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Cotidiano
DESCASO

Dor e descaso: conheça histórias de homens que foram mutilados em máquinas no AM

Mais de uma década depois de ocorridos os acidentes nas madeireiras de Itacoatiara, o drama das mutilações permanece bem vivo na memória de quem ‘virou estatística’ 01/05/2016 às 13:52
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Oscar reconheceu o exato local onde atuava na Gethal, operando a ‘desfolhadeira nº 6’ com o corte de compensado (Foto: Márcio Silva)
Náferson Cruz Manaus (AM)

O relógio marcava 17h30 do dia 18 de abril de 2016 quando Oscar Soares Figueiredo, ex-operário, adentrou, depois de 10 anos, nas dependências da desativada Indústria Madeireira Gethal, no bairro Jauari 2, na cidade de Itacoatiara.

Num primeiro momento, Oscar ficou estarrecido ao se deparar com um cenário desolador, completamente tomado pelo mato e o silêncio. Parecia não acreditar no que estava vendo e, por alguns minutos, não mencionou uma única palavra. O sussurro das máquinas ainda parecia perpetuar na mente do antigo operário. “Isso aqui era incrível, era tão grandioso que pensei que nunca ia se acabar. Tinha muita vontade de trabalhar aqui. A fábrica podia ter seus defeitos, mas honrava com os salários”, comentou Oscar.

Ele lembra que chegou à Gethal, no dia 29 de junho de 1994, quando a empresa despontava no mercado. “Os cinco pátios, medindo aproximadamente 120 metros de comprimento e 50 de largura, cada um, eram tomados por máquinas vindas de países europeus. Aqui tinha uma média de 2,7 mil funcionários, divididos em três turnos”, relata.

Quem adentrava na Gethal logo de cara se deparava com os dizeres: “Você é um dos bens mais valiosos de nossa empresa, trabalhe com qualidade e segurança”. Apesar da placa - que ainda está lá - demonstrar preocupação com a classe trabalhadora, a Gethal deixou um rastro de operários mutilados, que hoje denunciam a falta de apoio.

Ex-operário e hoje presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Madeireira de Itacoatiara, Oscar conta que testemunhou vários acidentes ao longo dos 11 anos em que atuou no local. “Certa vez, a auxiliar de serviços gerais, a ‘Dona Marlene’, passou o pano sobre uma máquina e, automaticamente, o senso acionou a guilhotina, cortando seus dedos. O mesmo ocorreu, anos depois, com o filho dela, que operava uma máquina. Ele teve a luva tragada e, consequentemente, a mão cortada, em um momento de desatenção”, lembrou.

Embora tenha presenciado inúmeros acidentes, o momento de maior aflição de Oscar aconteceu ali próximo, bem ao lado da Gethal, na Carolina Madeireira. “Tinha vindo de Manicoré, onde operava no corte de troncos de madeira que tinham como destino as indústrias de Itacoatiara. Estava com 37 anos, operava uma guilhotina de cortar compensado e, durante a função, perdi dois dedos da mão esquerda por um descuido”, disse, emocionado. Oscar se aposentou da atividade fabril no dia 6 de janeiro de 2006.

Drama vivo na memória

Militão Martins, de 72 anos, é outra vítima das mutilações: perdeu os dedos em 1995. “Lembro-me como se fosse hoje. Era 10 horas de um sábado quando o operador ligou o eixo e minha mão ficou presa entre a luneta e a garra da máquina, quebrando parte do dedo da mão esquerda. Dias depois, tive que amputá-lo”. Bem antes de perder os dedos, “seu Militão”, como é conhecido, sofreu uma fratura exposta em um dos braços ao ser atingido por uma peça “cuspida” de uma máquina. “Estava há seis meses trabalhando com uma serra de madeira fina, de porte médio, quando fui atingido por uma peça em alta velocidade”, detalhou.

Seu Militão foi um dos idealizadores do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Madeireiras de Itacoatiara. Ele lembrou que, quanto atuava como operário, também testemunhou inúmeros acidentes, muitos com vítimas fatais. “Vi de tudo, cenas de tirar o fôlego, às vezes ficava semanas sem dormir, pensando no acidente”.

Após 10 anos, Oscar Figueiredo, ainda conseguiu identificar a máquina onde atuava na Gethal, a “desfolhadeira nº 6”, que fazia o processo de laminar as madeiras das espécies: marupá, amapá, tauari, cobaíba, cajuí, jacaré e breu, conforme descrito em uma placa fixada ao lado do maquinário.

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