque a médica nunca confirmou”.

“Quando vi ele (Miguel Valentim) tudo mudou. Amei ele mais ainda quando vi que ele tinha nascido com microcefalia”.


Viviane Lima com as filhas Ana Vitória, 17, e Maria Luíza, 15

“As crianças com microcefalia precisam de assistência, de ser estimuladas, senão, vão ficar inerte em cima de uma cama”.

“Trato minhas filhas como qualquer criança. Quando essas mães tiverem outros filhos, eles serão as pessoas que a gente quer na sociedade, sem preconceito, discriminação. Minha filha mais nova não discrimina em nada”.

“Minha vida foi de superação em poder ver as minhas filhas se transformar no que são hoje: duas adolescentes que gostam de música, de dançar, de cinema, de ir ao shopping, que se amam...”.

Personagem: Viviane Lima

Há 17 anos, Viviane Lima está familiarizada com a microcefalia. Das três filhas que ela teve, as duas mais velhas: Ana Vitória, 17, e Maria Luíza, 15, têm o diagnóstico da doença. “A aceitação da família é primordial. O amor da família faz com que essas crianças superem os limites que forem postas a elas”, destaca.

Conforme Viviane, as meninas estudam em colégio público, mas o aprendizado é zero. “A Lei Brasileira de Inclusão (LBI) não é aplicada como deveria. O Brasil é o País mais lindo em leis que você possa imaginar, a nossa lei da pessoa com deficiência é a mais completa, mas é o País que menos aplica sua lei”, afirma.

Para ajudar outras mães na mesma posição, Viviane criou o grupo ‘Mães de Anjos Unidas’, que tem mais de 700 integrantes em todo o Brasil. Em 2017, ela pretende transformar o grupo em fundação para oferecer mais que um relato de superação.

“Nosso desejo é poder oferecer atendimento de todas as terapias que essas crianças precisam, além de atendimento para as famílias também porque quando se tem uma criança com deficiência dentro de casa não devemos nos preocupar só com a criança, temos que nos preocupar com a família como um todo”, diz Viviane.

Assistência com burocracias

Apesar das muitas promessas de ajuda aos bebês de mães infectadas por Zika vírus por parte dos governos Federal, Estadual e Municipal, a assistência ainda é precária por causa de tantas burocracias. Essas pessoas, por exemplo, tem prioridade para receber o Benefício de Prestação Continuada (BPC), mas elas não conseguem a ajuda prometida em Manaus.

Há seis meses, a dona de casa Sabrina Barbosa, 22, teve a pequena Laura e até agora não conseguiu fazer a perícia que, aliás, está marcada para o dia 24 de janeiro de 2017. “Venho de uma separação recente. O pai dela ajuda como pode, mas é muito difícil porque moro de aluguel e tenho que levar a Laura toda semana aos especialistas. Vou de ônibus com ela. Esse dinheiro ajudaria a dá melhor qualidade de vida a ela”.

A dona de casa Suziane da Silva Lopes, 23, mãe do pequeno Miguel, de um mês, é outra que ainda não conseguiu nenhum benefício. Ela saiu da maternidade sem os exames do filho. “Levei meu filho ao pediatra e ele pediu todos os documentos dele para poder encaminhar para atendimento com os outros especialistas. Até agora eu consegui a copia do laudo da tomografia, ainda falta do Eco e do Ultrassom”.

A Secretaria de Estado de Saúde (Susam) informou que definiu o Centro de Especialidade em Reabilitação da Colônia Antônio Aleixo, na Zona Leste, como a unidade de referência para a estimulação precoce dos bebês com diagnóstico de microcefalia. Já o Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV) é a unidade de referência para o atendimento de oftalmologia e neuropediatria, objetivando oferecer atendimento especializado para esses bebês.

Com relação ao BPC, a Susam informou que estabeleceu parceria com o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) a fim de viabilizar esse benefício para as crianças diagnosticadas com microcefalia associada ao Zika vírus e o órgão se responsabilizou a atender essas demandas. Conforme a pasta, na maternidade, os bebês identificados com suspeita de microcefalia, recebem os primeiros cuidados necessários ao caso, como consultas especializadas e exames, incluindo os de imagem.

Nem sempre é possível concluir o diagnóstico de microcefalia apenas com os exames preliminares. Por isso todos os bebês com suspeita de microcefalia são encaminhados para acompanhamento e gerência do cuidado nos ambulatórios de segmento da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), onde são solicitados todos os exames complementares para o diagnóstico.

Considerando que os casos de microcefalia associados ao Zika vírus causam mais danos à saúde da criança como um todo, esta criança será acompanhada, com consultas e exames ao longo de toda a sua vida. Em 2017, a Susam pretende intensificar as ações de combate e controle ao Aedes aegypti e de assistência.

A Semsa, por sua vez, não quis se manifestar sobre esta demanda. A pasta também não informou de que forma vem prestando assistência às mães e as crianças com microcefalia relacionada ao Zika e nem se pretende melhorar esse auxílio ou mesmo oferecê-lo em 2017. Também não informou sobre como atuará no combate ao Aedes aegypti na capital amazonenses neste novo ano.

Combate ao Aedes em 41 municípios

De acordo com a Susam, em 2016, a FVS intensificou as ações de combate e controle ao Aedes aegypti, mosquito transmissor da Dengue, Chikungunya e Zika vírus, em todo o Amazonas. Já a Rede Cegonha e a gerência de Maternidades, em parceria com a Semsa, organizaram os fluxos de acesso aos exames e consultas especializados necessários aos recém-nascidos diagnosticados ou com suspeita de microcefalia.

Pelo Estado, a FVS está coordenando a campanha de combate e controle ao Aedes aegypti na capital e em mais 41 municípios do interior. A campanha conta com a parceria das secretarias de Educação do Estado (Seduc) e Municipal (Semed), Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semmas), Defesa Civil do Estado e Município, as Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica) e a Unicef.

A estratégia é unir forças numa grande cruzada contra o mosquito que vai continuar nos dias seguintes com mobilização social, visita às casas e trabalho educativo para orientação à população.

Entre as ações estratégicas previstas no plano de combate e controle ao Aedes aegypti está o Programa de Brigadas, institucionalizado por meio do Decreto n. 36.640 de 22 de janeiro de 2016, pelo Governo do Amazonas, com o objetivo de envolver as instituições públicas estaduais na luta contra o Aedes.

O programa atua na capacitação de profissionais para ampliação das medidas de controle através da eliminação de criadouros com a certificação das instituições que conseguirem manter as dependências livres do mosquito. As unidades públicas são monitoradas pelas equipes técnicas da FVS e a certificação do selo é validada e renovada anualmente.

O planejamento da FVS para 2017 prevê a ampliação de 100 novas Brigadas na capital e alcançar 100% dos municípios do interior.  

Até outubro foram certificadas 318 instituições públicas estaduais, federais e internacional (Unicef) e 2.458 profissionais foram capacitados como multiplicadores do Programa. Em Manaus, 715 equipes foram capacitadas com 2.161 brigadistas formados pelo programa estadual. No interior do Amazonas, 785 profissionais foram habilitados como multiplicadores em 27 municípios.

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