Terça-feira, 03 de Agosto de 2021
MUITO ALÉM DA PANDEMIA

Cheia histórica assola dia a dia de moradores do Cacau Pirêra, em Iranduba

Além de ter que lidar com a realidade da pandemia, os amazonenses agora vivem outra dificuldade: ter suas casas invadidas pelas águas da cheia, como é o caso de muitos moradores do Distrito de Cacau Pirera, em Iranduba



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22/05/2021 às 09:01

A enchente deste ano cobriu ruas do município de Iranduba, distante 27 quilômetros em linha reta de Manaus. A equipe de reportagem do A CRÍTICA viajou até o local, na manhã de ontem (21) e conversou com moradores cujas casas estão parcialmente submersas no Distrito de Cacau Pirêra.

“Se arrependimento matasse eu acho que já teria morrido”, disse a doméstica Eliana Souza de Carvalho, 50, que saiu do bairro Compensa, situado na Zona Oeste de Manaus, e foi morar em Iranduba.



“Ficamos preocupados. Eu ainda tenho essa casa, mas e as outras pessoas? É a realidade, não temos para onde ir, temos que ficar aqui”, disse, com os olhos marejados.


Eliana conta que saiu do bairro da Compensa, em Manaus, para morar no Cacau Pirêra. Foto: Gilson Mello

A equipe de reportagem flagrou moradores transitando por ruas de Iranduba com os pés em contato com a água da enchente, que cobriu várias vias do município. Pontes de madeira foram construídas em determinados trechos. 

O pescador Israel Sousa Rodrigues , 29, relatou que sente medo de morrer. Devido a problemas cardíacos, ele disse que tem receio de passar mal, cair na água e se afogar longe do alcance de outras pessoas. Na região onde o pescador mora, vizinhos saíram das casas onde residiam em decorrência do nível da cheia. 

Israel vive com a esposa e as filhas. Ele lamentou o baixo rendimento das vendas. “A enchente bateu na janela da casa dos vizinhos. Eles levantam a madeira, e em semanas a água a ultrapassa. Quem comprava peixes da gente eram os moradores, que estão se mudando. Para quem vamos vender?”, disse.


Os animais também são bastante afetados pela cheia. Foto: Gilson Mello

Casas submersas 

A equipe de reportagem se deslocou até o bairro apontado por moradores como Nova Veneza, onde várias residências foram avistadas parcialmente submersas. Na localidade, foram constatadas pontes deterioradas, sujas com fezes de cachorro e crianças nadando, brincando, nas águas que cobrem o bairro. 


Água da cheia pode oferecer risco de saúde a crianças e adultos. Foto: Gilson Mello

A doméstica Eliana Mattos, 52, contou que precisa usar botas dentro de casa, onde ela instalou pontes de madeira para poder se locomover. “Essa cheia está fora do limite”, afirmou. 

Já a também doméstica Vanda Perrone, 40, disse que o distrito de Cacau Pirêra e locais como o bairro Nova Veneza estão esquecidos. “O Cacau Pirêra está pedindo socorro. Pessoas já passaram mal por perder suas coisas. Muitos moradores ficaram desempregados por causa da pandemia”. 

A equipe de reportagem flagrou o momento em que o padeiro Sidnei Jardim do Nascimento, 25, retornou para casa junto do filho, Simon de Assis do Nascimento, de 5 anos. O morador afirmou que a cheia atingiu uma altura de 1 metro e 80 centímetros na região do bairro Nova Veneza. 


Foto: Gilson Mello

Sidnei mora junto da esposa e três crianças, de 2, 5 e 7 anos. “Ano passado, levantei minha casa, que era baixinha. Não sabia que esse ano a enchente seria maior. Fica muito ruim para meus filhos. A água já entrou dentro de casa, ficamos muito preocupados com as cobras”, relatou.

O pedreiro afirmou que certa vez Simon caiu na água, enquanto caminhava em uma das pontes que permite a locomoção dos moradores do Nova Veneza. “Ainda bem que uma mulher estava passando na hora e o pegou. Meu coração apertou demais”. 

Na manhã dessa sexta-feira,o município recebeu uma carga de madeira apreendida pela Polícia Federal (PF).

Segundo o prefeito de Iranduba Augusto Ferraz, ela será utilizada para construção de pontes na localidade.

“Servirão para que as pessoas possam sair de casa sem ter que adentrar na água. Servirá bastante a essa população tão sofrida. O Cacau Pirêra sofre com essa cheia por falta de infraestrutura, que poderia ter sido feita há muito tempo e não foi realizada em governos passados”, disse. 

A cota do Rio Negro chegou ao número de 29,73 metros na terça-feira (19), a mesma registrada em 2009, quando aconteceu a segunda maior cheia da história no estado, e agora avança para bater 2012, se tornando a maior da história.


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