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Cotidiano
Invasores

Sociólogo considera ‘esdrúxulos’ invasores da Câmara que pediram intervenção militar

Para o doutor em sociologia Renan Freitas Pinto, professor da Ufam, a reivindicação do grupo pedindo golpe de militares é algo anacrônico e absurdo 20/11/2016 às 16:12 - Atualizado em 20/11/2016 às 16:36
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Sociólogo Renan Freitas Pinto acha “dificílimo” que os militares encampem um golpe (Foto: Márcio Silva)
Lucas Jardim Manaus

O sociólogo Renan Freitas Pinto, professor na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), classificou  a invasão da Câmara dos Deputados por um grupo de manifestantes que pediam um golpe militar de um  “absurdo”. O ato, ocorrido na semana passada, culminou na destruição de uma vidraça e na interrupção dos trabalhos da Casa Legislativa, que só conseguiram ser retomados após a prisão dos cerca de 50 envolvidos no protesto.

Para o cientista social, a invasão se mostra um evento tópico. “É uma coisa completamente absurda. Não vejo nesse tipo de movimento a menor chance de repercussão, por mais pretensiosos que sejam seus agentes. Invadir um órgão legislativo não o legitima. Pelo contrário, age em detrimento dele. A crise política que vivemos tampouco o legitima. É um grupo esdrúxulo, politicamente falando”, comentou.

A maior crítica ao discurso de intervenção militar no País, para Renan, vem do contexto histórico em que a sociedade brasileira e mundial se insere hoje em dia, que dá golpes militares como saídas anacrônicas para crises. “Não há mais espaço para isso na América Latina. É algo fora do tempo. É mais fácil acontecer golpes com o que aconteceu, com a participação do Judiciário. No Brasil, especificamente, acho dificílimo que os militares atendam a esse movimento, mesmo porque eles não querem se envolver”, disse, ecoando o pensamento de autoridades como o general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército Brasileiro, que, durante passagem por Manaus no início deste ano, classificou como "lamentável" o clamor por intervenção militar por manifestantes a favor de impeachment de Dilma Rousseff (PT).

O sociólogo lembra que a atual democracia brasileira foi construída com apoio das Forças Armadas, o que tornaria um golpe militar contraditório hoje. “Nós sofremos a ditadura por quase trinta anos e conseguimos retomar a democracia, ainda que uma democracia frágil, com a participação dos militares. Houve uma movimentação interna nas Forças Armadas para se livrar do peso de manter um regime antipático, antidemocrático e antipopular, então não os vejo retomando isso e voltando atrás, até porque uma questão de coerência com o posicionamento que tomaram nos anos 1980, quando desistiram do poder. Se, na época, eles quisessem mantê-lo, nossa redemocratização teria sido bem mais difícil”, apontou Renan.

Considerando esse contexto, o professor da Ufam vê movimentos intervencionistas como grupos que “defendem uma causa superada” e que são corpos estranhos dentro do espectro político. “Clamores desse tipo são típicos da direita, mas hoje ninguém quer ser de direita do Brasil. Todo mundo quer ser ‘centro’ ou ‘liberal’. É interessante ver como esses movimentos, ainda que direitistas, não são da direita que nós enxergávamos e entendíamos poucos anos atrás. Fazem parte de uma onda sem embasamento teórico ou mesmo político”, explicou.

Entre as consequências desses discursos reacionários, segundo o estudioso, estão a eleição do republicano Donald Trump e as reformas administrativas que atualmente tramitam no Legislativo Brasileiro. “Essas tentativas de reforma à força, sem ouvir o povo, mostram o nosso Poder Legislativo assumindo poderes que deveriam emanar da sociedade, às vezes, indo diretamente contra ela, como no caso das propostas que mexem no orçamento da educação e da saúde. Ninguém é contra corte de gasto da máquina pública, mas a maneira como estão fazendo isso é antidemocrática”, concluiu.

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