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Colégio Estadual comemora 147 anos expondo acervo raro recuperado após projeto

Colégio Amazonense D. Pedro 2º, popularmente conhecido na cidade como “Estadual”, vai completar 147 anos no dia 5, e festeja com exposição de acervo raro recuperado pelo projeto do historiador Hélio Dantas 03/09/2016 às 05:00
Paulo André Nunes Manaus (AM)

O Colégio Amazonense D. Pedro 2º, popularmente conhecido como “Estadual”, vai completar 147 anos no próximo dia 5, data da elevação do Amazonas à categoria de Província. Para comemorar o marco, a tradicional instituição escolar está realizando desde ontem, em sua sede na avenida Sete de Setembro, a exposição “Gymnasianos”, que vai mostrar ao público parte do rico acervo que estava escondido nos porões daquele prédio quase bicentenário e que veio à tona após o projeto de recuperação do historiador Hélio Dantas, 36.

A exposição é fruto do projeto “Colégio Amazonense D. Pedro 2º: Memória, Patrimônio e Fontes Históricas”, no qual relíquias a partir do ano de 1890 a 2000, ganharam uma uma organização arquivística, com digitalização e tratamento preventivo de conservação dos mesmos, além da proposta de funcionalidade e permanência do acesso público ao acervo através de um Centro de Documentação (Cedoc) no 1º piso da própria escola.

Estarão expostos gratuitamente para visitação até o próximo dia 9, em dias úteis e no horário de funcionamento da escola, textos como livros de portarias, atas da direção da escola, ofícios e circulares que revelam como era a Manaus de há 147 anos.

“Os livros manuscritos atraem muito o olhar das pessoas, que por vezes querem decifrar o que está escrito. Esse ano vamos focalizar em principalmente dois tipos de documentação que encontramos aqui que são os livros de portaria, onde há os despachos dos diretores a respeito de todo o cotidiano da escola, e inclusive da disciplina ‘aplicação de punições  no espaço escolar’. É curioso ver aquela coisa, mesmo em que pese nós sermos anacrônicos, que adolescente sempre foi adolescente em qualquer época. Há relatos de alunos que atiram bombas, que jogam bola no hall da escola, que agrediram professores, ou seja, toda sorte de atos de indisciplinas que parece ser típico dessa faixa etária onde os hormônios estão aflorando. E outra documentação são os livros de exame de admissão, onde vamos explicar como era o processo de entrada na escola, onde se fazia uma prova pra entrar, depois que terminava o primário fazia outra prova para ir pro ginásio, e essa última despertava muito medo tanto nos alunos quanto nos pais, pois se você reprovasse nela iria para o 6º ano, que era como se fosse a segunda divisão, onde o aluno era mal visto. E haviam os nerds da época, que terminavam o quarto ano e já faziam o admissional para o ginásio sem passar pelo 5º ano. Esses eram tidos como gênios, e alguns poucos conseguiam”, declarou o historiador.

Entre os raros documentos que compõem o acervo do Colégio Estadual está um livro de ofícios do Governo do Estado datado de 28 de março de 1892, há 124 anos portanto, onde o então governador Eduardo Ribeiro cobra assiduidade do diretor e demais empregados do Instituto Normal Superior , atual Instituto de Educação do Amazonas (IEA).

Inquérito

Outro é o raro inquérito do processo em relação à depredação do prédio da escola ocorrido em 1915 por parte de alunos da época. Naquele ano, o ano letivo foi suspenso, e só foi reiniciado em 1916. O fato gerou até, à propósito, o tema “Indisciplina Escolar no Gimnásio Amazonense Dom Pedro 2º”, por parte do estudante finalista do curso de História Abrahão de Melo, que atua no projeto.

“Aqui temos, por exemplo, vários documentos importantes como vários diários oficiais, inclusive com a assinatura do ex-governador Eduardo Ribeiro, relatórios de saúde, livros de vida escolar, e a maioria da elite do Amazonas, por ser um colégio restrito, só estudava quem tinha um certo poder aquisitivo, como Samuel Benchimol, o maior conhecedor da Amazônia e que estudou aqui em 1933”, disse Melo.

“Além dos registros vamos encontrar diversos documentos, além dos livros, o próprio registro da vida escolar dos alunos. É interessante observar que vinha toda uma documentação dos pais. Num dos casos, certo pai de aluno morava no Maranhão e o aluno estudava aqui no Estadual sob a responsabilidade de um funcionário da escola. Dá pra observar um pouco da História numa pequena janela que às vezes deixamos de lado nessa vida acadêmica, escolar”, informa Rosângela Rabelo, também finalista da faculdade de História, que tem seu trabalho de conclusão de curso sob o tema “Professoras no Magistério”.

“Há material para uma gama de pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento. Por ser um prédio histórico e ter sido uma importante instituição escolar no Amazonas ainda em atividade, e por ter abrigado nos seus portões grandes nomes da política e da cultura amazonense a escola tem uma importância muito grande”, disse Hélio Dantas.

História

O Colégio Amazonense D. Pedro II foi criado em 1869 pelo então presidente da província do Amazonas, João Wilkens de Matos, com o nome de Lyceu Provincial Amazonense. Ao longo da história dele, a escola teve outras nomenclaturas oficiais: Gymnasio Amazonense, Gymnasio Amazonense D. Pedro II e, a partir da administração do governador Henoch da Silva Reis, Colégio Amazonense Dom Pedro 2º. 

Se você é de fora de Manaus e não sabe, mas quer visitar a exposição, o Colégio Amazonense D. Pedro 2º está localizado entre as avenidas Sete de Setembro e Getúlio Vargas, no Centro.

Bolsistas têm satisfação

Bolsistas da  primeira fase do projeto “Colégio Amazonense D. Pedro 2º: Memória, Patrimônio e Fontes Históricas”, a professora de História, Suzy Paula, e a graduanda Nadinny Alves de Souza, falaram da satisfação em ter colaborado para a recuperação do acervo da tradicional instituição D. Pedro 2º.

“Participar foi uma experiência muito valiosa pelo fato de, na época, em 2014, eu estar me graduando em História. Iniciei juntamente com o projeto, vi a retirada das caixas dos porões. Essa experiência histórica de sair da sala de aula e ir para a prática foi muito importante”, disse Suzy Paula, cuja trabalho de pesquisa para conclusão do curso na faculdade foi sobre um notório ex-aluno do Estadual: o poeta Thiago de Melo.

Para Nadinny, ter participado como bolsista representou um crescimento pessoal, acadêmico e profissional muito grande. “Essa é a experiência mais valiosa que eu tenho do começo da 1ª fase até o final, e seguindo com essa bagagem de experiência”, disse ela, que é natural de Fortaleza e achou interessante o acervo referente à época da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985).

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