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Cotidiano
'Quebrando o galho'

Consertadores de aparelhos e objetos 'salvam a vida' de muitas pessoas no dia a dia

A reportagem percorreu a cidade para entrevistar esses trabalhadores de profissões que salvam a pele da população vez por outra 01/10/2016 às 16:40 - Atualizado em 01/10/2016 às 17:58
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O professor Aragão, que trabalha há 43 anos na Feira da Maués e que há cinco se especializou em consertar panelas / Fotos: Euzivaldo Queiroz
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Algumas profissões são imperceptíveis aos olhos da maioria das pessoas. Outras são facilmente identificadas porque reúnem um misto de bugigangas que, acredite, caro leitor, tem todo um sentido de ser. Estamos falando dos consertadores de objetos e aparelhos eletrônicos que quebram o galho de um número sem fim de proprietários desesperados por reparos em seus produtos. Fomos atrás dessas pessoas curiosas que reparam objetos quebrados. Sem eles, o que seria da população? Em todos esses trabalhadores está a satisfação pelo serviço exercido e a garantia de trabalho bem feito!

Sapateiro histórico

Manuel de Cristo Silva tem 70 anos e trabalha há 60 deles como sapateiro. Há 8 anos ele conserta sapatos e faz cópias de chaves em um quiosque no conjunto Ayapuá (o local é lotado de sapatos, mas o profissional diz saber onde cada encomenda, aguardando o cliente, está. No currículo, ele garante ter exercido as funções de pedreiro, marceneiro, ferreiro, decorador de móveis, vaqueiro, plantador de juta, confeiteiro  e cozinheiro. Toda uma vivência nas costas. A profissão de sapateiro veio da infância nas ruas. “Nasci no Recife, mas durante 8 anos fui menino de rua em Belém. Mas era limpo, Graças a Deus nunca fui bandido. Foi na rua que vi uma sapataria. Eu passava por lá e ficava de braços cruzados. Eu chegava na casa dos ‘barões’, dava bom dia e pedia para capinar ou limpar áreas em troca de um prato de comida. Nunca gostei de pedir as coisas”, relembra.

Na profissão, ele ainda usa ferramentas tradicionais de sapateiros antigos como pé de ferro, martelo próprio para a atividade, alicate e afiador. Seo Manuel diz que o sapato mais difícil de consertar é o social para homens, que tem costuras mais difíceis e que precisam ser feitas a mão. Há clientes que são abusados, reclama ele, que cobra, por exemplo, R$ 20 para mudar a sola de um sapato, e até R$ 80 para reconstuir um calçado. “A função de sapateiro dá pra sobreviver pois eu vivo honestamente. Paguei esse ano R$ 1.060 à Prefeitura pra manter isso aberto. E ainda pago R$ 300 pra morar numa garagem, conta o septuagenário sapateiro pernambucano.

Hoje sapateiro, seo Manuel é saudosista dos tempos em que era cozinheiro. “Ganhei muito dinheiro nesse Amazonas e já vendi muitas coisas. Como cozinheiro, inaugurei o Hotel Tropical em Manaus e Santarém”, recorda ele, que garante ser rezador “em casos da pessoa engolir espinhas de peixe”.

Com seus vários afazeres, o sapateiro pernambucano teve 27 filhos, sendo 25 homens e 2 mulheres. Mas não tive puta, maconheiro, traficante, ladrão, bandido. Criei eles na mão de ferro. Pra você ver: as duas primeiras gestações foram de trigêmeos. Aqui neste cadáver não existe mentira. O que eu lhe falar hoje, lhe falo amanhã”, ressalta o pernambucano do Recife, que é viúvo.
Trabalhando sozinho como sempre na vida, ele disse ter sofrido dois derrames, um deles no quiosque localizado no próprio Conjunto Ayapuá. “Nesse dia senti Deus me tocar falando para mim movimentar meu braço. E melhorei”, afirma o veterano trabalhador, que só vai se aposentar quando “Deus quiser”. 

Araújo das panelas

Aos 70 anos, o professor aposentado de Estudos Sociais João Batista de Souza Aragão é a salvação de quem busca solução urgente para os problemas de muitas donas de casa. Há 43 anos ele possui um ponto de venda de estivas na Feira da Maués, na rua de mesmo nome na Cachoeirinha, Zona Sul, mas apenas há 5 encontrou um trabalho que o deixa bastante gratificado: dar jeito para panelas de pressão, frigideiras e afins.

