Quinta-feira, 12 de Dezembro de 2019
GASTOS

'Cotão' da ALE-AM abastece posto da família de deputado do Amazonas

Quase um terço dos membros da ALE-AM enche o tanque dos seus carros em posto de parentes do deputado Abdala Fraxe



POSTO_FAM_LIA_FRAXE.jpeg Posto Equador localizado na avenida Carlota Joaquina, na bola do conjunto Eldorado, da empresa Cidade Comércio e Petróleo, é o preferido por sete dos 24 deputados. (Foto: Geizyara Brandão)
18/04/2017 às 14:31

No mês de fevereiro deste ano, sete deputados estaduais gastaram R$ 47.992,93 em combustíveis utilizando o orçamento da Cota para Exercício da Atividade Parlamentar (Ceap) em uma única empresa, de acordo com o portal da transparência da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALE-AM): Abdala Fraxe,  David Almeida (PSD), Dermilson Chagas (PEN), Serafim Corrêa (PSB), Orlando Cidade (PTN), Platiny Soares (DEM) e Wanderley Dallas (PMDB).  

A empresa Cidade Comércio e Petróleo LTDA, escolhida pelos parlamentares para fazer o abastecimento de combustível, pertence a familiares do deputado Abdala Fraxe (PTN). 



Fraxe foi condenado em 2011 a seis anos e meio de prisão, em regime semi-aberto, por formação de quadrilha e crime contra a ordem tributária, por cartel em postos de combustível. No ano de 2013, o  Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) impôs a multa de  R$ 800 mil pelo mesmo motivo da condenação, uma vez que em 1999 era dirigente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo no Amazonas (Amazonpetro). Atualmente, o parlamentar é o segundo vice-presidente da ALE-AM.

Gastos
De janeiro do ano passado a fevereiro de 2017, apenas Abdala Fraxe gastou R$ 97.458,81 da Ceap na empresa Cidade Comércio e Petróleo LTDA, localizada na Avenida Carlota Joaquina – Parque Dez. Sobre a escolha do local para abastecimento dos veículos, Fraxe afirma que o preço e a distância conta na hora de abastecer.

Quando questionado pela reportagem se não via problema  em abastecer em um posto da propriedade de familiares com o dinheiro público, o deputado respondeu: “se tiver algum posto, em Manaus, que venda mais barato do que esse. Não tem problema nenhum, vou abastecer na hora. Lá é o mais perto, ou seja, é uma economia de distância e é o mais barato. Eu não consigo ver outro mais barato do que ele”, disse Abdala Fraxe.

O deputado estadual Serafim Corrêa (PSB) disse que não sabia que o posto pertencia a parentes do colega e que provavelmente foi escolhido pelo gabinete dele por causa da distância da casa legislativa. “Pelo nome da empresa, daria até para supor que era do deputado Cidade”, comentou Serafim. 

A resposta do deputado Dermilson Chagas (PEN) foi semelhante e ainda frisou que a preferência do local de abastecimento fica a cargo do seu chefe de gabinete.

Quanto ao controle de quem abastece utilizando a Ceap, a Diretoria de Comunicação da ALE-AM informou que, segundo a Diretoria Geral, o controle dos combustíveis é de responsabilidade única e exclusiva de cada gabinete parlamentar.

O posto escolhido pelos sete parlamentares para encherem os tanques dos seus carros e do  de assessores com a verba do cotão é o  Equador da bola do Eldorado, da empresa Cidade Comércio e Petróleo LTDA.

Em números
23.127,30 reais é o valor da  verba disponível para os deputados utilizarem mensalmente com gastos de combustível, telefonia, material gráfico, consultoria jurídica e outros. O valor pode acumular de um mês para outro, caso não seja utilizado,  até o fim do ano.

8 mil reais  é o valor que os deputados estaduais podem utilizar, por mês, com a compra de combustível da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (Ceap), o chamado “Cotão”. Antes, o valor previsto pela resolução legislativa era de R$ 4 mil.

Outras franquias

A reportagem de A CRÍTICA percorreu, na última sexta-feira (14), os principais postos de combustível próximos da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALE-AM) para comparar os preços, uma vez que esse  foi o critério para a escolha do Posto Equador informado pelos deputados. 

O Posto Equador da bola do Eldorado, da empresa Cidade Comércio e Petróleo LTDA, que pertence a família Fraxe, comercializa o litro da gasolina a R$ 3,85, assim como  sete postos de outras franquias como Ipiranga, Shell e Petrobras (BR) localizados no entorno da Assembleia Legislativa, bairro Parque Dez. O que evidencia que o preço praticado pelo posto é semelhante aos demais.

A distância entre a Casa Legislativa foi outro critério apontado pelos parlamentares que utilizam a Cota para Exercício da Atividade Parlamentar (Ceap) para o combustível. Sendo assim, o Posto Equador fica a 2,1 Km, se a saída for da ALE-AM. Enquanto que os Postos Ipiranga e Shell estão a 550 e 900 metros, respectivamente. O trajeto somente é favorável ao Equador se o carro saísse do posto em direção à Assembleia, o que contabilizaria um percurso de 600 metros.

A média dos gastos com combustível dos sete parlamentares, Abdala Fraxe (PTN); o presidente da ALE-AM, David Almeida (PSD); Dermilson Chagas (PEN); Orlando Cidade (PTN); Platiny Soares (DEM); Serafim Corrêa (PSB); e Wanderley Dallas (PMDB), no mês de fevereiro, foi de cerca de R$ 6,8 mil.  Esse valor equivale a 1.780 litros de gasolina a R$ 3,85, o que para um carro popular (1.0) daria para percorrer 17,8 mil quilômetros.

Blog
José Ricardo - Deputado estadual pelo PT

 “Geralmente  a gente procura saber qual está com um preço bom.  O problema dos postos de gasolina é que eles estão todos com os preços muito nivelados. Nós temos quase um cartel aqui em Manaus. Às vezes um ou outro posto faz uma promoção, vende mais barato, mas no geral o preço de gasolina em Manaus, se você for observar, é quase o mesmo. Então o deputado, onde ele comprar não vai fazer muita diferença em termos de economia. Mas eu procuro ver, tanto que uma hora tenho um, uma hora tenho outro, procuro ver onde está o melhor e quase todos não muda muito. Eu compro em um posto da Cachoeirinha, que sempre fez um preço bom e também ali pela Zona Leste, que às vezes tem um preço melhor. Então varia muito. Quem tem comissão e atua muito, acaba gastando mais combustível, outros acabam usando menos porque às vezes a comissão ou o próprio gabinete o trabalho é pouco. Por exemplo, eu uso demais, porque eu recebo denúncias, senão todo dia, ou um dia sim e outro não e eu tenho uma equipe na rua para checar as denúncias direto. Então há um consumo de combustível razoável. Agora tem comissão que eu nunca vejo fazer nada, então estou imaginando que gaste menos”, disse o deputado estadual.

 


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