Domingo, 05 de Dezembro de 2021
Aniversário de Manaus

Da ancestralidade ao caos da Covid-19: a Pandemia em Manaus pela ótica de uma artesã indígena

Coordenadora da AMARN, Clarisse Tucano viu sua vida e de milhares mulheres indígenas serem afetadas pela Covid-19. Artesanato se tornou refugio



WhatsApp_Image_2021-10-18_at_16.18.50_A6E844C9-3FD1-4EFD-A86E-2D11CA416C94.jpeg Foto: Gilson Mello
25/10/2021 às 11:51

Não foram poucas as consequências trazidas pelo novo Coronavírus à vida de milhões de manauaras. No entanto, talvez um dos principais grupos sociais afetados pela Pandemia tenha sido o dos indígenas, que não apenas se viram à mercê da doença, como também – se não principalmente – acabaram sendo fortemente afetados no âmbito econômico. Esta é uma das várias conclusões que se pode chegar ao conversar com um integrante deste grupo social, como é o caso da artesã indígena Clarisse Tucano, coordenadora da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMARN).

Clarisse recebeu a equipe de reportagem de A Crítica na sede da AMARN, localizada na Rua 06, no bairro Aleixo, Zona Centro-Sul de Manaus. Em mais de meia hora de conversa, a indígena – que além de coordenadora da Associação, é artesã, professora da língua Tucano e mestranda – relatou como tem sido estes dois últimos anos não apenas dela, mas de todas as mulheres indígenas que fazem parte da AMARN.

“Nesses últimos dois anos as coisas, para nós, ficaram muito difíceis e desafiadoras. Primeiro porque a maioria das mulheres indígenas que residem aqui [Manaus] trabalham como domesticas, em casas de família. Então com essa chegada da pandemia, a maioria das mulheres ficaram desempregadas e até o nosso trabalho com o artesanato ficou prejudicado, porque toda a matéria prima que usamos na confecção do artesanato compramos dos nossos parentes lá das aldeias. O artesanato, para nós, gera uma renda e um apoio a renda de casa, porque complementa com o salário que a indígena recebe. A Pandemia acabou quebrando esse cenário e deixou as coisas muito complicadas, sem falar no fato de sermos de um grupo em vulnerabilidade”, relata.

Natural de São Gabriel da Cachoeira, mas residente de Manaus há pelo menos 13 anos, Clarisse afirma que a ‘vulnerabilidade’ a que ela se refere é a econômica e social. Isso porque, segundo ela, a maioria das mulheres indígenas residentes na capital vivem em casas pequenas e de aluguel. “Nossas residências contribuem com isso, pois muitas das mulheres indígenas não tem residência própria, vivendo de aluguel, e as vezes em apenas um quartinho com três ou quatro filhos. Ou seja, se uma dessas pessoas pega esse vírus, todos acabam ficando doentes, não existe, nesse caso um isolamento”, disse.

Para ajudar neste período tão complicado, a AMARN, que chegou a ter suas atividades presenciais suspensas por mais de um ano, tentou realizar campanhas para auxílio a essas mulheres, seja com arrecadação de alimentos ou na ajuda para a venda do artesanato produzido por essas mulheres. Foi também neste período, que a Associação – então sem muitas atividades – se viu obrigada lançar-se nas redes sociais.

“Coube a nós, enquanto coordenação, e com ajuda de parceiros, fazer campanhas para arrecadação de alimentos. Não tivemos, em momento algum, apoio governamental, isso ficou muito claro, então nós mesmas que precisamos realizar campanhas para ajudar no pagamento de atividades relacionadas a Associação e as artesãs, que ficaram trabalhando com o artesanato em casa e, como muito cuidado, vinham entregar esse material aqui em algum dia do mês. Também tivemos que explorar as redes sociais, que passamos a utilizar para a venda do artesanato, e assim fomos sobrevivendo”.

De acordo com a artesã, assim que a Pandemia da Covid-19 surgiu no Amazonas, todos os indígenas passaram a evitar de todas as formas os hospitais – visando não contraírem a doença ali. Com isso, enquanto a vacina contra o vírus não surgia, ela e demais indígenas se refugiaram em um de seus bens mais valiosos: a medicina tradicional.

“Graças a Deus poucos foram a óbito porque nós temos cuidados com nossa medicina tradicional. As plantas medicinais nos ajudaram em uma espécie de prevenção. Curou? Não, mas ajudou a prevenir. Foi uma valorização muito importante das plantas medicinais, até porque nós mulheres, quando vamos de um lugar para outro, sempre carregamos nossas plantinhas, tendo em nossas casas sempre um espacinho para elas”, informa.

Do artesanato à AMARN

Durante a entrevista, Clarisse Tucano sempre buscou enfatizar a importância da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro – que já existe há 34 anos – na sua vida e rotina, sendo este espaço uma segunda casa para ela, ou como ela mesmo disse, uma ‘maloca’. Atualmente, além de exercer o papel de coordenadora, Clarisse também dá aulas na sede da AMARN para mais de 30 crianças e adolescentes indígenas que residem em Manaus.

Segundo ela, as aulas dos indígenas ainda não retornaram por opção da Associação. No entanto, todos os dias são passadas atividades para os alunos fazerem em casa e a previsão é que em novembro as atividades presenciais retornem na sede. Além disso, aos poucos, atividades como reuniões, oficinas, acolhidas – que estavam suspensas desde março de 2020 – vão retornam, tudo seguindo um rígido protocolo. Até a reabertura total do local, os atendimentos na sede da AMARN serão realizados apenas nas terças e quintas-feiras de cada semana.

Em conversa com Clarisse, pode-se concluir que mesmo com vários outros lugares em um processo mais avançado de reabertura, os cuidados tomados por ela e demais membros da coordenação da AMARN são um reflexo do seu trabalho enquanto artesã – que busca a qualidade e o cuidado acima de tudo. Isso pôde ser visto principalmente ao questiona-la sobre a importância do artesanato produzido por ela e demais mulheres indígenas.

“O artesanato feito por nós, mulheres indígenas, não é feito de qualquer jeito, ele tem sua história. Temos conhecimento da nossa ancestralidade e cultura, que são expressos no que confeccionamos”, ressalta Clarisse.

Relação com Manaus

Como coordenadora da AMARN, Clarisse Tucano relata que por muitas vezes precisa se ausentar de Manaus para prestar apoio em outros municípios do Estado, e as vezes até fora dele. Por isso, a artesã/professora tem uma relação um tanto diferente com capital, que ela mesma ressalta ser muito importante para o desenvolvimento da Associação, mas que ainda parece não ter dado aos milhares residentes aqui o devido valor.

“Manaus nos dá uma certa oportunidade de convivência, pois aqui existem mais de 30 mil indígenas. Eu percebo que a Associação não é muito bem divulgada ainda neste contexto municipal, mas estadualmente é reconhecida. Lá fora somos reconhecidas como as ‘mulheres indígenas que se organizaram e protagonizaram a fazer sua história’ e Manaus nos dá essa oportunidade, mas o município também precisa reconhecer também que possui muitos indígenas e que é uma cidade indígena, pois acolhe a todos os indígenas que vem das mais diversas áreas do Estado”, finaliza.




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