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Cotidiano
EDUCAÇÃO

Novo ensino médio vai atrapalhar quem se arrepender e quiser mudar de carreira?

Após escolher pelas disciplinas relacionadas à sua área, o que poderá fazer o estudante que, mais à frente, pensar em mudar? 26/02/2017 às 05:00
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Foto: Aguilar Abecassis
Lídia Ferreira Manaus (AM)

Sancionada pelo presidente Michel Temer (PMDB) no último dia 20, a Medida Provisória sobre  a reforma do ensino médio vai setorizar o currículo escolar de 8 milhões de alunos. Com ela, os estudantes vão estudar apenas disciplinas relacionadas às carreiras que querem seguir, com exceção de algumas obrigatórias. Mas e se, mais à frente, a descoberta for outra área profissional, como fica?

A reforma é questionada por educadores, especialmente por estar na contramão do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A prova, que propõe interdisciplinaridade, é a porta de acesso às universidades. “Como é que o aluno vai conseguir passar em um exame destes se ele se limitou à formação profissional, por exemplo? Precisamos debater mais sobre esse tema, pouco foi discutido, como esta questão contraditória”, diz a educadora Andrea Machado.

Entre estudantes e ex-alunos, as opiniões são divergentes. Formado há 18 anos em medicina, Ricardo Risuenho descobriu a vocação para saúde  no final do ensino técnico em mineração. O curso profissionalizante, na Escola Técnica, equivaleu ao ensino médio, já com a substituição de algumas disciplinas.  “Quando eu encerrei, vi que nada disso tinha a ver com o que eu queria fazer. Foi quando fiz vestibular na área biológica e acabei  tendo um certo problema, pois tive que compensar o que tinha perdido de disciplinas”, lembra. 

De acordo com ele, foi necessário pagar cursinhos preparatórios e aulas extras para aprender conteúdos  como química e ciências biológicas. “Eu era de exatas, então não estudei isso.  Foi um ano para compensar essa falta, mas um ano que necessitei estudar com muito afinco para poder dar conta de tudo aquilo que nunca tinha aprendido antes”.  O médico ressalta ter reticências sobre as mudanças no ensino médio. “Que tipo de pessoas que resultarão desse tipo de aprendizado? Tenho receio. É como na medicina: ninguém entra pensando já na especialização. A gente pensa e é estimulado a aprender tudo para depois escolher. Você é muito jovem, vai mudando com o tempo. E se se limitar,  acaba perdendo a oportunidade de aprender muitas coisas que vão embasar sua escolha lá na frente”. 

Mudança radical

A chef Martina Caminha também passou pela experiência de mudar de profissão: trocou o direito pela gastronomia. Com uma formação de ensino médio regular, ela concorda com a  proposta do novo ensino médio. “Tanto na área jurídica quanto hoje como chef, tem disciplinas das quais nunca utilizei nenhum conteúdo. Não vejo problema nenhum em setorizar, você já tem uma ideia da sua vocação nessa etapa da vida. Muitos países já têm esse modelo de educação e dá certo”, diz. Para ela, há alternativas de conhecimento capazes de compensar na hora da troca. “O que a pessoa não pode é ter medo. Passamos da era em que a pessoa passa a vida na mesma profissão. Temos muita informação, cursos e ajuda profissional, não vejo nisso um problema. Não tive dificuldades”, comenta.

A opinião da designer Lauren Mellisa é diferente. Ela desejava ser dentista, mas por opção dos pais e pela qualidade do ensino, ingressou na escola profissionalizante na área de tecnologia. Se identificou com a formação e ingressou numa faculdade de engenharia, mas acabou desistindo para tentar realizar o sonho da odontologia e nunca conseguiu passar no vestibular. “Talvez, se eu tivesse feito ensino médio regular e cursado disciplinas da área de biológicas desde o primeiro ano, teria mais facilidade. Não deu certo, precisei trabalhar, então fui fazer o que sabia (exatas) e encontrei algo que gostava, mas penso que poderia ser uma dentista hoje”, diz. 

 A reforma

O novo ensino médio vai aumentar a carga horária de 800 para 1.400 horas anuais. Além disso, vai dividir o conteúdo programático, com 60% da grade para disciplinas comuns a todos, entre elas matemática, português e inglês e os 40% em cinco áreas de interesse, onde o aluno pode optar por uma para se aprofundar. São elas: linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e sociais e formação técnica profissional. 
De acordo com a medida, o currículo será definido pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e cada sistema de ensino vai escolher o seu próprio currículo. Com isso, o aluno vai precisar encontrar uma escola que tenha determinada ênfase na formação que ele deseja. A MP precisa ser votada em 120 dias para manter o efeito e chegar à sala de aula já em 2018.

Opinão

Jacob Paiva - Pedagogo e professor da Ufam

“Não basta ter propostas maravilhosas se não tiver professor para atender a necessidade desse currículo diversificado. Não há professor, laboratórios e bibliotecas no sistema de hoje. O governo federal não dá garantias de que tem capacidade para suprir essas necessidades no ensino público. O que vai acontecer é uma dualidade do sistema de ensino, pois as escolas particulares terão como cumprir esse currículo e as públicas não. Isso vai limitar ainda mais o aluno pobre ao conhecimento, especialmente ao notório saber que vai dar ele acesso ao ensino superior”.

Rosemi Araújo - Pedagoga e professora da Faculdade Martha Falcão

“Essa reforma é uma releitura da lei 5.692/71 que falava da educação profissionalizante. Não vejo tanta diferença. Eu fui uma aluna dessa época, cursei magistério e, em seguida, passei no concurso público - naquela época não precisava ter curso superior. A mudança vai abrir um leque profissional aos alunos que têm a chance de já sairem mais encaminhados para o mercado de trabalho. De fato, os jovens ainda saem do ensino médio muito vulneráveis, sem ter muita certeza da carreira que querem seguir no ensino superior. Dessa forma, eles já saem com alguma habilitação e podem mudar de área depois”.

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