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Cotidiano
PROBLEMAS

Drogas, alcoolismo e evasão escolar marcam vida dos adolescentes no interior do AM

Membros de órgãos ligados aos direitos da criança e do adolescente relatam problemas nas cidades amazonenses. Gravidez precoce, exploração sexual e trabalho infantil também preocupam 24/03/2018 às 08:35
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Conselheira do CMDCA afirma que em Manicoré faltam promotores e juízes. Foto: Reprodução
Paulo André Nunes Manaus (AM)

É triste e grave a situação das crianças e adolescentes do Amazonas. O relato é dos interioranos que participaram, na semana passada, do ciclo de capacitação para o Selo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), organizado em Manaus pela própria entidade.

A reportagem do Portal A Crítica conversou com alguns desses representantes dos municípios e a conclusão que se chega é que o quadro é altamente preocupante. Um dos principais problemas é o tráfico de drogas, com a entrada cada vez maior das facções criminosas entre os jovens amazonenses.

“A realidade das crianças e adolescentes em Guajará não é diferente de todos os outros municípios. Temos os problemas da droga, que é o principal motivo de outros problemas dentro da cidade. E há também as facções criminosas que estão invadindo todas as cidades. Acho que outro fator importante de se citar é a evasão escolar”, comentou Raimunda Farias, secretária de gabinete da Prefeitura de Guajará, município a 1.494 quilômetros de distância de Manaus.

Ela disse que participar pela primeira vez do ciclo de capacitação do Selo Unicef representava crescimento para o seu município, levando novas informações. “Correndo atrás e ganhando o Selo, vamos conseguir novos programas e projetos que vão beneficiar a população”, ressalta Farias.

“Nós temos problemas com evasão escolar, principalmente com a questão das drogas e alcoolismo. E até prostituição há. Então, queremos atuar diretamente nesta área”, garante Agostinho Roberto, presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança do Município de Pauiní, a  915 quilômetros de Manaus, evidenciando, também, a “carência muito grande na questão das políticas públicas municipais voltadas para os direitos das crianças e adolescentes”.

Já para Matheus Vinhales, secretário da Juventude de Amaturá, município agraciado com o Selo Unicef em 2012 e que tenta novamente a honraria, os maiores problemas da cidade são as drogas ilícitas e lícitas. “Estamos tentando, com projetos inclusive com a participação da igreja, psicólogos e assistentes sociais, tentando resgatar os jovens, dando o que eles gostam, mas de uma forma sadia, os lapidando”, afirma o representante.


Representantes de Amaturá, Guajará e Pauiní falaram sobre os desafios em seus municípios. Foto: Jair Araújo

De acordo com Célia Cristina Gomes, presidente do Conselho Municipal da Criança e Adolescência (CMDCA) de Manicoré, “nosso maior problema é a falta de promotores e juízes, e muitos casos que são encaminhados não são resolvidos justamente pela falta desses representantes; também há a questão das drogas e do álcool”.

Gravidez, maus tratos e trabalho infantil

Segundo Kátia Cilene, do CMDCA do Careiro da Várzea (a 25 quilômetros de Manaus), a realidade do seu município também é precária na questão do tráfico e vício em drogas entre crianças e adolescentes. Ela acrescenta que a prostituição é elevada no município.

“É triste constatar que não há muita coisa para esses adolescentes no município, como investimentos em esporte, não há locais nem cinemas para passear. Creio que isso acaba contribuindo para que essas crianças fiquem aleatórias, o que faz com elas se envolvam com drogas, prostituição”, disse.

Segundo Carlos Eduardo, presidente do CMDCA de Santa Izabel do Rio Negro (a 846 quilômetros da capital), o maior problema em sua cidade é o trabalho infantil.

“Muitas crianças acompanham os pais pra trabalhar na roça, onde a fonte de renda em sua maioria, vem da agricultura”, disse ele.  “Através do conselho estamos articulando mecanismos para essas crianças dessa mazela e trazê-las para a escola”, completou.

Conforme Luciano Cabral,  presidente do Conselho Municipal da Criança e Adolescência de Nova Olinda do Norte (a 126 quilômetros de Manaus), as principais problemáticas encontradas são gravidez na adolescência, exploração sexual infantil, trabalho infantil e maus tratos.

“São casos que ocorrem em Nova Olinda e em outros municípios de pequeno porte do interior. Essa é uma realidade que percebemos conversando com presidentes de conselhos de outras cidades”, disse ele. “Tentamos algumas estratégias como unir mais a rede de proteção e garantias de direitos dentro do município, fazer parcerias com instituições que cuidem e tenham ferramentas para esse público, como por exemplo, o Selo Unicef”, afirmou.

Indicadores de participantes melhoram

Na última edição do Selo Unicef, promovida de 2012 a 2016, os avanços conquistados pelos municípios a partir de políticas públicas desenvolvidas dentro da metodologia do Selo Unicef foram expressivos. Entre eles, destacam-se no Amazonas, o acesso ao pré-natal entre os municípios inscritos aumentou em 23,4% enquanto no restante do País o aumento foi de 5.4%. Entre 2011 e 2014, a proporção de nascidos vivos de gestantes com sete ou mais consultas de pré-natal passou de 33,4% a 41,2% entre os municípios inscritos.

Os indicadores educacionais importantes tiveram avanços importantes durante o período. A distorção idade-série entre os municípios inscritos  caiu em 8.6% no restante do país a queda foi de 7.9%.  Entre 2012 a 2015, a distorção passou de 61.7% para 56.4% nos municípios inscritos.

A taxa de abandono no ensino fundamental da rede municipal caiu 21.8%. Foram realizadas 1.693 buscas ativas de crianças e adolescentes infrequentes ou que abandonaram a escola  pelos municípios participantes.

Um total de 1.541 professores do ensino fundamental receberam formação continuada incluindo a temática das relações étnico-raciais, história e cultura afro-brasileira, africana e de povos indígenas.
Exatos 1.685 professores do ensino fundamental receberam formação incluindo a temática da educação de crianças e adolescentes com deficiência. E incluindo 50 professores de educação indígena.

Um total de 401 escolas participaram de campanhas de esclarecimento e informação para prevenção da gravidez na adolescência. E 682 profissionais dos municípios participantes que realizam atenção direta a adolescentes foram capacitados sobre os temas abordados na Caderneta do Adolescente.

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