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Dia da Mulher: O feminismo que incomoda muita gente

Em nova ‘onda’ feminista, cada vez mais mulheres recorrem à Internet para denunciar  assédio sexual e situações machistas a qual são submetidas rotineiramente  07/03/2016 às 21:00
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Empoderar, eis a palavra que sintetiza a luta feminina nos dias atuais
Luana Carvalho Manaus (AM)

Em mais uma data na qual se comemora o Dia Internacional da Mulher, oficializada há 41 anos pela Organização das Nações Unidas (ONU), a luta por uma sociedade sem hierarquia de gênero continua. Recentemente, uma nova onda de feminismo invadiu as redes sociais, onde mulheres passaram a evidenciar e discutir temas como a igualdade salarial, legalização do aborto e assédio sexual.

Por outro lado, as mesmas mulheres que assumem esta postura   são criticadas, diariamente, por homens e também por outras mulheres. O termo ‘feminazi’, por exemplo, mistura de feminismo e nazismo, tem sido usado de forma banal e depreciativa para descrever as militantes. “Algumas expressões são vitimadas pela polissemia (variedades de significados) e parece ser esse o caso do feminismo quando utilizado nas redes sociais, mas também fora delas. Embora frequentemente empregado no singular, feminismo  não é  antônimo de machismo e designa um movimento político plural que historicamente nomeia a luta pela igualdade de direitos das mulheres em diferentes partes do mundo”, explica a antropóloga  Flávia Melo, especialista em estudo de gênero da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). 

Ela explica que o mundo vive uma  nova onda de feminismo, forjada cotidianamente por mulheres que almejam conquistar o direito ao voto, como as sauditas que o experimentaram pela primeira vez no ano passado;  bem como o direito à educação reivindicado pelas jovens paquistanesas; o direito de ir e vir como o negado às mochileiras argentinas assassinadas no Equador; ou até mesmo o direito à vida sem violência pelo qual as mulheres brasileiras lutam com ajuda de leis, como a Maria da Penha.

Para a coordenadora regional do Movimento de Mulheres Olga Benário, Manuela Marinho, a sociedade ainda possui uma ideia equivocada sobre o feminismo. “Muita gente acha que as feministas querem trocar o patriarcado pelo matriarcado. Não queremos guerra entre sexos, o feminismo se trata de uma luta para além de igualdade de direitos. Quem diz que as mulheres já conquistaram o espaço delas é porque não são assediados  dentro dos ônibus ou não recebem menos exercendo a mesma função que um homem, só pelo fato de serem mulheres”, argumenta.

Revolução na Internet

Recentemente, campanhas como #meuamigosecreto e #meuprimeiroassédio viralizaram no Facebook e incentivaram milhares de mulheres a denunciarem práticas machistas do cotidiano. A jornalista Nathane Dovale, 26, é uma das corajosas jovens que usa a internet como plataforma para falar de questões relacionadas ao feminismo. Ela acredita que a ferramenta é uma das armas contra a desinformação.

“O modo como nossa sociedade se relaciona com o digital cada vez mais vem contribuindo com o mundo de informações necessárias para tomarmos consciência de algumas opressões. Posso dizer, inclusive, que os diversos casos de machismo divulgado na mídia e repercutido nas redes sociais, os relatos de conhecidas e o reconhecimento do que é o machismo e misoginia foram percebidos nessas redes sociais”.

Mês passado, a atriz Fernanda Torres causou polêmica nas redes sociais após ter se declarado contra “a vitimização do feminismo” em um blog do jornal Folha de S. Paulo. Muitos internautas a acusaram de ser machista. No texto, ela chegou a afirmar que se irrita menos com o machismo do que com os discursos feministas. Dias depois, ela pediu desculpas.

Luta começou no século 19

O movimento feminista teve início no século 19. As sufragistas inglesas, que lutaram pelo direito ao voto, ficaram conhecidas como as primeiras feministas da história. Ainda no final do século, organizações femininas oriundas de movimentos operários já protestavam em vários países da Europa e nos Estados Unidos por conta das jornadas de trabalho exaustivas e salários baixíssimos.

Personagem: Flávia Melo, mestre em antropologia social

"Na história do feminismo a expressão ‘onda’ costuma ser empregada para contar as fases do movimento em diferentes partes do mundo. No Brasil, autoras como Céli Regina Jardim Pinto (2011) afirmam que a primeira onda do feminismo caracterizou-se por reivindicar o direito ao voto conquistado em 1932. A segunda onda é situada nos anos de chumbo da Ditadura Militar, e marcada pela atuação do Movimento Feminino pela Anistia na década de 1970. Vivenciada no processo de redemocratização do País, a terceira onda do feminismo brasileiro foi marcada pela criação do Conselho Nacional da Condição da Mulher, em 1984."

Personagem: Nathane Dovale, jornalista

"Relatei num post um assédio que duas amigas passaram em frente a um bar. O post foi bem repercutido e muito mal interpretado. Vários homens responderam desrespeitosamente ao meu relato e ao o que eu queria tratar, que era “não pergunte de uma mulher que sofreu assédio, ou abuso, o que ela estava fazendo no lugar ou que roupa elas estavam vestindo. A culpa não é dela”. Mas o feminismo não é para homens e não é um assunto apenas para “algumas” mulheres. Sabemos que diariamente somos vítimas de machismo e misoginia (ódio ou repulsa a mulheres), desde a rua até o ambiente de trabalho. Então é necessário que haja um empoderamento de todas as mulheres para que nós possamos perceber que não somos meras máquinas sexuais e de procriação dentro da sociedade, embora o patriarcalismo esteja há anos imperando e dizendo isso."


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