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Cotidiano
Entrevista da Semana

Doutora em Relações Internacionais explica como os ataques de 11 de transformaram o mundo

A professora de relações internacionais da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap-SP), Marília Carolina Pimenta, faz uma avaliação dos impactos do atentado e como eles refletem em nossa sociedade atual 11/09/2016 às 05:00 - Atualizado em 12/09/2016 às 11:14
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Marília Carolina Pimenta
Geraldo Farias Manaus (AM)

No dia 11 de setembro do ano de 2001 o mundo parou para assistir algo que não era imaginado. A nação, apontada como a maior potência financeira e militar do planeta, os Estados Unidos da América (EUA), sofria dois ataques terroristas simultâneos. Através da retomada de comando de quatro aviões em território americano, um grupo de 19 sequestradores comandaram os ataques direcionados para atingir as duas maiores torres do mundo, o World Trade Center (WTC), as Torres Gêmeas, e também o centro de comando militar americano, o Pentágono.

O maior ataque terrorista da história completa 15 anos neste domingo. A professora de relações internacionais da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Marília Carolina Barbosa de Souza Pimenta, faz uma avaliação dos impactos do atentado e como eles refletem em nossa sociedade atual.

- Após os ataques de 11 de setembro quais foram a principais medidas dos americanos para a América Latina? Houve políticas específicas para a região?

Os Estados Unidos começou a impor a sua visão de combate ao terrorismo e isso refletiu nos países latino-americanos. O foco dos americanos foi no combate ao tráfico de drogas. A nossa região é propícia e conhecida pelo tráfico de entorpecentes, então, eles tiveram esse foco como uma das medidas de combate ao terrorismo, classificando gruposguerrilheiros locais, ligados ao narcotráfico, de terroristas. Isso levou os americanos a fazerem uma separação maniqueísta entre os países, entre os que apoiavam o combate ao terrorismo e os países que apoiavam o terrorismo. Isso levou ao caso de países como o Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina, junto dos EUA, a fazerem um monitoramento do tráfico na América do Sul, por meio do Procedimento conhecido como Comuniqué 3+1. Já a Colômbia, por sua vez, aproveitou esse momento de combate ao terrorismo para se armar contra as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), assim como o Perú incrementou suas ações contra as drogas, por meios de programas e orçamento americanos. Isso também aconteceu na Europa, com alguns países como a Inglaterra e Espanha enviando tropas ao Iraque e ajudando os americanos, enquanto que a França, Alemanha e Bélgica, ofereceram, em alguma medida, críticas e resistências à ação empreendida pelos americanos.

- Então o mundo todo não se voltou contra o terrorismo?

O sistema internacional respondeu aos ataques de maneira heterogênea, cada um ao seu modo, levando em consideração o seu grau de relação com os Estados Unidos. Os países europeus se dividiram. Rússia e a China, por terem divergências políticas com os americanos, também não auxiliaram no combate. Entre os países oceânicos é conhecido o apoio da Austrália aos Estados Unidos. Enquanto isso, os países da América do Sul se posicionaram de modo intermediário, com Brasil, Argentina e Chile se solidarizando, mas sem muito engajamento.

- Que visão o mundo possuía dos Estados Unidos e o que mudou com o ataque?

Naquela época havia uma sensação de todo o mundo de que os EUA eram inabaláveis, inatingíveis devido ao seu forte poderio militar e financeiramente inalcançáveis, sendo considerada a maior potência mundial. Mas, com o ataque de 11 de setembro, começa-se a ter dúvidas quanto à percepção de invencibilidade dos americanos no sistema internacional. Essa construção da visão de grande potencia foi abalada.

- A partir desse abalo na visão dos Estados Unidos como grande potência, sendo fragilizado com o ataque, o que reflete na postura dos americanos?

Os americanos passam a ter um controle mais forte das fronteiras, principalmente nos aeroportos. Os países árabes de origem muçulmana passam a ser associados ao terrorismo. A relação das grandes nações com a pobreza passa a ser estigmatizada, erguem-se os muros das grandes nações, fechando-se para o resto do mundo. Houve uma grande remodelação de segurança. Uma verdadeira caça às bruxas instaurada pelos Estados Unidos. O ataque também leva a países como a China e Rússia começarem a questionar a supremacia americana, colocando em xeque a importância do país e seu modo de atuar.

- Os muros construídos e o fechamento de fronteiras para os muçulmanos refletiram de que forma na sociedade atual.

Tornou-se uma relação mais estigmatizada. Os povos árabes de origem muçulmana passaram a ser associados ao terrorismo e isso levou a casos de puro controle de segurança contra eles. Em 2013, foi empreendida a intervenção no Iraque e é ali que surge o grupo terrorista Estado Islâmico. O Estado Islâmico avança pelas terras não governadas na fronteira entre a Síria e o Iraque. E o avanço do Estado Islâmico, ao lado do incremento da fuga de refugiados para a Europa, levou os europeus a fecharem suas fronteiras para os países árabes e africanos também, como a Grécia e Itália, por exemplo.

