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Difícil adaptação afasta surdos de cirurgia que garante audição

Apesar de ser a solução para casos de surdez profunda, implante coclear não tem apoio de grande parte da comunidade surda. Pessoas que fizeram cirurgia não se sentiram inseridos na comunidade de ouvintes 28/09/2014 às 16:14
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A detecção precoce dos problemas auditivos garante o crescimento saudável das crianças
Jéssica Vasconcelos ---

Ouvir o barulho da chuva no telhado e aquela gargalhada que você nem sabe o motivo, mas acha tão gostosa e automaticamente começa a sorrir, parece natural para quem tem o recurso da audição. A vontade de quem já experimentou essas sensações é que todos pudessem aproveitá-las, porém, uma parcela dos deficientes auditivos prefere continuar com a limitação e ser feliz sem recorrer a equipamentos de áudio.

Apesar de ser a solução para alguns casos de surdez profunda, o implante coclear não tem o apoio de uma grande parte da comunidade surda. De acordo com o presidente da Associação dos Surdos de Manaus (Asman), Marcelo Costa, o surdo na maioria das vezes prefere se manter nessa condição porque há relatos de pessoas que fizeram a cirurgia, não se adaptaram e acabaram não se sentindo inseridos na comunidade dos surdos e nem mesmo dos ouvintes, pois as dificuldades de adaptação foram grandes.

Para Marcelo, a imposição da família para que o surdo faça o implante é algo que precisa ser trabalhado, pois muitas vezes a vontade do deficiente não é levada em consideração. “A família não pergunta se o surdo quer. Há um incômodo depois da cirurgia, os barulhos são ouvidos de uma forma diferente e tudo isso porque a família não aceita e não quer se comunicar pela Libras”, disse o presidente.

Utilizando o implante há 11 meses, Victor Agostinne de Oliveira, 10, que perdeu a audição gradativamente, está com a ajuda da família e da fonoaudióloga trabalhando todo o processo de oralização para aprender a se comunicar  com a fala. Segundo a mãe do estudante, Jackeline de Oliveira, o processo até a cirurgia foi longo, mas o resultado tem sido animador. “Antes os pequenos sons como a chuva ele não ouvia e agora ele já está atento ao menor barulho. Ver essa evolução é maravilhoso”, disse Jackeline.

Para a fonoaudióloga do Instituto Filippo Smaldone Manaus Rosana Cristina Hortencio da Costa, que atende deficientes auditivos, a resistência de uma parte da comunidade surda está relacionada com a aceitação deles mesmo. “Há um certo preconceito dentro da própria comunidade dos surdos com quem faz o implante”, disse.

A fonoaudióloga ainda lembra que o apoio da família e a fonoterapia é essencial para que haja sucesso no implante. “Muitos implantados não sentem o resultado porque não fazem o acompanhamento com os profissionais”, acrescentou Rosana. 

Números

Trinta é o número de surdos  implantados, segundo Rosana Costa. Para ela, o número pequeno está relacionado mais à dificuldade de acesso à cirurgia do que a falta de vontade de fazê-la, pois o tratamento após o implante é longo e precisa de paciência da família.

SUS

A cirurgia de implante coclear ainda não é realizada em Manaus. De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde (Susam), há um processo de habilitação, junto ao Ministério da Saúde, para implantação do serviço de implante coclear na rede pública local, na estrutura do Hospital Dr. Fajardo em andamento.

Ainda de acordo com a Susam, os trâmites de capacitação de recursos humanos e aquisição de equipamentos para esta finalidade já foram concluídos. Atualmente, os casos com indicação do uso do equipamento são atendidos pela secretaria por meio do programa de Tratamento Fora de Domicílio (TFD), com os implantes e acompanhamento dos pacientes sendo realizados em centros de referência de São Paulo.

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