Domingo, 17 de Janeiro de 2021
Crianças estupradas

Crianças de até 11 anos são as principais vítimas de crimes sexuais entre menores de 18 anos em Manaus

De janeiro a outubro deste ano, 205 crianças de 0 a 11 anos já foram violentadas sexualmente



1-abuso_66491CDB-60CC-4874-A4A0-781BE263F455.jpg Foto: Reprodução / Internet
02/11/2020 às 10:00

De todas as vítimas de crimes sexuais com menos de 18 anos em Manaus durante 2020, 63% têm até 11 anos de idade.

Segundo dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP), 205 crianças foram violentadas sexualmente até o final do mês de outubro. O levantamento abrange estupro, aliciamento, constrangimento e assédio sexual.



Os dados apontam que 150 adolescentes de 11 a 17 anos foram vítimas deste tipo de crime no mesmo período, totalizando 355 crimes contra crianças e adolescentes entre janeiro e outubro.

A pesquisa mostra que existe uma diferença no tipo de violência para vítimas de cada idade. Enquanto 198 crianças foram estupradas e sete vítimas de aliciamento ou assédio, 18 adolescentes foram assediados e aliciados e 132 foram estuprados.

Vítimas

Somente na última semana, uma série de crimes chocou pela forma violenta que ocorreram e pelos danos psicológicos que podem deixar de forma permanente nas pequenas vítimas.

“Ah vó, eu lembrei. Eu não caí da cama não. Foi aquele homem grande que me bateu com um pau”. Foi dessa forma que uma menina de apenas cinco anos resolveu contar para a família que tinha sido violentamente agredida pelo irmão do seu padrasto ao tentar se defender de um estupro.

Ela relatou à bisavó que o homem pedia para tocar em suas partes íntimas, mas como ela começou a gritar, ele a agrediu com um pedaço de pau e a deixou com o corpo inteiro cheio de hematomas. “Ele só parou porque um menino apareceu”, afirmou a menina.

Com medo do que poderia acontecer, a pequena mentiu e disse que os ferimentos foram ocasionados após ela cair da cama, mas foi pressionada pela família e decidiu falar a verdade. O crime aconteceu no último domingo (25) na casa do padrasto da vítima, no bairro Santo Antônio, zona Norte. Até o momento, ninguém foi preso.

Também na última semana, uma criança de seis anos foi estuprada pelo soldado do Exército Brasileiro, Renan Guimarães Costa, 21, que chegou a filmar o crime e postar as imagens nas redes sociais. Ele foi preso por estupro de vulnerável e está à disposição da justiça.

Outro caso que chamou a atenção foi de uma menina de 11 anos sequestrada de um campo de futebol na Glória (zona oeste) e que foi mantida refém por um idoso de 65 anos durante 24 horas. Durante esse período, ele a manteve amarrada e cometeu várias violências sexuais. José Ribamar Dias Pinho já está preso após ter sido apontado pela menina como o autor do crime.

Atenção aos sinais

De acordo com a psicóloga e pedagoga Neyla Siqueira, dificilmente uma criança não sinaliza de alguma forma que algo de errado está acontecendo. Segundo ela, muitas vezes os adultos ignoram esses sinais, consciente ou não.

“Em geral há uma mudança de comportamento, por mais sutil que seja. Como a criança é ameaçada para não falar sobre o abuso, ela passa a demonstrar de diversas maneiras variando ente isolamento, quietude, medo de situações adversas, repulsa à pessoa do agressor, retrocesso do desenvolvimento, como por exemplo voltar a urinar na cama, chegando a apresentar problemas na escola, seja de comportamento quanto de aprendizagem”, explicou. A especialista pontuou mais alguns comportamentos como alertas para algum problema. “Muitas vezes a criança apresenta comportamentos eróticos, como masturbação ou teatrização do ato sexual. Além disso, demonstra curiosidade exagerada sobre a temática”, disse.

Outro ponto que merece muita atenção está relacionado ao corpo da criança. “E obviamente não podemos esquecer de observar o corpo da criança, que precisa ser visto em relação à mudanças, possíveis coceiras, hematomas, marcas, e fisiologia, como ardor ao urinar, aftas, dificuldade de evacuar”.

Como abordar o tema

A especialista afirma que o principal “erro” dos pais está na forma de abordar o tema junto às crianças. Ela afirma que esse primeiro contato é fundamental para que a criança e o adolescente sintam-se confiantes e a vontade para falar. Assustar, inquirir, pressionar, ameaçar não resolve e faz com que a criança se retraia, dificultando ainda mais o diálogo. A melhor abordagem é um diálogo ameno e próximo à criança, em que ela sinta que pode de fato se abrir. “Pergunte a razão da mudança de comportamento, o que ocasionou possíveis machucados e garanta que ela está segura em se abrir. Caso ela se expresse brincando, contanto histórias ou ainda falando mais claramente, continue no mesmo ritmo e entre na brincadeira dela e questione como isso tudo começou. Aos poucos ela irá se expressar. Mas, caso você não se sinta seguro para tal, não o faça. Como eu disse, uma abordagem precipitada pode comprometer tudo. Para isso existem profissionais, e ao menor sinal de desconfiança os procure”.

A educação para a sexualidade é uma necessidade em todas as idades, e na infância não é diferente, pois, ao contrário do que se propaga, quando voltada para essa faixa etária um dos princípios é justamente o ensino ao auto cuidado, a autonomia infantil e à prevenção de abusos e exploração.

E é papel não só da escola, mas em primeira instância da família. “Ensine às crianças as partes do corpo como elas realmente são, pelos nomes corretos e que são de acesso íntimo, e que não podem ser tocadas por todos, somente por pessoas de confiança e na hora do banho ou para cuidados médicos”, ensinou.

Outra forma de manter um diálogo sadio com a criança é ter uma rotina constante de conversa. “Tenha o hábito de perguntar, e de escutar atentamente, como foi o dia da criança, com quem brincou, como foi o período em que ficou com outras pessoas. Nesse momento qualquer alteração já pode ser sentida”, assegurou a especialista.

Ensinar a criança a identificar o toque carinhoso e o toque desconfortável também é uma estratégia de prevenção. E isso se faz através de brincadeiras do que são toques que acendem alertas e que fazem podem causar sensações que não são boas.

Por fim, Neyla explica que não há diferença nos cuidados entre meninos e meninas. “Essa possível distinção inclusive promove um efeito devastador para os meninos, que possuem risco igual às meninas, mas não contam por vergonha ou ainda são ignorados sob a premissa de que sabem se cuidar. Os cuidados devem os mesmos e proporcionais de acordo com o nível de desenvolvimento de cada criança e adolescente, independente do gênero”.

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