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Cientistas políticos classificam grupos que pedem intervenção militar como inexpressivos

Para especialistas ouvidos por A CRÍTICA, não há risco de um novo golpe na atual conjuntura política do País 10/11/2014 às 10:09
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Protesto pelo impeachtment da presidente Dilma Rousseff realizado no dia 1º na avenida paulista em São Paulo (SP). Outras capitais também tiveram manifestações
luciano falbo Manaus (AM)

No ano em que o golpe militar de 1964 completou 50 anos que resultou em 20 anos de ditadura, o Brasil assistiu, na semana passada, a uma série de manifestações, que, entre outras coisas, pediam uma nova intervenção militar. Para especialistas ouvidos por A CRÍTICA, não há risco de um novo golpe na atual conjuntura política do País.

O professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), doutor em Sociologia, Marcelo Seráfico, afirmou que a “aparente polarização” que ocorreu nas eleições favoreceu a manifestação de grupos reacionários. “Que sempre estiveram presentes na realidade do País, mas que agora se viram em condições políticas de se expressar de forma mais abertas”, acrescentou, o professor.

Para Marcelo Seráfico, duas teses orientam esses grupos. Uma mais conservadora defende que o Brasil estaria passando por um processo de “bolivarização ou venezuelização”. “Uma hipérbole, um exagero, pois estamos distante disso”, disse.

De acordo com o sociólogo, a outra é de que o Brasil está na iminência de um golpe. “Acredito que essas duas orientações não refletem os protestos que vimos no País desde 1994 e que se intensificaram nos últimos quatro anos por causa da crise e a forma como o governo respondeu a ela. As pessoas foram às ruas clamar pela garantia dos seus direitos básicos. O que vemos é um constrangimento do governo em assumir essas causas e uma base que não mantém seus compromissos”, afirmou.

“No meu ponto de vista, estamos numa realidade que não se aproxima nem de um regresso a um governo ditatorial e nem a um governo de inspiração nesses termos bastante abstratos como bolivariano. Não vejo condições de haver um golpe. As políticas consolidadas do Estado brasileiro não estão sendo ameaçadas”, completou Marcelo Seráfico.

O antropólogo e coordenador do Núcleo de Cultura Política da Ufam Ademir Ramos afirmou que o comportamento imediatista desses grupos “pode dar asas para o populismo e atividade anti-democrática”. Ademir observou que os protestos foram motivados pela expectativa frustrada de mudança nas eleições. Ele enfatizou que há uma grande “despolitização e desinformação da juventude que começou esse movimento pelas redes sociais”. “Essa despolitização chega à estupidez de reivindicar a volta dos militares. Isso mostra a ignorância política e a desinformação da história do Brasil.

“Não há risco de golpe. O que preocupa a desinformação e despolitização, sobretudo da juventude, que pode ser objeto fácil de manobra de oportunistas”, disse Ademir.

“Essa juventude tem uma participação ativa nas redes sociais, que nós chamamos de ativismo de sofá. O que seria efetivo é converter essa indignação a favor da mudança como instrumento de controle social. Isso sim seria um salto qualitativo, eficiente”, afirmou Ramos. Para ambos os professores, os grupos pró-intervenção militar são politicamente inexpressivos.

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