Sexta-feira, 03 de Dezembro de 2021
Aniversário de Manaus

Dos Fóruns ao home-office: a ressignificação da rotina de trabalho na vida de uma advogada em Manaus

Ana Carolina precisou transformar seu local de descanso em um ambiente de trabalho. Isolamento também teria servido para otimizar trâmites burocráticos referentes à Justiça



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24/10/2021 às 08:04

A vida nos tribunais de justiça, com audiências e todos os trâmites burocráticos, mudou completamente nos últimos dois anos – desde o início da Pandemia do novo Coronavírus. Isso é o que relata Ana Carolina Messias, uma advogada de 30 anos que precisou deixar de lado sua rotina no escritório e nos fóruns de Manaus para se lançar na rotina do home-office. 

Acompanhada dos pais, Ana Carolina – que também é DJ e produtora cultural – recebeu a equipe de A Crítica em uma agência de publicidade para a qual presta assistência jurídica. Advogando há sete anos, ela atua principalmente na área trabalhista e cível, e relata ter passado por uma série de dificuldades ao se ver obrigada a exercer seu trabalho, até então muito baseado no táctil e presencial, dentro dos limites de sua residência.



“Mudou muito, bastante. Eu trabalho em um escritório que já existe aqui em Manaus há 40 anos, e meu chefe é um advogado das antigas, tendo apego a aquela coisa da rotina do escritório, as mesas, as pastas, os processos, essa coisa física. Então, apesar de eu ter essa afinidade com o mundo digital, com internet e computador, acabei aprendendo a valorizar essa parada do táctil, de pegar um processo para ler e folhear, o que a gente tinha muito no escritório. Então com a pandemia foi uma coisa que senti muito, primeiro porque não podia sair de casa para trabalhar, essa rotina de acordar, tomar um banho, me arrumar e organizar meu dia acabou se resumindo apenas a minha casa. Aí também não tinha acesso às pastas, aos processos, parecia que eu não estava trabalhando. Parecia que eu estava apenas mexendo no meu computador em casa e com isso comecei a me sentir improdutiva”, relata.

Com o estabelecimento do regime de quarentena e o trabalho home-office como uma única possibilidade viável no auge da Pandemia, a advogada afirma que precisou transformar sua casa, até então um local ‘sagrado’ e para seu descanso, em um espaço mais próximo possível de um ambiente de um escritório de advocacia. 

“O meu quarto não era um local que tinha um espaço para eu trabalhar, porque nunca fui de fazer isso em casa. Para mim, minha casa era um santuário, mas aí precisei adaptá-la para o home-office, tive que comprar uma escrivaninha, cadeira, ajustar uma iluminação, organizar meus livros, pegar os que estavam no escritório e trazer para casa. Enfim, era criar um ambiente de trabalho dentro do meu quarto”, afirma.

Para ela, que nunca se considerou uma pessoa indisciplinada, a rotina do home-office não foi algo tão simples de se assimilar, isso porque a ‘liberdade’ dada por esse modelo de trabalho acabou mais prejudicando do que ajudando. “Home-office requer muita disciplina, de estabelecer uma rotina de começar a trabalhar em um horário, parar para almoçar, e encerrar em horário tal. É um processo de adaptação, e eu mesmo não me considerando uma pessoa indisciplinada, tive muita dificuldade de estabelecer essa rotina de trabalho dentro do ambiente da minha casa”.

Neste sentido, o retorno das atividades presenciais no escritório em que trabalha, no último trimestre de 2020, foi visto com alívio por ela, que também afirma ter visto neste período pandêmico uma oportunidade de ressignificar o valor da sua força de trabalho. No entanto, mesmo com os males causados pela Covid-19, a advogada afirma que este período também serviu para mostrar como algumas atividades relacionadas à rotina da advocacia poderiam ser otimizadas e melhor executadas.

“Retomamos as atividades no último trimestre do ano passado, voltando para o escritório. Meu chefe meio que deixou isso livre, mas seguindo vários protocolos, como não atender cliente no escritório, que era só para os funcionários. Se fosse para atender alguém de maneira presencial era só se fosse algo de maneira muito urgente, e aí era uma força tarefa para higienizar a sala e organizar tudo. Então assim, foi uma readaptação que nos fez valorizar muito mais esses processos do tipo ‘será se essa pessoa precisa realmente ser atendida no escritório? Será se não conseguimos otimizar esse tempo e resolver as coisas por e-mail?’. Isso foi um ponto bom, porque otimizamos essa questão do cliente, que sempre gostou de ir ao escritório e receber a consultoria e a gente passou a fazer tudo por videoconferência e e-mail. Então a gente acabou ganhando um certo tempo livre para produzir outras coisas, mas para mim foi ótimo poder voltar para o presencial, sendo uma sensação de alívio do tipo ‘estamos caminhando para uma normalidade”, relata Ana Carolina. 

Segundo a advogada, mesmo com o retorno de algumas atividades presenciais nos fóruns de Manaus, a maioria das audiências ainda é feita virtualmente. Para se ter uma ideia, a Justiça do Trabalho, área que ela atua, vem realizando audiência via aplicativo de vídeo chamada. “Eles enviam um link, ID e senha para todas as partes e a gente disponibiliza isso para nossos clientes para que tenham acesso. Minha testemunha, por exemplo, para não ter contato comigo, tem que estar em uma sala separada de mim, para preservar o que a Justiça chama de ‘incomunicabilidade da testemunha’ e o depoimento seja o mais fidedigno possível. E isso demanda uma logística danada, violenta, principalmente porque temos que lidar com uma série de pessoas que não estão acostumadas com esses aplicativos”, relata. 

 

Retorno à vida fora de casa

 

A advogada Ana Carolina Messias afirma ter perdido, por conta da Covid-19, familiares, amigos e parentes de amigos. Ela, que ficou isolada em casa com a família por mais de seis meses, afirma ter aproveitado a baixa no número de casos da doença e a flexibilização das medidas restritivas em Manaus para poder visitar seus locais favoritos na capital. Para ela, isso foi necessário para também lhe ajudar na sua saúde mental, que como a de todos, ficou afetada pela pandemia e a necessidade de ficar tanto tempo isolada dentro de casa.

“De abril à setembro [de 2020] a gente estava basicamente indo em farmácia e supermercado, indo vez ou outra na casa do meu namorado, ou ele vindo me visitar. Quando a gente voltou a poder ir nos lugares, o primeiro lugar que eu quis ir foi um restaurante, para sentar e comer porque já estava de saco cheio de pedir delivery. Confesso que nesse período eu me refugiei na cozinha, cozinhei bastante, mas a gente sente falta de comer a comida dos outros, de sair, comer uma comida diferente, beber uma bebida diferente. Mesmo tendo essa possibilidade de fazer isso em casa ou simplesmente pedir, o ato de poder sair, se arrumar, chegar em um lugar e sentar para conversar foi algo que eu senti muita falta. Rola sim um receio da exposição social, do contato, de sair de casa. Mas, falando de forma bastante subjetiva, o que é realmente necessário para a gente sobreviver?”, indaga, por fim, a advogada.


 


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