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Cotidiano
JUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS?

'Cena animalesca', diz delegado de Novo Aripuanã sobre agressão contra presa

Além de tentar incendiar Luzinete da Costa Gama, suspeita de matar uma criança, população quebrou a única delegacia da cidade e até o braço do delegado Vinícius Silveira 09/02/2017 às 08:30
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Atos como os de Novo Aripuanã jamais farão do mundo um lugar pacífico, desculpa de quem tentar matar um suspeito e impor a pena de morte na marra. Foto: Divulgação
Fábio Oliveira Manaus

Animalesco está relacionada à brutalidade ou estupidez de um animal. Esta foi a palavra usada pelo delegado Vinícius Silveira, após presenciar um estado de guerra na delegacia de Novo Aripuanã, onde, segundo ele, ao menos 500 pessoas invadiram a unidade atearam fogo no local, quebraram vidraças, incendiaram um carro e quase mataram Luzinete da Costa Gama, de 30 anos, grávida de um mês, suspeita de matar uma criança. O delegado teve o braço quebrado e a cabeça apedrejada..

A mulher é suspeita de incendiar uma casa, onde uma criança morreu e duas pessoas ficaram feridas. De acordo com o delegado, a atitude da população é um ato enraizado em muitos municípios do Amazonas. Fazer justiça com as próprias mãos tem sido regra no interior e na capital quando há casos comoventes. “Ela matou uma criança e eu sabia que isso poderia acontecer, mas não conseguimos evitar”, disse.

Silveira relatou que fez de tudo para proteger a suspeita, sacou sua pistola e, junto com outros policiais, efetuou disparos para o alto, mas não foi o suficiente. Com a arma em punho, o delegado foi atingido por uma pedra, teve o braço quebrado e um ferimento na cabeça.

“Aqui fazer justiça com a própria mão é normal. Foi construído há vários anos, é uma educação que se passa por gerações. Ela matou uma criança e a população não aguentou. E quem vai contra o povo? Eram seis policiais contra 500. Na hora do fato estava só eu e um carcereiro. Depois chegaram mais”, desabafou.

"Se o povo é ignorante é porque ao longo dos anos só recebeu ignorância. Aqui foi uma cena animalesca”, completou.

Silveira explicou que no dia do fato a suspeita se apresentou na delegacia e que após ouvi-la pediu a prisão preventiva. “Eu sabia que isso podia acontecer então eu a ouvi, pedi a prisão e a segurei aqui, mas o povo invadiu. Eu estava armado, mas não vou atirar na população, eu com a arma na mão peguei uma pedrada”, disse.

O delegado-geral adjunto, Ivo Martins, informou que há dois inquéritos sendo investigados. Um sobre o crime praticado por Luzinete e outro sobre as agressões do povo.

Ao menos quatro agressores foram identificados e devem responder por dano ao patrimônio público e tentativa de homicídio contra a suspeita. Luzinete deve responder por homicídio e tentativa de homicídio.

Segundo a assessoria do HPS 28 de Agosto, Luzinete teve 20% do corpo queimado, está com traumatismo craniano, em estado grave e grávida. Já Mariane Castro, que era o alvo, teve 50% atingido e está estável. A filha de Mariane, de 9 meses, teve 70% do corpo queimado e também está internada.

Comportamento inacreditável
Para os grupos de direitos humano, o ato da população em Novo Aripuanã deve ser tratado como crime. O membro da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB e ouvidor da seccional Amazonas, Glen Wilde, disse que um vídeo que mostra o momento da agressão foi enviado ao Conselho Federal para que seja estudada a possibilidade de ser movida uma ação judicial.

“O ato de tentativa de justiça com as próprias mãos nos torna monstros. Eu tenho andado preocupado com os linchamentos cada vez mais comuns, um bandido rouba um local e já é linchado pela população. É o sintoma de um país sem cultura e sem educação. O Brasil tenta parecer de primeiro mundo, mas é um país atrasado na questão social”, disse.

O advogado defende que, mesmo a mulher tendo sido tirada de dentro de uma delegacia, com o efetivo de policiais era impossível garantir a integridade vítima. Wilde sustenta ainda que os agressores devem ter punição.

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