Sábado, 25 de Maio de 2019
PARTO EM CASA

‘Ser parteira é algo divino’: conheça histórias de quem nasceu nas mãos delas

No Dia Nacional das Parteiras Tradicionais, o Portal A Crítica reúne relatos de pessoas que vieram ao mundo assistidos por parteiras



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Fabiana, Anderson e Marcus Vinicius atendidos pela Equipe Celeste Parteria (Foto: Divulgação)
20/01/2017 às 05:00

Água quente, toalhas secas e uma mulher prestes a dar à luz. Assim era o cenário de parto que a maioria das parteiras, estimadas em 60 mil em todo o País, encontrava. Conhecidas como “comadre”, “mãe de umbigo” ou “curiosa”, por séculos, utilizando apenas os saberes e práticas populares, elas auxiliaram na chegada de muitos bebês.

Atualmente essa assistência é feita também por enfermeiras obstétricas, conhecidas como parteiras contemporâneas. E nesta sexta-feira (20), no Dia Nacional das Parteiras Tradicionais, o Portal A Crítica vai contar histórias de pessoas que nasceram em partos domiciliares assistidos por parteiras e enfermeiras. 

Apoio da avó na hora do parto

A enfermeira obstétrica Simone Seixas, 51, acostumada a ver partos de pacientes em maternidades, viveu no final do ano passado uma experiência emocionante: foi ela quem ajudou a filha a dar a luz em casa. “Tudo aconteceu muito rápido. Quando a gente vê uma mulher tendo bebê na maternidade já é emocionante, imagine vendo sua própria filha?”, expressou.

Segundo ela, a filha Jessica começou a sentir as dores do parto por volta de duas e meia do dia 16 de dezembro do ano passado. “Tudo aconteceu naturalmente. A melhor decisão foi deixar ela à vontade para escolher a posição que queria e se sentia bem. Eu a levei ao banheiro e quando vi o bebê já estava coroando. Quando ela sentia as contrações, ela andava e eu dei uma bolinha para apertar”, relatou Simone.

A mãe relata que o parto da filha seria cesárea, e estava marcado para 04 de janeiro. “Eu media a barriga dela e estava desconfiando que a bebê nascesse antes, mas não sabia quando”. Mas ir para a maternidade não seria melhor? “Enquanto minha filha sentia as contrações eu ligava para os médicos, no quarto dela, mas eles não me atendiam. Talvez se ela fosse para maternidade ela ia travar, pois lá eles iam fazer exame de toque e isso não é legal. A mulher fica traumatizada, ainda mais quando é o primeiro filho”, pondera.  

De acordo com Simone, após o nascimento da neta, ela chamou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) somente para cortar o cordão umbilical. “Eu sei cortar, mas não tinha material esterilizado. Depois disso levei minha filha e a bebê para a maternidade para saber se estava tudo bem”, relembrou.  

Experiência

Foi no dia 31 de outubro de 1981, no bairro São Jorge, que o produtor audiovisual Israel Martinez, 35, veio ao mundo. Assistido por uma parteira de 86 anos, a tia e o pai, Juan Martinez, ajudaram na chegada do até então primogênito do casal. Ele conta que a mãe dele, Rosa Martinez, sentia dores no início da noite do dia 31, mas foi somente pela manhã que ela deu a luz.

“Minha avó materna preparou um café com pimenta do reino para minha mãe. Logo após isso, aumentaram as dilatações, e o cenário para o parto foi preparado com lençóis e plástico, para conter o líquido”, relatou.

Segundo ele, ao nascer, a parteira percebeu que Israel não conseguia respirar, mas graças ao conhecimento que ela tinha tudo foi resolvido. “Ela perguntou se meu pai tinha coragem de fazer respiração artificial e sugar com a boca o que estava preso nas minhas vias respiratórias. Quando meu pai fez, eu consegui respirar com um pouco de dificuldade, e então a parteira passou álcool nas minhas costas, e eu abri no choro”, contou com alegria à reportagem.

O partejar contemporâneo

E é justamente baseado na assistência das parteiras tradicionais, caracterizada por respeitar o tempo do bebê e dar atenção individual à mulher, que as enfermeiras obstétricas atuam. E para tentar levar esse respeito às mulheres, que procuram acompanhamento durante a gestação, o parto e o pós-parto, a enfermeira Isabela Persilva decidiu investir na arte de ser parteira.