- Qual a sua avaliação do que o mundo era antes do atentado de 11 de setembro? 

O mundo antes do atentado vinha de uma euforia em torno da Globalização, e da percepção de evolução dos Direitos Humanos e desenvolvimento dos países. Existia uma preocupação com possíveis ofensivas e ataques de grupos terroristas, mas isso era monitorado pelo governo do ex-presidente americano Bill Clinton, mas essa visão se rompeu com a mudança para o governo do presidente George W. Bush, que passou a ter uma ofensiva maior no Oriente Médio, principalmente no Iraque.

- Com todos os avanços em procedimentos de segurança, fechamento de fronteiras e controles dos países pobres, poderia se afirmar que o mundo ficou mais seguro nesses 15 anos, após os atentados de setembro de 2001?

Nós não temos um mundo mais seguro com o empreendimento dessa guerra global contra o terror. Nós estamos perdendo gradualmente a nossa liberdade e privacidade. A internet possibilita uma vigilância e monitoramento maior. Os nossos e-mails são vigiados. O avanço tecnológico, com a internet acabou ajudando ao Estado Islâmico, servindo como propaganda de seus ideais e objetivos. Acabamos tendo um mundo mais fechado. Além de tudo isso, existe uma perda da busca pela cidadania global, com o ideal do nacionalismo ressurgindo de modo muito forte na Europa e nos Estados Unidos (veja o fenômeno Donald Trump). Se eu fosse escolher entre o mundo que vivemos hoje e o da década de 90, eu escolheria o da década de 90.

- Avaliando a nossa situação, como o Brasil se comporta no combate ao terrorismo?

O Brasil não abraçou essa causa do combate ao terrorismo. Nós não apoiamos a Guerra ao Terror, o que nos levou a ficarmos longe dos alvos de atividades terroristas. Porém, com a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas do Rio de 2016, houve uma preparação do país para combater atos terroristas que tivessem como alvo delegações estrangeiras, como a americana, a inglesa e a francesa, por exemplo. A Polícia Federal e as Forças Armadas passaram por inúmeros treinamentos nos Estados Unidos para lidar com essa possibilidade de ameaças durante os jogos. Essa preparação trouxe à tona a discussão do combate ao terror dentro do Congresso, com a discussão da aprovação da Lei contra o terrorismo.

- Essa guerra ao terror levou os EUA a investir milhões de dólares, porém, esse investimento e a visão de que os americanos poderiam se enfraquecer levou a um incentivo do governo americano a sua economia interna. Esse incentivo culminou numa forte crise, que também levou a crise de 2008 na Europa. Essas crises nos EUA e na Europa também refletem na atual crise brasileira?

Após 2008, nós tivemos um grande delay entre essas crises nos EUA e na Europa. Nós demoramos a sentir o impacto e não dá para aferir uma relação causal de imediato entre os atentados terroristas de 2001, a crise de 2008 e a crise brasileira. Entretanto, a atual crise política e econômica no país, com esse novo governo, pode acelerar um processo de reaproximação do Brasil com os EUA, em troca de investimentos.

- A senhora acredita que o atual governo do presidente Michel Temer (PMDB) pode levar o Brasil a entrar nessa guerra ao terror?

Não seria estranho se a gente tivesse nesse governo um alinhamento com os Estados Unidos, com objetivo da troca de investimentos, aberturas de créditos para sairmos da crise. Em troca disso os Estados Unidos pediriam um envolvimento maior do Brasil no combate ao terrorismo, como eles agem normalmente. Pode sim haver uma mudança do perfil do país, que na época do governo do PT teve um distanciamento dos EUA, tendo suas relações diplomáticas mais próximas a países como Rússia e China, parte do Brics (Grupo de países emergentes: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (South Africa em inglês).

- Essa provável mudança do perfil diplomático do governo brasileiro com uma reaproximação aos americanos não pode nos levar a sermos alvos do terrorismo? Tomando como exemplo o fato de que países que anunciaram forte ofensiva ao terrorismo terem sofrido ataques?  

 Não duvido que a gente mude esse perfil com uma agenda ligada ao combate ao terrorismo, mas não com o envio de tropas e fortalecimento da ofensiva americana. Digo que podemos entrar em uma órbita mais alinhada ao discurso americano contra o terror, porém mais no sentido simbólico do que efetivo. Pode-se, por exemplo, recrudescer os discursos de combate e contra o terror e também aumentar o controle dos refugiados,. Esse posicionamento pode nos levar a receber investimentos dos americanos, mas ainda sim, nos manteria longe da mira do terrorismo.

 Perfil

Nome: Marília Carolina Pimenta

Estudos: Doutora em Relações Internacionais (2016); Pesquisadora visitante em Maxwell School-Syracuse University (2015)

Cargo atual:  Docente na Universidade Anhembi Morumbi e no Centro Universitário FECAP-SP. Sua pesquisa enquadra-se na área de Segurança Internacional.

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