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Combate às desigualdades deveria ser prioridade no AM, diz cientista

Próximo governo deve ser “mais do mesmo”, já que debate político foi generalizado e não travou discussões essenciais para o Estado, como a redução das desigualdades, afirmou especialista em Ciências Sociais 27/10/2014 às 17:33
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Mesmo tendo riqueza inegável, Amazonas tem indicadores de desigualdade social
Akemi Nitahara (Agência Brasil) Manaus (AM)

O governador reeleito do Amazonas, José Melo (PROS) não teve compromissos públicos nesta segunda (27). Após a confirmação da vitória, ele disse que iria “pegar um barco e passar quatro dias no Pauini [município no sul do estado], descansando”, para depois se reunir com o vice-governador eleito, Henrique Oliveira, o senador eleito, Omar Aziz, e demais aliados para começar a “formatar o novo governo que vai dar suporte, amparo a tudo aquilo que todos nós nos comprometemos com o povo do Amazonas”.

De acordo com o governador, a prioridade será a educação. Moradora de Manaus, a dona de casa Ivanilde Fonseca Moreira, de 57 anos, com três filhos adultos e seis netos pequenos, concorda com a prioridade para o setor educativo. “A gente só vê as promessas, agora elas têm que ser cumpridas, né? Eu acho que a escola, saúde, limpeza, para mim, isso aí é o essencial. Falta melhorar a qualidade e a segurança nas escolas”.

Para o feirante Geovani Cardoso de Lima, de 33 anos, além da educação, existem outros investimentos principalmente sociais que precisam ser feitos. “Tem várias coisas que precisam ser mudadas, como o asfaltamento de rua em bairros, tem muita coisa pendente, o pessoal do Prosamim [Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus, de reurbanização e construção de moradias populares], nessas áreas alagadas que precisa tirar o pessoal das palafitas. Vamos ver o que eles vão fazer por nós”.

Na avaliação do professor Marcelo Serafico, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o novo governo vai ser “mais do mesmo”, já que o debate político foi muito generalizado e não travou discussões essenciais para o estado, como a redução das desigualdades.

“É um estado que produz uma riqueza inegável, tem a produção de petróleo, a produção das indústrias que ficam na capital. Mas é um estado que tem indicadores de desigualdade muito específicas. Então, seria de se esperar dos candidatos algum tipo de compromisso em torno do problema, de como diminuir essas desigualdades, como distribuir riqueza, como democratizar cultura, tanto como criar uma sociedade mais igualitária, mais justa. Esse debate não foi feito”, disse.

Ele cita também a grande concentração de riqueza percebida no distrito industrial da Zona Franca de Manaus. “Nenhum dos candidatos se comprometeu, por exemplo, em dizer qual deve ser a participação dos salários no total das riquezas. Tem indicadores de faturamento da Zona Franca que mostram que do total gerado pela Zona Franca, no máximo 5% correspondem a salários. É um dado alarmante que revela a extrema concentração de riqueza”.

Quanto à educação, Serafico explica que as políticas nacionais em torno do tema priorizam as estatísticas de matrícula, em detrimento aos indicadores de qualidade, o que leva ao principal problema educacional constatado no país, segundo ele, que é o analfabetismo funcional.

“Nós estamos há muitos anos já diante de um problema que é diagnosticado inclusive pelas instituições de pesquisas nacionais, o próprio Inep, que são dados reveladores de que nós temos um percentual de analfabetos funcionais extremamente significativo no país. Você tem pessoas que aprendem a ler, aprendem a escrever mas que tem a enorme dificuldade de interpretar um texto, bem como interpretar algumas situações a partir de um pensamento racional, digamos assim”.

Na saúde, o professor cita a necessidade de mais investimentos em leitos hospitalares para o tratamento e em pesquisas relacionadas a doenças tropicais, como a malária, dengue e doença de Chagas, “a pesquisa pode levar a transformação disso em medicamentos ou em modos de evitar que as próprias doenças, as endemias se manifestem”.

O debate em torno da segurança pública, segundo Serafico, continua se dando erroneamente no combate ao crime, no lugar de se combater as condições que levam à possibilidade do fato ocorrer. “Não se discutiu segurança pública no que diz respeito à política social, ficou muito centrada na discussão de crime. Mas por que as pessoas são levadas ao mundo do crime? O que está acontecendo? Qual é a situação de emprego? Quais são as perspectivas que um emprego assegura para um jovem? Os indicadores de assassinatos na juventude são altíssimos, muitos deles violentos, coisas que envolvem narcotráfico e outras coisas. O que faz com que o jovem ainda recorra a esse tipo de coisa? Para isso não há resposta, e pior, nem discussão”, disse.

Para o cientista social, falta, de uma forma geral, planejamento nas campanhas políticas, com definições claras do problema e quais são as soluções possíveis. “No meu entendimento, todo e qualquer candidato deveria se manifestar: o grande problema da nossa sociedade é esse e eu vou combater esse problema dessa, dessa e dessa maneira. Esse discurso generalista do governador eleito decorre de uma dificuldade enorme de planejar, de dizer o que quer fazer e como quer fazer, de onde vem os recursos, se vai tirar de algum setor, que setor é esse, se vai reinventar algum tipo de política, com novas discussões”.

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