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Cotidiano
 Vidas mutiladas

Desamparados e entregues à própria sorte, ex-operários formam 'legião de mutilados'

No coração da Amazônia, há histórias de um Brasil que poucos conhecem: operários mutilados e que vivem o drama do abandono 01/05/2016 às 09:00 - Atualizado em 01/05/2016 às 10:29
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Oscar perdeu parte dos dedos da mão direita ao operar uma guilhotina / Fotos: Márcio Silva
Náferson Cruz Manaus (AM)

Esquecidos no tempo, poucos parecem se importar com eles. Jamais poderiam imaginar que seriam castigados pelo destino e que passariam a se habituar ao drama do desamparo social. Entregues à própria sorte, antes operários, hoje formam uma “legião de mutilados” e trazem consigo sequelas que vão carregar pelo resto de suas vidas.

Esta realidade que assombra o futuro deles eclodiu no passado, na metade da década de 1980, no auge do polo madeireiro da “Velha Serpa”, como é conhecido o Município de Itacoatiara, a 270 quilômetros de Manaus. Quando pensavam que o progresso estava aportando numa região encravada no coração da Amazônia, deram-se conta  de que, muito pelo contrário: estava se construindo um cenário de trágicas lembranças.

Imagens aéreas de balsas carregadas com toras em Itacoatiara, a ‘Velha Serpa’, no ápice da atividade madeireira / Acervo/AC

Deslumbrados com as imponentes fábricas que se ergueram no meio da mata, muitos operários, em sua maioria ribeirinhos e ex-pescadores, nem imaginavam que ali, mais tarde, testemunhariam traumáticos acidentes de trabalho ou teriam seus corpos dilacerados. Segundo o relatório dos Movimentos Sociais na Amazônia, em uma única fiscalização feita pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) entre os anos de 1996 e 1997, foram registrados 973 acidentes de mutilação nas fábricas madeireiras de Itacoatiara. Estima-se que esses números possam chegar a 1,5 mil vítimas. 

Ruim com elas...

À época, conforme o relatório, houve quem quisesse fechar as empresas para evitar novos acidentes de trabalho, o que não aconteceu, tendo como justificativa evitar o desemprego na região. No final da década de 1990, as empresas Gethal, Carolina, Mil Madeireira e Braspor empregavam quase cinco mil trabalhadores - tanto nas atividades administrativas, segurança,  vigilância e limpeza, quanto florestais e técnicas, como manutenção, serrarias, afiação/laminação, caldeiras, secagem, expedição e pátios de toras, entre outras funções.

Acima, operário trabalhando em uma madeireira na época em que elas estavam ‘no auge’ / Acervo/AC

Os serviços fabris deixaram um rastro incalculável de operários mutilados na “Velha Serpa”. Muitos bem que tentaram esquecer o passado abalizado em dor, mas o  ecoar sombrio  das máquinas ainda persiste em seus ouvidos. “Não consigo esquecer a aflição que passei ao cair no chão da fábrica com os dedos decepados”, lembra Oscar Soares Figueiredo, de 66 anos, hoje presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Madeireira de Itacoatiara.

No acidente, Oscar perdeu parte dos dedos quando operava uma guilhotina utilizada no corte de compensado. “Era 14 de março de 1991, saí de casa feliz para o trabalho e não sabia o que iria acontecer. Também vi o sofrimento  de muitos outros que se debatiam no chão, vítimas das máquinas”, contou.

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