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Cotidiano
comportamento

Do outro lado do lápis: o desafio das crianças canhotas em um 'mundo destro'

Pais e professores devem estar atentos para ajudar pequenos a se adaptar e nunca obrigá-los a 'mudar de lado' 28/03/2016 às 13:56 - Atualizado em 28/03/2016 às 14:09
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Apesar de quase idêntico ao irmão gêmeo Daniel, Davi é canhoto
Natália Caplan

Os gêmeos Davi e Daniel têm 8 anos e, apesar de quase idênticos, apresentam uma diferença crucial: utilizam mãos diferentes nas atividades diárias. O primeiro faz parte de cerca de 10% da população mundial de canhotos. Porém, ainda não há um estudo definitivo sobre quantos existem ou os motivos para que tenham nascido “do contra”. Para a mãe da dupla, Samantha do Carmo, 37, a questão requer atenção redobrada.

“O Davi tem o hábito de usar o lado esquerdo para quase tudo, incluindo a perna. A questão da postura é preocupante, pois em mesas normais ele escreve, muitas vezes, em má posição ergonômica”, diz, ao ressaltar a principal dificuldade do filho. “A coordenação motora dele não é perfeita ainda; pela idade, está sendo trabalhada para adaptar-se melhor. Como mãe, acho estranho. Sempre temos a sensação que vai atrapalhar”, completa.

De acordo com ela, alguns itens escolares precisam ser específicos, como tesoura e carteira com apoio inverso para canhotos em sala de aula. Nos primeiros anos em sala de aula, o menino teve muita dificuldade no aprendizado da escrita e, até hoje, se esforça muito para trabalhar a caligrafia. Ele, inclusive, é o único da turma da terceira série (com 30 alunos) a não utilizar a mão direita para escrever, pintar ou desenhar.

“No início, foi preciso incentivá-lo muito. A letra era mal formada. Ainda hoje, não tem a mesma perfeição em comparação ao irmão gêmeo, que escreve com a mão direita e tem uma letra bem mais perfeita na caligrafia”, afirma, ao revelar o incômodo do filho com relação ao questionamento alheio. “Ele não reclama. Gosta assim. Mas se incomoda quando é motivo de perguntas dos colegas”, lembra.

Apesar da preocupação com Davi, a empresária nunca o forçou a tornar-se destro. Para quem não conhece um canhoto, isso pode soar estranho, porém, muitas são as histórias de crianças obrigadas a “trocar de mão” para atender a exigência de pais, avós e professores. “Não o incentivo a mudar. O pai dele foi canhoto na infância e a mãe, que era professora, não aceitava. O corrigiu na marra. Hoje, o pai dele é destro”, afirma Samantha.

Mitos e consequências

Para Lorena Araújo, 42, ter nascido canhota trouxe situações desagradáveis durante grande parte da infância. Criada em um lar religioso, ela não sabe precisar exatamente quando começou a escrever com a mão direita — considerada a correta pela mãe —, mas lembra de apanhar de colher de pau na mão até na hora de usar talheres.

“Minha mãe foi educada em um ambiente católico rígido. Minha avó era tão devota que acreditava na história da ‘mão errada’, ‘pecadora’, ‘imperfeita’ ou ‘demoníaca’. Tudo que era certo era direito e o estranho era pecado. Logo, minha mãe também apanhou por ser ‘diferente’ e mudou na base dos castigos”, diz.

A fisioterapeuta aponta, entre as principais conseqüências da mudança forçada, a caligrafia ruim e a dificuldade para alguns afazeres simples, como destrancar uma porta ou utilizar uma tesoura. O trauma psicológico também influenciou nas tentativas frustradas de voltar a ser canhota na idade adulta.

“Minha mãe e minha avó não tinham culpa. Foram educadas assim”, enfatiza, ao citar o estresse de viver em um ‘mundo destro’. “Se para um adulto é complicado, imagina uma criança que precisa se adaptar. A tentativa de mudar algo intrínseco da pessoa (conversão forçada) só vai ocasionar conflitos, mágoas e dificuldades”, alerta.

Saiba mais

Escrever, pintar ou desenhar com a mão esquerda (canhotos) ou direita (destros) depende de qual lado do cérebro é o dominante. Destros têm o lado esquerdo dominante, que é o responsável pela racionalidade, lógica e matemática. Nos canhotos, o lado dominante é o direito, que é responsável pelas emoções, artes e imaginação. Há ainda os ambidestros, que têm habilidades com ambas as mãos. A preferência é definida aos seis anos de idade.

Como ajudar uma criança canhota

Deixe a criança livre para escolher seu lado favorito, evitando traumas, e avise na escola que ela tem preferência pelo lado esquerdo.

Trabalhe a auto-estima. Mesmo que a criança seja incentivada a usar a mão com mais habilidade, às vezes quer “escrever com a mesma mão do papai e da mamãe, ou dos coleguinhas”.

Para ensinar algum movimento ao canhoto, o ideal é posicionar-se em frente e não ao lado. Assim, ele terá facilidade em espelhar o movimento e não imitará o destro.

Oriente a criança a apoiar a mão. Quando o destro escreve, ‘puxa’ o lápis. O canhoto ‘empurra’ o lápis e apoia a mão em formato de gancho para ver o que estão escrevendo.

Adquira produtos especiais. Tesouras são itens particularmente difíceis para os canhotos. Quando um destro recorta, faz força juntando os dois lados da tesoura. Se um canhoto fizer o mesmo movimento, o papel será apenas “mastigado”.

Para uma boa visualização, o canhoto tenderá a fazer letras ao contrário, escrevendo em espelho. Nunca se zangue por isto. Coloque sinais no canto superior esquerdo da página para relembrá-lo onde deve começar a escrever.

Destaque

Entre os canhotos famosos podemos citar: o cantor Paul McCartney; os atores Charlie Chaplin, Whoopi Goldberg, Diane Keaton, Bruce Willis, Tom Cruise e Demi Moore; o físico Albert Einstein; e os artistas Michaelangelo, Pablo Picasso e Leonardo da Vinci.

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