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Cerca de 119 jovens infratores estão internados em centros socieducativos de Manaus

No Centro Socioeducativo Dagmar Feitosa, homicídios e latrocínios são a maioria dos crimes praticado por adolescentes 22/11/2014 às 16:38
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Diretor do Centro Socioeducativo Dagmar Feitoza, Dannyel Miranda frisa a importância da família na recuperação do interno
Luana Carvalho* Manaus (AM)

“O meu patrão estava me pressionando. Um dia ele chegou e disse que se eu não matasse, eu quem iria morrer”. A declaração é de um dos 38 internos do Centro Socioeducativo Dagmar Feitoza, localizado no bairro Alvorada, Zona Centro-Oeste. Ele cumpre medida socioeducativa há onze meses por ter matado um homem no ano passado. O motivo: uma dívida de tráfico de drogas. Ansioso, o jovem aguarda por uma progressão de medida e sonha em ter a liberdade de volta.

Fabrício* contou que se envolveu com o tráfico de drogas aos 12 anos. Apesar de ter completado maioridade no dia 15 deste mês, ele continuará na unidade porque o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) garante que adolescentes, mesmos prestes a completar 18 anos, não sejam considerados criminosos, mas infratores até completar os 21 anos.

“Eu simplesmente matei um cara que estava me devendo R$ 1,5 mil”. Foi o que o jovem respondeu ao ser questionado sobre a infração que cometeu. O homicídio aconteceu no fim do ano passado, no bairro Santa Etelvina, Zona Norte.

Fabrício revelou que começou a vender drogas por causa de ‘status’. “Primeiro meu primo me viciou em droga aos 12 anos. Eu fumava maconha e cheirava cocaína. Depois comecei a achar a vida que ele levava firmeza e também passei a andar com os traficantes. Saía, curtia com as garotas, e achava aquilo o máximo”.

A vida que o adolescente levava mudou quando um dos primeiros e principais clientes dele passou a não pagá-lo. “Ele sempre comprou cocaína comigo. Mas depois de um tempo foi pegando fiado, dizia que ia me pagar e nada. A dívida aumentou e meu ‘patrão’ mandou que eu ‘desse cabo’ nele. Chamei o meu primo e nós o matamos a tiros”, relembra. Ele ainda tentou fugir para o interior, mas, aconselhado pela mãe, resolveu se entregar.

Rotina

O jeito de “menino brincalhão” fez com que o jovem conquistasse um bom relacionamento com os outros internos. “No meu aniversário foi uma bagunça. Comemoramos e fizemos a maior festa”. Privado da liberdade, ele conta que se arrependeu de ter matado uma pessoa. “Nunca tinha matado e hoje me arrependo muito. Agora estou com outro pensamento e quando sair daqui vou primeiramente à casa de Deus, agradecer pela vida”, desabafou.

Fabrício está cursando a 8º série do Ensino Fundamental em uma escola estadual dentro da unidade. “Eu acordo tarde e por isso não tomo café da manhã. Mas o restante do dia é na ‘tranca’. Vou pra aula e sou vigiado, na quadra de futebol é tudo trancado. Vou ao médico algemado”, enfatizou.

Embora reclame, neste ano o jovem concluiu o curso de padeiro e agora tem uma profissão. “Assim que eu estiver em liberdade vou procurar um emprego e ser uma pessoa melhor”, declarou Fabrício.

As Medidas Previstas no artigo 112 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), as medidas socioeducativas são aplicadas quando verificada a prática de ato infracional. Podem ir desde a advertência; obrigação de reparar dano; prestação de serviços à comunidade; liberdade assistida; até a inserção em regime de semiliberdade ou a internação em estabelecimento educacional.

Centros Socio-educativos

Atualmente, aproximadamente 119 adolescentes estão internados nos cinco centros socieducativos de Manaus, sendo 13 no Centro de Internação Raimundo Parente; 38 no Dagmar Feitoza; 41 na Unidade de Internação Provisória; 14 na Semiliberdade Masculina e 13 no Centro Socioeducativo Marise Mendes.

As informações foram passadas pela gerente do Sistema Socioeducativo da Secretaria de Estado da Assistência Social e Cidadania (Seas), Mathilde Ezaguy.

Só neste ano, cerca de mil adolescentes passaram pelas unidades. No ano passado, foram aproximadamente 2 mil adolescentes que cumpriram medidas socioeducativas. O quantitativo tem diminuído se comparado ao ano de 2011, quando 3.524 adolescentes foram internados.

As medidas aplicáveis a adolescentes configuraram resposta à prática de um delito, com caráter educativo e não punitivo.

No Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2014, consta que homicídios e roubos foram maioria dos atos infracionais cometidos por adolescentes em 2012, no Amazonas.

*Nome fictício

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