Terça-feira, 15 de Junho de 2021
ALIMENTAÇÃO DE RISCO

Consumo de alimentos processados cresce junto com risco de doenças crônicas no AM

Confinamento imposto pela pandemia de Covid-19 trouxe também um aumento considerável no consumo de alimentos ultraprocessados e a quebra no estilo de vida saudável para muitos amazonenses



Delivery-de-comida-em-Curitiba_DB8710DE-7F46-40E6-83FA-821BFA63FA90.jpg Foto: Reprodução/Internet
20/11/2020 às 06:20

A pandemia do novo coronavírus trouxe inúmeras mudanças nos hábitos da sociedade e uma destas modificações está na alimentação. Seja pela praticidade do preparo ou pelo baixo valor aquisitivo, o consumo dos alimentos ultraprocessados registrou um aumento significativo entre os brasileiros e brasileiras durante o período de confinamento imposto pela Covid-19 no país.

Conforme o estudo do Datafolha, encomendado pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), o consumo destes produtos era de 9% em outubro de 2019, enquanto em junho deste ano saltou para 16% em todo o Brasil.



Realizado em 2020, o levantamento abordou pessoas entre 18 e 55 anos pertencentes a todas as classes econômicas e de todas as regiões do Brasil, e revela que salgadinhos de pacote ou biscoitos salgados foram os produtos campeões de consumo em comparação com o levantamento realizado em 2019, subindo de 30% para 35% a proporção de pessoas que os consomem. O segundo lugar no ranking ficou para margarina, maionese, ketchup e outros molhos industrializados, cujo consumo subiu de 50% para 54% em 2020.

Compulsão alimentar

Segundo a nutricionista Izabelle Moura, a ansiedade causada nas pessoas pelo isolamento social pode ser considerada como o principal fator do aumento destes alimentos, alinhado ao fator social-econômico. Além disso, Moura alerta que consumo não controlado pode causar, segundo ela, o surgimento de várias complicações de saúde.

"Certamente muita gente desenvolveu ansiedade em casa e isso desencadeou uma compulsão na comida. A comida virou refúgio de muita gente. E com toda certeza o fator social econômico aumentou o consumo de industrializados. Este consumo infelizmente não é saudável, deve ser mínimo pois, tem muitos aditivos químicas açúcares e sódio. Os riscos são inúmeros, como desenvolvimento de diabetes hipertensão, colesterol e triglicerídeos aumentados", comentou a nutricionista.

Moura ainda alertou que estes índices tendem a piorar ano que vem, por conta da situação atual do país, devido a pandemia do coronavírus.

"Eu acredito que esse consumo continue crescendo para ano que vem, principalmente pela parte econômica porque é muito mais fácil você comprar um enlatado, comprar algo industrializado. É muito mais viável você comprar um suco de pacotinho, por exemplo, que custa R$ 1,00, do que frutas. Comprar uma sardinha enlatada, uma conserva, é muito mais barato do que comprar carne. Então com certeza, se ainda continuarmos com a situação que estamos atualmente, com a Covid-19, com tudo o que está acontecendo, eu acredito que a nossa situação tende a piorar para o ano que vem", alertou Moura.

Confinamento e saúde

O aumento do consumo de produtos industrializados e processados pode piorar a estatística de pessoas com doenças crônicas no Amazonas. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde 2019, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), somente no Amazonas, 41,5% da população de 18 anos ou mais possuía pelo menos uma doença crônica, em 2019. Em Manaus, este percentual era de 36,2%.

A pesquisa registrou também 16,0% ou 424 mil pessoas no Amazonas diagnosticadas com hipertensão arterial em 2019 (em 2013, 13,7%). Em Manaus, esta proporção foi de 15,0% (232 mil pessoas), em 2019, mesma percentual de 2013; E pesquisa também contabilizou que 17,4% dos amazonenses com hipertensão arterial precisaram de internação por causa da doença ou por alguma complicação. Em Manaus, este percentual foi de 14,3%.

Em contrapartida, o IBGE registrou a queda de amazonenses com colesterol alto no estado. Segundo a pesquisa, 10,9% das pessoas de 18 anos ou mais de idade (289 mil) tiveram diagnóstico médico de colesterol alto (em 2013, 11,0%) no Estado. Em Manaus, este percentual foi de 9,8% (10,4%, em 2013).

Um destes amazonenses, é o jornalista Luciano Ferreira, de 29 anos, que antes da pandemia, percebeu problemas em sua saúde devido à má alimentação, e após passar mal, resolveu mudar radicalmente seus hábitos, passando a emagrecer 15 quilos em três meses. Porém, com a chegada da pandemia, sua rotina foi totalmente desregulada e acabou ganhando de volta o peso perdido.

"Eu estava bem acima do peso há alguns anos, muito tempo sem me cuidar. Uma hora ia dar problema. E deu. Eu tive problemas, meu colesterol estava muito alto. Dores na coluna, problemas estomacais, gordura no fígado, pré-diabetes. Procurei ajuda quando passei mal. A partir daí, passei a fazer acompanhamento com médico e nutricionista, que personalizou a dieta”, explicou, relatando o início do período de perda do peso, que viria a ser afetado por um inesperado período de confinamento.

