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Cotidiano
RDS Piagaçu-Purus

Sem fiscalização, homens e mulheres se arriscam diariamente para garantir a proteção de RDS

Segunda reportagem da série mostra histórias de luta pelo meio ambiente de pescadores e moradores da RDS Piagaçu-Purus 27/11/2016 às 08:32
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Sem fiscais do Estado, cabe aos moradores proteger os lagos (Fotos: Clóvis Miranda)
Luana Carvalho Manaus (AM)

Com uma média de seis mil habitantes, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Piagaçu-Purus conta com apenas um gestor para dar conta de 57 comunidades que vivem, diariamente, conflitos por conta de invasões, principalmente nos setores onde o manejo sustentável do pirarucu e de recursos florestais são desenvolvidos: Itapuru, Ayapuá e Caua-Cuianã. 

Nesta região é comum encontrar comunitários reclamando da omissão do Estado, de fiscais e policiais que façam cumprir as leis ambientais, muitas vezes ignoradas por moradores das própria reserva. A situação ficou ainda pior quando, no ano passado, o governo reduziu o orçamento para o meio ambiente em uma reforma orçamentária. 

“Não temos  mãos suficientes para proteger nossa reserva. Eu, por exemplo, já era para ter morrido pelo menos umas cem vezes de tantas ameaças que recebo. Muitos de nós deixamos a clandestinidade para viver protegendo nossas florestas e o retorno que temos é este”, relatou Valdemor Bastos Seixas, 49, conhecido como ‘Noca’, agente ambiental e morador da comunidade Cuianã. 

Para quem matava jacaré para vender para outros Estados, tornar-se um protetor da riqueza e diversidade biológica do rio Purus foi um grande passo na vida. Embora com a própria integridade física ameaçada, ele afirma que irá resistir e continuar lutando pela floresta.

“Outro dia nós mesmos apreendemos um barco com 270 tracajás e 700 quilos de pirarucu. Ligamos para os órgãos ambientais e o que nos disseram é que não tinham homens para mandar. Então apelamos para a polícia de Beruri. O contrabandista foi preso, mas dois dias depois estava solto com todo o material”, relembra. 

Noca explica que o pouco apoio que os comunitários têm são dos policiais do município. Porém, como não é de competência deles e a delegacia não tem estrutura para manter presos suspeitos de crimes ambientais, logo eles são liberados. “É triste. Em seis anos o Ipaam (Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas) atendeu a um pedido nosso uma única vez. Enquanto isso vamos arriscando nossas vidas”, lamentou.

‘Peça fundamental’

O agente ambiental voluntário é uma peça fundamental para o funcionamento da reserva. Isto porque, além de colaborar com a fiscalização das bases, são os agentes que tomam frente na conscientização dos moradores e alunos das escolas ribeirinhas. Raimunda Vieira de Andrade, 52, nunca teve uma profissão. Ser agente ambiental voluntária era um sonho que pôde ser realizado após a criação da RDS. 

“Em 2007 eu fiz um curso para ser agente ambiental. Passei por muitas coisas difíceis, mas não desisto. Sempre somos ameaçados mas estamos aqui para trabalhar”, revela. Além da fiscalização, os agentes também passaram a trabalhar nas escolas,  falando sobre destinação de lixo e outras questões em prol do meio ambiente. 

“Acho que o papel do voluntário é fundamental para o funcionamento das comunidades, assim como do pescador”, completa Raimunda, compositora de várias músicas que exaltam as belezas do Purus e as melhorias depois da mudança de pensamento.

“Agora eu quero ver quem caminha  com a bandeira  da vitória. Quem aceitou como era antes, ou como é agora. Não tinha mais nada, pescava mal pra comer, não sabíamos o que fazer, até que chegou a hora. Agora a coisa mudou, não adianta mais negar, já aumentou, tudo tem aqui tem pirarucu, tracajá e tambaqui”, diz o trecho de uma das canções composta por ela, inspirada nas belezas do lugar onde vive.

'Exército de um homem só'

Além das dificuldades de negociação, relatadas na primeira reportagem desta série, os pescadores são unânimes ao citarem o principal problema que passam dentro da reserva: as invasões. Em todo o Estado, com 62 municípios, há apenas 17 fiscais do Instituto de Proteção Ambiental (Ipaam) atuando diretamente nas fiscalizações. 