“A maternidade já é algo bem aflorado na minha vida, pelo fato de eu ter quatro filhos. Dentre essas gestações eu fiz faculdade de enfermagem, mas sempre fui encantada pelo acompanhamento das parteiras. Então quando comecei a ler mais a fundo e cursei o módulo de obstetrícia na faculdade, e fui estagiar vi que realidade nas maternidades é bem diferente das parteiras, onde se tem mais paciência e também pela decisão de não se utilizar métodos farmacológicos”, contou.

Atualmente ela exerce o ofício na Celeste Parteria e explica como é feito o atendimento para o parto domiciliar planejado. “A assistência ao parto domiciliar é realizada por duas Enfermeiras Obstétricas, as chamadas hoje Parteiras Contemporâneas, com experiência em parto, neonatologia e cursos de aperfeiçoamento profissional voltado ao parto domiciliar planejado. Realizamos o pré-natal a domicilio uma vez por mês, abordamos diversos assuntos diferentes, conforme a idade gestacional que a mulher está. E em conjunto é feito a consulta de enfermagem, onde avaliamos exames, ultrassonografias e o bem estar físico materno e fetal”, explica Persilva.

E o nome Celeste Parteria é em alusão aos Céus, pois para Isabela, o nascimento é algo divino. "Pare e pensa: qual a profissão que você pode auxiliar as mulheres e assistir elas trazerem seus filhos ao mundo? É uma profissão mágica e divina", disse. 

Com base na Lei nº 7.498, de 25 de junho de 1986, a enfermeira obstétrica acrescenta que gestantes de risco habitual, aquela de baixo risco, podem ser acompanhadas por enfermeiras obstétricas. Mulheres com médio risco devem ser atendidas em ambiente hospitalar por médicos.

Diferença

De acordo com Persilva, o que difere a parteira tradicional da contemporânea é o conhecimento científico, pois as tradicionais utilizavam apenas o saber popular e empírico. "Para ser parteira contemporânea no atendimento de parto domiciliar é necessário investir. É preciso ter cursos de reanimação adulto e neonatal e em conjunto que a equipe tenha todos os materiais necessários para o parto, desde os mais básicos como luvas e fios de suturas. É preciso estar preparado tanto de conhecimento quanto equipamentos", pondera. 

Quanto à rotina, Isabela responde com prescisão: não há! Para cada gestante é um acompanhamento diferente. 

Relato de parto domiciliar

A mãe Klicyane Pessoa foi uma das mulheres atendidas pela Equipe Celeste Parteria. Ela conta que ela e o esposo optaram por um parto domiciliar planejado para evitar intervenções desnecessárias e violência obstétrica. "Queríamos que fosse tranquilo, pois é algo para recordar para sempre como um momento mágico", disse. 

Como foi essa experiência?

Klicyane: A assistência foi maravilhosa, estudamos muito para ter este tipo de parto, é importante entender os riscos e vantagens. A equipe Celeste Parteria nos passava muita confiança e tranquilidade, tínhamos um grupo no whatsapp onde era possível tirar todas as dúvidas relacionadas ao parto domiciliar e uma rota para transferência se houvesse real necessidade. No dia do nascimento do nosso filho a equipe chegou rápido quando percebemos que a hora já era chegada, agindo de maneira muito discreta, dando apoio e esperando o tempo do bebê, não houve ninguém me apressando, era apenas calmaria, quem não estava no quarto nem percebia que estava havendo um parto lá.

Você acredita que todas as mães deveriam ter essa experiência de receber o filho em casa?

Klicyane: Bernardo é nosso primeiro filho e não posso imaginar outra maneira de ter um bebê, planejamos ter outro e queremos em casa novamente, o nascimento dele foi algo mágico, lindo, uma dor que passa assim que o bebê sai e a assistência é bem maior, pois todos estão voltados apenas para você e o bebê, tudo no nosso tempo. Gostaria muito que pelo menos uma vez as mulheres pudessem ter essa experiência de ter o filho à sua vista e ficar com ele sentindo seu calorzinho após o nascimento e dar todo amor e carinho possível naquele momento.


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