Domingo, 11 de Abril de 2021
Luto

Como lidar com o luto em meio à pandemia

Em meio à tanta dor, é importante aprender a conviver com o sentimento de tristeza e saudade da forma mais saudável possível



Sem_t_tulo_91CF2274-B412-4055-A00F-206F5B612273.jpg Agnaldo e Tereza. Ele não resistiu às complicações da Covid-19 e faleceu no início do mês.
28/01/2021 às 12:53

O mundo está de luto. O sentimento de perda e apreensão se tornaram comuns. O A CRÍTICA conversou com pessoas que perderam entes queridos em decorrência da pandemia e com a psicóloga Nazaré Mussa, que deu dicas de como lidar com o sentimento de ausência.

É preciso que o luto seja vivenciado, de acordo Mussa. O tempo de vivência do fenômeno varia de acordo com crenças e experiências pessoais. “O luto está diretamente ligado ao sentimento existente por determinadas pessoas”, disse.



Mussa advertiu contra o afastamento da vivência do sentimento. Segundo ela, há registros de pacientes que não viveram o luto após o falecimento do ente querido e que foram acometidos pelo sentimento de perda anos depois da morte. “Casos assim necessitam de um especialista, porque podem levar a quadros de depressão”, contou.

A profissional afirmou, ainda, que a falta de auxílio de pessoas queridas pertencentes ao convívio do enlutado pode agravar o luto. “A resposta ao luto é sempre pessoal. Mas o ideal é que não se evite o contato de outras pessoas. Hoje, com as redes sociais, é possível receber apoio por videoconferência”.

Internada após perda

A jornalista Tereza Teófilo, 44, viu o namorado Agnaldo Oliveira Gomes Júnior, também jornalista, ser internado na virada para o ano novo, dia 31 de dezembro. Depois do falecimento dele, Tereza também precisou ser internada, após se infectar com o vírus e lutou contra as complicações, com a filha em mente. “Me concentrei no tratamento. Fique com medo, porque minha filha estava sozinha em casa”, disse. A profissional ficou com 70% do pulmão comprometido.

A jornalista teve que lidar com uma sucessão de perdas. Em março de 2018 ela perdeu o marido, vítima de câncer de intestino. Os dois estavam casados há vinte anos. Na época, Tereza buscou ajuda na religião. “O espiritismo me ajudou muito, com relação às perspectivas para o futuro”, contou.

Para lidar com a perda do esposo, ela se ocupou com o trabalho e em ajudar a filha, que, na ocasião estava terminando o ensino médio e se preparando para a faculdade. No caso de Agnaldo, Tereza conta que foi diferente, repentino. “Num dia, a gente estava tomando café. No outro, eu estava internando ele, sem saber o que iria acontecer”.

Em abril, Agnaldo descobriu que estava com insuficiência renal crônica. Ele, Tereza e a filha dela haviam se contaminado com o novo coronavírus em dezembro do ano passado. O jornalista ficou internado durante quatro dias. O falecimento do profissional foi divulgado em portais de notícias, logo após a confirmação da morte, mas Tereza não acompanhou a cobertura da mídia. “Isso não me afetou. Estava dentro do hospital, passando por procedimentos burocráticos”, disse.

Depois que foi internada devido ao contágio do vírus, Tereza precisou receber oxigênio por quatro dias, até apresentar melhora. “É preciso ter um psicológico muito forte durante o tratamento de Covid”, afirmou. A jornalista está trabalhando em regime de home-office e estreitou os laços com a filha, em decorrência do que ambas tiveram que enfrentar juntas e devido à proximidade gerada pelo isolamento social.

“Ficamos muito parceiras. A gente conversa mais agora do que antes”, afirmou.

Três perdas em dois meses

A aposentada Maria Ivone de Oliveira Lima, 62, perdeu dois primos em decorrência da pandemia e teme pela própria vida e a dos familiares. “Eu estou com muito medo, por mim e minha família, minhas netas e minha mãe”, disse.

Em maio de 2020, ela perdeu um primo de 70 aos, que morava no bairro Santo Antônio, na Zona Oeste de Manaus. Os dois não tinham o costume de se visitarem com freqüência, mas sempre ligavam um para o outro.

“Ele descobriu que tinha diabetes depois que contraiu Covid. Era um homem muito tranquilo, bom e íntegro, que deixou cinco filhos, todos maiores de idade. A mulher dele faleceu dois meses depois dele, de infarto. Ela tinha perdido a vontade de viver”, contou.

No mês seguinte do mesmo ano, Ivone perdeu o pai, vítima de infarto, e outro primo, por conta do novo coronavírus. Para a aposentada, a ausência física dos entes queridos é o que mais dói, no luto. Ivone relatou que buscou forças na religião. “Não podemos ir contra a vontade de Deus. A gente ainda nem superou uma coisa e já vem outra. É complicado. É preciso ter muita fé, para ficar de pé, sem blasfemar”, disse.


Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.