Publicidade
Cotidiano
Inclusão

Conheça histórias de mães que superam obstáculos para educar filhos autistas

O autismo é uma síndrome resultante de uma desordem neurológica que afeta o funcionamento do cérebro e o desenvolvimento nas áreas de interação social e habilidades de comunicação 02/04/2016 às 03:20 - Atualizado em 02/04/2016 às 10:13
Show autismo
Lucimeyre Martins e o filho Flávio, 10, diagnosticado aos 2 anos (Foto: Aguilar Abecassis)
Silane Souza Manaus (AM)

“Foi muito difícil no início. Abri mão de tudo. Até de viver a minha própria vida para cuidar dele, o que faço até hoje”. O desabafo é da dona de casa Lucimeyre Ferreira Martins, 42, que tem um filho de 10 anos autista. Hoje, na data em que se comemora o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, ela conta que a maior dificuldade que enfrenta continua sendo a inclusão, sobretudo na escola. “A inclusão social só existe na teoria, na prática não funciona”, afirma.

Para ela, as escolas, principalmente da rede pública, ainda carecem de profissionais especializados que saibam lidar com as crianças autistas. “Meu filho não fica na sala de aula, não faz tarefa, não se concentra e não tem um dia que eu vá pegar ele em que a professora não fale: o seu filho fez isso, o seu filho fez aquilo. Fico triste porque já fui à escola pedir para conseguir um mediador que o ajudasse, mas até agora não fui atendida”, relata.

O filho dela, Flávio Abraão Martins Vasconcelos, 10, teve o diagnóstico de autismo - transtorno que compromete as habilidades de comunicação e interação social -, aos dois anos de idade e, desde então, a dona de casa se dedica apenas a cuidar dele, uma vez que nem a escola está preparada para atendê-lo. “Quando descobri, tive que sair do trabalho. Ele era muito agressivo, não falava, se batia, hoje ainda tem crises, mas graças a Deus melhorou bastante nesse período”, comenta.

Dois mundos

A assistente financeiro Aline Ribeiro Soares, 38, também teve o filho diagnosticado com autismo cedo. Na época, ele tinha dois anos e seis meses. Ela, que morava em São José dos Campos (SP), conseguiu apoio de psicólogo e terapeuta e o filho foi para uma escola preparada para atendê-lo. O problema surgiu quando ela precisou se mudar para Manaus. “Quando nos mudamos ele tinha cinco anos e foi muito complicado porque as escolas daqui não estavam preparadas para recebê-lo”, relata.

 Atualmente, o filho de Aline tem 21 anos e começou este ano a faculdade: está cursando Gestão da Qualidade, mas as dificuldades que mãe e filho superaram para que ele realizasse o sonho de fazer um curso superior foram muitas e semelhantes às que Lucimeyre enfrenta hoje, quase duas décadas depois. Aline abriu mão de dois anos de sua vida profissional para ajudar o filho a sair de uma depressão severa. “Chegou uma hora que ele disse que não conseguia mais e eu disse que ele conseguia. De manhã eu o acompanhava na fisioterapia, à tarde no esporte e, à noite, na escola. Foram dois anos só para ele”, lembrou.

Com a ajuda da mãe, Gabriel saiu da depressão e concluiu o ensino médio. Mas, para Aline, o apoio de toda a família foi fundamental no desenvolvimento e interação do filho. “Eu abri mão de dois anos da minha vida, mas tem pessoas que não podem fazer isso. Não têm dinheiro ou precisam trabalhar, por exemplo. Eu tive sorte porque tenho uma família que deu muito apoio. A história dele seria diferente se nós não tivéssemos feito isso, ele não teria chegado tão longe. Esse é o conselho que eu dou: amor”, conclui.

Tanto a Seduc quanto a Semed contam com profissionais e escolas especiais para esse público

Atualmente, a rede municipal de ensino atende 756 alunos autistas. De acordo com a Secretaria Municipal de Educação (Semed), esses estudantes passam por uma avaliação diagnóstica com equipe multiprofissional, formada por assistente social, psicóloga, psicopedagoga, pedagoga, fonoaudióloga, fisioterapia e nutricionista, no Complexo Municipal de Educação Especial (CMEE) André Vidal para, posteriormente, serem encaminhados às escolas da rede.

A Semed informou que é oferecida a estes alunos, dependendo da severidade da deficiência, no contra turno, a Sala de Recurso Multifuncional, a fim de trabalhar as habilidades não adquiridas. “A rede municipal de ensino disponibiliza, em 70 escolas, monitores de Educação Especial, com a previsão de ampliarmos esse número para 200 unidades educacionais”, informou a Semed, em nota.

A Secretaria de Estado de Educação (Seduc), por sua vez, informou que, além de realizar o processo de inclusão dos alunos portadores de alguma deficiência por meio das escolas de ensino regular, conta também com escolas estaduais de atendimento específico, que têm 461 alunos matriculados em 2016.

Conforme a Seduc, nas escolas de ensino regular que realizam o processo de inclusão desses alunos existem as salas de recursos, onde são feitos os atendimentos às crianças com necessidades especiais, quando  o serviço é considerado diferenciado. Na capital, existem 214 escolas inclusivas atendendo alunos com diversos tipos de deficiências, matriculados na rede estadual de ensino.

Em 2016, o total de alunos com necessidades especiais em escolas inclusivas é de 1.187 estudantes. E as salas de recursos passaram de 35 para 64 neste ano. No interior, a secretaria informou que atende 49 municípios e 77 escolas possuem salas de recursos multifuncionais, atendendo 1.069 alunos.

70  milhões

de pessoas são autistas no mundo todo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, a estimativa é de dois milhões de autistas. O autismo é uma síndrome resultante de uma desordem neurológica que afeta o funcionamento do cérebro e o desenvolvimento nas áreas de interação social e habilidades de comunicação.

Publicidade
Publicidade