“Perdi 15 quilos em três meses e 10 dias. Depois dessa fase mais radical, a dieta foi flexibilizada, mas ainda controlada. Em fevereiro, posso dizer que estava 100% bem, com os níveis de açúcar e gordura perfeitos, com o peso adequado, me senti como não me sentia desde os 18 anos. Aí, em março, começou essa situação que não poupou ninguém. Em casa todos os dias, com horários bagunçados, sem um limiar entre hora de trabalhar, fazer afazeres domésticos, descansar. Da mesma forma fui descuidando com o que comia, e já não tinha acesso aos alimentos que me foram indicados, pois no supermercado onde comprávamos por delivery não tinha a maioria. Fora que não deu para manter o ritmo de atividades físicas por conta da ansiedade", relatou o jornalista.

Outro caso semelhante ao de Ferreira, foi o do farmacêutico Rodrigo Silva, de 27 anos. Segundo ele, já não tinha uma alimentação saudável antes da pandemia e com o isolamento social, este problema apenas agravou.

"Eu aumentei sim o consumo desses tipos de alimentos. Ficar em casa sem poder sair da uma ansiedade né e aí eu sempre comia um biscoito, ou um salgadinho de polvilho. Durante a pandemia eu continuei trabalhando, mas sem poder sair pra outros lugares. Então principalmente nos finais de semana, eu ficava em casa e me alimentava de nada saudável, como bolacha recheada, macarrão instantâneo", comentou Rodrigo Silva.

Cuidado com a alimentação

A alimentação não-saudável é um dos fatores que causam os acidentes cardiovasculares (AVCs), ainda conforme o IBGE, no 21% dos amazonenses foram diagnosticados com AVC ou derrame, representando aproximadamente 57 mil pessoas, no estado. Em Manaus, 1,9% referiram diagnóstico de AVC ou derrame, o equivalente a 30 mil pessoas.

Estas complicações motivaram a doméstica de 62 anos, Roziones Leal, a cuidar mais da própria saúde, pois já perdeu três familiares devido à má alimentação, dois deles ainda jovens.

"Perdi meus dois sobrinhos, jovens ainda. O primeiro se chamava Orlando, com 28 anos. Ele estava deitado na rede aí a mãe dele pensou que ele estava dormindo. Quando ela voltou pra lá viu ele estava se debatendo e levaram ele para o hospital, só que chegando lá, ele já tinha falecido. O IML [Instituto Médico Legal] acabou constatando que ele morreu devido a um AVC. Outro caso, foi o irmão dele, o Reginaldo, ainda mais jovem, com 23 anos. Ele foi deitar para dormir. E quando foram chamar o Reginaldo para jantar, perceberam que ele não respondia. Levamos pro hospital, porém ele já tinha falecido também e segundo os médicos ele morreu por uma parada cardíaca. Meus dois sobrinhos, assim como minha irmã - a mãe deles - que também morreu assim, não cuidavam da sua alimentação. Não praticavam nenhum exercício. O Orlando era acima do peso, consumia muita bebida alcóolica. O Reginaldo não se exercitava. A minha irmã era diabética. Eu tenho sorte que não tenho nenhum desses problemas, mas mesmo assim, estou sempre tentando cuidar da minha saúde", relatou Leal.

Apesar de ter retrocedido, Luciano Ferreira não se desanima e já está retomando aos poucos sua dieta saudável e pretende voltar a rotina de exercícios.

"Mas, da mesma forma como foi da outra vez, é muito difícil você parar para fazer isso, porque demanda tempo e a rotina rema contra. Infelizmente, a verdade é que só procuramos ajuda quando dói, quando o problema se agrava. No começo do ano, eu planejava para abril iniciar aulas em academia, voltar a fazer dança de salão, mas ficou inviável e para mim continua, pois apesar de ter lugares abertos o risco é alto de se infectar com o coronavírus. Eu tenho colocado como meta toda semana que inicia, fazer algo para voltar aos trilhos pelo menos com a alimentação. Tenho feito progressos nas ultimas três semanas. Já cortei frituras, reduzir significativamente as massas e açúcar. Voltei a fazer caminhadas de 5 a 7 km.. espero que até dezembro eu já esteja, digamos, ajustado", contou Ferreira.

Rodrigo Silva ressalta ainda que se exercitar com amigos é uma boa dica para criar força de vontade para se exercitar.

A minha rotina de exercícios era zero. Eu já estava incomodado com o sobrepeso já fazia bastante tempo e isso piorou nos últimos meses. Com a reabertura das academias, vários colegas de trabalho começaram a malhar e cuidar da alimentação e isso me motivou a fazer o mesmo. Então pouco tempo depois que o funcionamento das academias foi autorizado pelo governador, eu me matriculei e comecei a praticar atividades físicas e a cuidar um pouco mais da alimentação. O próximo passo é fazer acompanhamento nutricional. Isso somado a rotina de exercícios que mantenho", concluiu Silva.

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Repórter de A Crítica
Amazonense, nascido e criado em Manaus. Graduado em Jornalismo e mestrando em Antropologia Social, ambos pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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