“Resolvi me especializar e montar esse serviço para atender a uma clientela que vinha atrás de consertos. Aqui recebo fregueses de Itacoatiara, Iranduba, Rio Preto da Eva, etc. É uma renda a mais para mim, ainda mais que de  uns tempos pra cá a feira está devagar”, explica ele, fundador e vice-presidente da feira.

“Faço reparos em geral em mata-junta, pino, válvula, borracha, peso e outros. Um reparo de pino custa R$ 7, mesmo preço da válvula, que é a maior coisa que eu vendo. Cobro só as peças, não o trabalho”, ensina o paneleiro, que trabalha de 8h às 15h diariamente.    

O consertador é cearense de Uruburetama, também conhecida como Arraial, e garante ser primo do famoso comediante Renato Aragão, o Didi, de Os Trapalhões. “Nasci em Arraial e ele é de Sobral, que fica perto. Faz tempo que ele esteve dando um espetáculo no estádio Vivaldo Lima, mas só o vi de longe”, frisa ele, viúvo e pai Patricia Geovana, de 10 anos, e Ivan, 39.

Frase

"Resolvi me especializar e montar esse serviço para atender a uma clientela carente de consertos" (Professor Aragão, consertador de panelas)

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"Tem cliente que gosta de falar da vida, conversar sobre problemas. Outros trazem o ventilador bonzinho" (Antônio José Cabrinha, técnico de ventiladores)

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Ganhei muito dinheiro aqui no Amazonas. Além de sapateiro, já fui cozinheiro, entre outras profissões mais” (Manuel de Cristo Silva, que hoje é sapateiro)

Especialização

Todos os profissionais  entrevistados por A CRÍTICA estudaram com afinco, e se especializaram bastante, para reparar os diversos produtos a que se propõem consertar. Outra coisa importante a se lembrar é que é recomendável procurar profissionais que dêem garantia para os serviços de assistência aos produtos. Senão, você pode estar levando “gato por lebre”.

Cabrinha e o 'Frank Sinatra dos ventiladores'

Na década de 1980 o jovem Antônio José Cabrinha, 57, trabalhava no setor de controle de qualidade de uma multinacional de refrigerantes. Após ser demitido, ele montou, em 1984, um negócio que ajuda a criar a sua família até hoje: consertar ventilares de parede, pé e teto. 

Em sua assistência técnica improvisada localizada na rua Borba, ele diz que atua até como “psicólogo” de muitos clientes que vêm em busca de reparo para os ventiladores. “Tem cliente que gosta de falar da vida, conversar, contar seus problemas. Outros querem que a gente vá na casa deles porque tiram o produto da parede e não sabem mais colocar de volta. Outros trazem o ventilador bonzinho, e a gente só coloca óleo pra lubrificar. Vem mais pra conversar”, diz.  “O problema de um ventilador pode ser o óleo, a buxa, bobina, etc. Atualmente vemos muitos defeitos nos fios de alumínio que vêm nos produtos chineses, que não aguentam a alta temperatura, ao invés dos de cobre. O ‘cara’ usa muito o ventilador, dois, três dias direto, dá defeito. Ainda tem o carapanã”, conta ele, dizendo que “quem repara um produto quer saber o que está acontecendo com o aparelho pra poder consertar. Senão, não tem confiança”.

Cabrinha, que também é conhecido como “Toinho”, fala que não há diferença em se consertar um modelo de ventilador de mesa ou de pé, também chamado de “coluna”. “Ressuscitar” um ventilador custa de R$ 35 a até R$ 50 ou R$ 60. “Você tem que colocar peça nova, senão não adianta. Nós damos garantia de até 6 meses”, informa o técnico, que trabalha das 8h às 18h de segunda a sexta e no sábado de 8h às 14h, folgando no domingo.

O técnico trabalha desde 1999 com um amigo bastante singular que atende pelo nome de Frank Sinatra Sales Viana, 57. O companheiro recebeu o famoso nome do pai, mas não quer saber de cantar, nem é fã do artista, e quer, sim, consertar. “Aqui é o meu meio de ganhar dinheiro. Eu faço o que gosto. Só não sei cantar. As pessoas brincam comigo pelo nome do artista”, brinca o consertador, que trabalhou durante 20 anos como gerente de uma loja na Zona Franca de Manaus (ZFM).

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