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Ciúmes motivam agressões e mortes em Manaus

Ciúmes excessivos, sentimento de posse, injúrias, ameaças, agressões e até assassinatos. Reflexos de um sentimento doentio e violento que pode se esconder por trás de um relacionamento e dar a qualquer história de amor um fim trágico 14/03/2015 às 14:46
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Define-se como crime passional aquele em que vítimas e autores possuem uma relação afetiva, sexual ou não
LÍVIA ANSELMO ---

A diarista Elizângela Rodrigues Arcângelo, 35, morreu no dia 6 de fevereiro deste ano. Ela foi assassinada com sete facadas após uma discussão com o marido, identificado como Juracy de Souza Gomes, 40. O relacionamento, conturbado, durou oito anos e terminou em uma tragédia, comumente chamada de crime passional.

Define-se como crime passional aquele em que vítimas e autores possuem uma relação afetiva, sexual ou não. A definição existe apenas no âmbito doutrinário, não sendo tipificado individualmente na legislação penal. Segundo juíza Mirza Telma de Oliveira Cunha, da 1ª Vara do Tribunal do Júri, os processos não consideram a paixão como fator que motiva a prática de um crime.

Não raros estes crimes têm origens que são difíceis de serem aceitas e até percebidas, mas possuem consequências que, em muitos casos, podem não ser esquecidas. Mas como perceber que o relacionamento não é seguro?

O psicólogo Sandro Soares, do Serviço de Apoio Emergencial à Mulher (Sapem), atende tanto mulheres vítimas como homens agressores. Ele traça um perfil dessas pessoas que transformam o sentimento de paixão em um crime. Segundo ele, a pessoa não se torna agressiva por um sentimento e nem pelo uso de substâncias entorpecentes e bebidas alcoólicas. “Essa característica é algo que eles desenvolveram ao longo da vida. O sentimento é uma justificativa para usar a violência”, destaca.

O perigo começa com os crimes verbais. São os crimes contra a honra, as ameaças e a injúrias, acompanhadas de excesso de ciúmes, desconfianças e outras atitudes que dão os primeiros sinais de que a relação pode estar em um caminho perigoso. Logo em seguida, de acordo com a delegada Andréa Pereira, da Delegacia Especializada em Crimes contra Mulheres (DECCM), estão as agressões físicas que constituem uma evolução do primeiro caso de crime passional.

O homicídio é o último estágio, segundo Andréa Pereira. “Infelizmente pode chegar a esse estágio e é por isso que nós queremos que as mulheres cheguem até nós, porque podemos ajudar”, ressalta.

Dormindo com o inimigo

Todos esses fatores estiveram presentes na relação de Elizângela com Juracy, segundo a filha dela, Ellen Rodrigues, 19, que viveu o trauma de perder a mãe precocemente. “Nossa dor é saber que ele fez isso com uma pessoa que gostava dele, que ficou contra toda a família e demorou para enxergar que ele era perigoso”, lembra a jovem.

Segundo o delegado da Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS), Ivo Martins, a investigação para localizar Juracy continua.

A irmã da vítima, Elizângela Arcângelo, 44, conta que, dias antes do crime, a irmã pensava em se separar porque sentia medo do relacionamento. “Ela já estava cansada, não acreditava mais que podia mudar, disse que ia se separar por causa da traição”, conta. Segundo ela, além de ciúmes da mulher, Juracy era agressivo em todas as questões familiares e não gostava que ela se aproximasse da família.

Análise: Sandro Soares, Psicológo Serviço de Apoio Emergencial à Mulher (Sapem)

Reconhecer o perigo

“Nosso trabalho é fazer com que a mulher consiga reconhecer que existe perigo e alertar sobre essas consequências. A família que passa por isso também precisa entender que toda essa violência pode refletir na personalidade das crianças. As crianças têm os pais como exemplo e estão passando por um processo de formação de personalidade, ver violência em casa não faz bem a eles.

O tratamento em casal ou individual é a melhor forma de evitar que coisas piores aconteçam. Nós não temos números que apontem precisamente quantos homens já se trataram conosco e não retornaram a praticar algum tipo de violência, mas posso afirmar que mais de 95% passa entender a necessidade respeitar a parceira.

Muitas vezes, o homem só percebe o quanto oferece perigo em uma relação quando o caso chega em uma delegacia, em uma audiência. Isso não pode ser assim, o ideal é que as mulheres não deixem chegar nesse ponto.

A partir do momento que elas também reconhecem o perigo e passam a procurar ajuda, elas passam sair da passividade para lutar contra uma violência gratuita, o que incomoda e faz com que o homem entenda o erro”.

Maioria dos crimes são contra mulheres

Em Manaus, somente este ano, a Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS) registrou três crimes que se caracterizam como passionais. A morte de duas mulheres, um homem e uma média de 1,2 mil registros de Boletins de Ocorrência (BO) na Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM) estiveram relacionados ao sentimento de posse sobre o parceiro, ciúmes, traição, insatisfação, entre outros. A delegada Andréia Pereira, da DECCM, destaca que mais de 95% dos crimes passionais são contra a mulher.

O delegado Ivo Martins, da DEHS, ressalta que os homicídios com motivação passional também têm sido vistos com frequência em relações homossexuais. “A relação entre dois homens também tem provocado números expressivos”, ressaltou. O professor Jason de Oliveira Ferreira, 36, por exemplo, morreu estrangulado pelas mãos do mototaxista Washington Paulino Cruz do Nascimento Júnior, 27, dia 20 de fevereiro.

Ciúmes motivaram crime de socialite

A bacharel em Direito Denise Almeida da Silva, a socialite Marceleine Schumann e o empresário Marcos Souto são personagens de um triângulo amoroso que, por pouco, não terminou em tragédia.

Segundo a investigação da DEHS, Marcelaine pagou R$ 7 mil para que pistoleiros executassem ou deixassem aleijada a rival dela, Denise, que era amante do empresário da área de móveis Marcos Souto que, por sua vez, era casado com outra mulher, mas mantinha um relacionamento extraconjugal com a socialite.

Shumann foi denunciada pelo Ministério Público (MP) pelo crime de tentativa de homicídio qualificado por motivo torpe. Ela poderá ser condenada a cumprir 15 anos de prisão em regime fechado, caso seja condenada a pena máxima, segundo informou o juiz Mauro Antony, da 3ª Vara do Tribunal do Júri.

A acareação entre envolvidos no “caso Marcelaine” foi agendada para amanhã, por decisão de Antony.

O MP pediu que, na acareação, estejam presentes os delegados Paulo Martins e Geórgia Cavalcanti, os acusados Marcelaine Schumann, Charles Mac Donald Lopes, Karen Marques e Rafael Santos, e a testemunha de acusação Marcos Souto, em razão das acusações feitas em juízo contra os agentes policiais.

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