“O principal problema do manejo são invasões que geram conflitos. Mas os pescadores criaram um sistema de vigilância e eles são os primeiros que tem a obrigação de cuidar do que é deles e, em casos mais graves, acionam o órgão gestor para tentar solucionar conflitos”, explicou o gestor da unidade, Cristiano Neves, que está atuando há oito meses na reserva de desenvolvimento. 

O Estado hoje possui 48 Unidades de Conservação, criadas a partir de duas leis que criaram os sistemas Nacional de Conservação da Natureza (SNUC)  o  Estadual de Unidades de Conservação (Seuc). As unidades recebem recursos do Governo Federal por meio do Programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa) e que é  gerenciado pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio). O Governo do Estado tem a obrigação apenas de oferecer recursos humanos e fiscalizar as unidades 

No entanto, a fiscalização não é suficiente. Na RDS Piagaçu-Purus, por exemplo, com quase dois milhões de hectares, sendo a quarta maior  do Amazonas, existe apenas um gestor para fazer a gerência. “A figura do gestor é de suma importância para que as atividades sejam desenvolvidas. Hoje, se não há um gestor, tudo fica limitado”, diz Cristiano. 

Atualmente, a co-gestão fica por conta dos próprios moradores, que são ativos e facilitam a gestão participativa, dando suporte. “Faltam pernas ao órgão gestor. Hoje um grande entrave pro trabalho é a dimensão da unidade. Então para minimizar essa problemática precisávamos de no mínimo dois geradores”, completa. 

A exploração ilegal de madeira, atividade de caça e pesca ilegal, infelizmente, ainda são comuns de acontecer na reserva. “É preciso intensificar as ações de fiscalização, pois um dos objetivos da reserva  é o uso sustentável do recurso pelos moradores”, completou o gestor. 

O Ipaam informou que neste ano foram realizadas duas operações de fiscalização na reserva. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) afirmou que atualmente as 42 UC’s do Estado possuem um gestor. 

'Parece que não, mas água também é um problema'

Quem nasce nas comunidades ribeirinhas está acostumado com o ciclo das águas, que move e muda toda a rotina dos moradores a cada cheia e estiagem. Muitas crianças aprendem a nadar antes dos cinco anos, mas, ironicamente, a preocupação com a qualidade da água começou a ser difundida nas escolas há pouco tempo.  

O projeto “Escolas d’Água” é financiado pela empresa austríaca Swarovski em parceria com a Fundação Amazonas Sustentável (FAS). Ele é desenvolvido desde junho em 10 escolas da RDS Piagaçu-Purus e atinge, diretamente, 537 alunos, fora alunos e professores que trabalham no projeto. 

O gestor da Escola Municipal São Sebastião,  José Marques Andrade, que trabalha em séries do 1º ao 9º  ano, conta que nunca tinha trabalhado o assunto com as crianças da comunidade. 

“A gente lamenta porque nem todos os educadores têm isso como prioridade. O cuidado com a água deveria estar  no calendário da própria secretaria. Se não priorizarmos o assunto, a gente se atrela só aos conteúdos dos livros didáticos e não passa uma educação ambiental, tão importante para nós que moramos dentro de uma reserva”. 

O professor explica que a realidade ainda é muito cruel, mesmo cercados de água doce. “A gente bebe água suja, por falta de um tratamento adequado. Criticamos o desempenho dos alunos mas não sabemos por trás o que está envolvido para  ele não ter um aproveitamento melhor. É uma questão de preservação e de saúde o tratamento da água”.

Gestora da Escola Municipal Monte Cristo, Deusa Pacheco Vasconcellos conta que os meses de experiência deu aos alunos, professores e responsáveis pelas crianças a consciência de cuidar mais da natureza e principalmente do ambiente que estão inseridos. 

“Conscientizar nossas crianças sobre a limpeza e proteção da água é de suma importância porque eles passam a ser multiplicadores dos conhecimentos. Acredito que, o mais difícil, seja educar os adultos sobre a importância de preservar”, disse Deusa. 

 Aluno testa solução implantanda em escola para filtrar água com sabão (Foto: Clóvis Miranda)

Coordenadora do projeto no Amazonas, Raquel Viggiani, conta que o principal passo foi construir relações locais de confiança. “A dificuldade maior com certeza é a logística difícil e muito cara, e por causa disso temos tempo escasso em cada uma das comunidades. Outra questão é engajar os professores para fazer aulas diferentes do usual, que tiram eles um pouco da zona de conforto de aulas tradicionais, para fazer algo mais criativo e dinâmico, mas a receptividade está sendo cada vez maior”. 

*Repórter viajou a convite da FAS

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