Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
DRAMA NA SAÚDE

Com filas de transplante paradas por suspensão de cirurgias, AM exporta órgãos

Em 2016, 72 rins foram enviados para outros estados por conta de paralisações esporádicas nos atendimentos



fila_123.JPG Jocilene é a senha 250 na fila do transplante de fígado, que está parada. Foto: Antônio Lima
26/09/2017 às 21:08

 Aos 53 anos, Nilson Rubens Campos tem uma rotina cansativa, entre sessões semanais de hemodiálise, uma carga pesada de remédios e restrições alimentares e físicas que transformaram a vida desse ex-jogador de futebol amador. Reflexo da diabetes e da pressão alta, que o levaram a um quadro de insuficiência renal e à mesa de cirurgia: em 2001, com o rim direito parado, ele recebeu o primeiro transplante do órgão, doado pela filha.  O drama parecia ter acabado, mas Nilson teve que voltar para a fila de transplantes depois que o organismo dele rejeitou o órgão. 

E o pior: agora, sem previsão de quando terminará a espera, uma vez que os transplantes de rim estão suspensos no Amazonas desde o início do ano. Enquanto Nilson e outros 255 pacientes esperam um transplante de rim em Manaus,  o Amazonas “exporta” órgãos compativos de doadores locais para outros Estados brasileiros, onde os transplantes estão sendo realizados, para que os órgãos doados não sejam jogados no lixo.


Na espera por um rim, Nilson mostra as marcas da hemodiálise. Foto: Evandro Seixas

“Eu sou um refém do sistema. Não tenho condições de viajar e minha saúde piora a cada dia. Eu vivo na esperança de conseguir um rim novo, mas do jeito que as coisas andam, está cada vez mais difícil acreditar que vou conseguir”, disse, lamentando não poder viajar a outros estados para receber um dos rins doados no Amazonas, solução encontrada por alguns pacientes do Estado.

‘Exportados’

A diretora da Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos do Amazonas (CNCDO-AM), Leny Passos, revelou que, no ano passado, 72 rins foram “exportados” para outros Estados por conta de paralisações esporádicas nos atendimentos ou até mesmo por conta da  não-compatibilidade dos órgãos para pacientes na fila do transplante. Este ano, outros 13 rins foram enviados para pacientes de outros Estados brasileiros por conta da suspensão dos procedimentos nos hospitais do Amazonas.  “Este mês dois rins compatíveis com pacientes locais foram doados e quase descartados. Como não há possibilidade da cirurgia no Amazonas, tivemos que levá-los para São Paulo e Brasília”, disse. 

De acordo com ela, além dos rins, córneas doadas no Amazonas também estão sendo levadas para outros estados, onde beneficiam pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Mas, no caso das córneas, os transplantes estão ocorrendo normalmente no Amazonas, onde a fila tem apenas 32 pessoas, mas é considerada “zerada” pelo CNCDO, por ser uma demanda atendida pela capacidade das unidades locais. Só são transferidos os órgãos não compatíveis com pacientes da rede estadual ou em excesso. 

Outros órgãos não podem ser levados para outros Estados por conta do tempo de decomposição, que é mais curto, explica Passos. “Para os rins são cerca de 12 horas para que eles não sirvam mais. Ainda temos que realizar os processos para a viagem. Por isso, neste momento, não estamos pedindo órgãos como fígado, por exemplo, porque não teremos como utilizar e nem encaminhar para outros Estados”. Ou seja, todas as doações de fígado que, porventura, sejam realizadas no Amazonas podem parar no lixo.

A diretora do CNCDO explicou que a paralisação dessas cirurgias ocorreu devido ao rompimento do contrato de serviço terceirizado feito entre a Secretaria Estadual de Saúde (Susam) e o Hospital Santa Júlia, unidade que realizava transplantes de fígado e rim.

Única chance

Ano passado, Josilene Marques, 20, descobriu ser portadora de cirrose hepática e se deparou com uma dura realidade, comum a cerca de 250 pacientes no Amazonas: a única chance de ter “uma nova vida” era através de um transplante de fígado. No entanto, durante o tratamento, o sonho de receber o transplante ficou cada vez mais distante depois que ela descobriu que nenhum procedimento desse tipo está sendo realizado no Estado, desde abril.  “Quando soube da notícia, meu mundo caiu. Todo tempo para mim é precioso. Fui pega de surpresa com essa doença e agora eu estou morrendo enquanto espero”, lamentou Josilene, que ocupa a senha número 250 na fila do transplante.

A saída encontrada por Josiele foi se inscrever no Tratamento Fora de Domicílio (TFD), da Susam, e buscar a solução em outro estado. “De três em três meses eu vou até a Fortaleza, no Ceará. Lá eu faço exames e espero chegue a minha vez para conseguir um doador compatível. Os custos são pagos pelo governo, o pagamento atrasa. Mesmo assim, essa é a minha única chance”.

Pré e pós tratamento ameaçados

Além dos problemas com os transplantes, este mês o sistema de tratamento para os pacientes parou de vez. Foi o que afirmou a diretora do Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDO-AM), Leny Passos. 

“O Hospital Santa Júlia,  apesar de não realizar mais cirurgias desde abril, ainda fazia exames e consultas, mas no dia 1º de setembro, o contrato para esse serviço também terminou. Desde então, tudo está paralisado”, disse a diretora. 

A solução para esse problema, segundo Passos, ainda está sem prazo para se resolver. De acordo com a diretora, o Governo do Estado passa por um período de transição e, por isso, nenhum contrato de bens e serviços foi assinado, por enquanto. “Por enquanto é preciso esperar a chegada do novo governador. Até lá, os órgãos devem continuar sendo ‘exportados para não serem descartados’”. 

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