Quinta-feira, 19 de Setembro de 2019
Nova técnica

Drones barateiam monitoramento de erosões em todo o Amazonas

Projeto utiliza veículos aéreos não tripulados para analisar o fenômeno da voçoroca, cujos sedimentos, quando arrastados pelas águas, acabam contribuindo para o assoreamento e transbordamento de igarapés



vo_oroca3.JPG Os resultados do trabalho desenvolvido por professor e estudantes do Ifam devem ser publicados em uma revista americana (Fotos: Winnetou Almeida)
19/12/2016 às 05:00

Utilizados, normalmente, no Brasil, para atividades recreativas e competições, os Veículos Aéreos Não Tripulados (Vants), mais conhecidos como drones, se tornaram um grande aliado no Amazonas, para o desenvolvimento de estudos científicos com ênfase na análise de processos erosivos com impactos ambientais direto aos cursos d’água e área de encosta em Manaus.

Quem está utilizando essa nova tecnologia é o professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (Ifam), José Roselito Carmelo da Silva. Ele usou o equipamento este ano para desenvolver o projeto “Imageamento por Vant para identificação e classificação de voçoroca na área do Cemitério Indígena no bairro Nova Cidade, na Zona Norte”.

A ideia, de acordo com ele, foi identificar, classificar e mensurar as dimensões da voçoroca ativa no local, além de calcular o índice de volume de solo que foi removido ao longo do tempo, para poder descobrir que tipo de soluções mitigadoras podem ser tomadas pelo poder público a fim de reverter ou conter o processo erosivo ativo naquela área. Para isso, foram utilizadas imagens produzidas por um Vant.

Veículo Aéreo Não Tripulado (Vant), mais conhecido como drone

“Geralmente para estudo de processos erosivos nós utilizamos imagens de satélite ou produzidas a partir de avião e helicóptero, mas ambos geram um custo muito elevado, além de ser difícil para obtermos em alguns casos. Nosso objetivo foi mostrar outra forma de fazer análise de um determinado fenômeno de impacto ambiental com um custo extremamente barato e com o Vant conseguimos isso”, disse.

Equipamento é capaz de filmar em 4K com imagem superior a de satélite e em tempo real

Roselito explica que foi utilizado o Phantom 3, que custa hoje em torno de R$ 7 a 8 mil. Conforme ele, esse valor, que para muitos pode ser alto, para quem atua na área de trabalho técnico científico é extremamente barato levando em conta o resultado que se alcança. “Ele é capaz de filmar em 4K, gerando imagem superior a imagem de satélite e em tempo real. Os resultados são muito positivos”, garante.

De acordo com o professor, que é mestre em geociências, os dados adquiridos da voçoroca no Cemitério Indígena mostraram que ela tem extensão em linha reta de 136 metros, a largura no ponto mais largo é de 25,9 metros e a profundidade na cabeceira é de 12,67 metros. Mais de 11,4 mil metros cúbicos de solo foi erodido até o momento, sendo que todo esse volume de sedimento foi parar no fundo do vale e no canal de um igarapé que se encontra em elevado nível de assoreamento.

“A voçoroca foi classificada como bulbiforme e de tamanho médio. Esses dados são extremamente importantes e a prefeitura pode se apropriar deles para tomar medidas corretas para tentar conter o processo erosivo, que está em intensa atividade. Se não for tomada nenhuma providência daqui a pouco podemos perder o controle e será mais difícil para fazer alguma intervenção”, salienta Roselito.

“É importante identificar, classificar e mensurar uma voçoroca para poder saber que medida pode ser tomada para reverter ou pelo menos estancar esse processo erosivo”. José Roselito Carmelo da Silva, professor do Ifam 

Presença de estudantes

Além do professor José Roselito, e do especialista em geoprocessamento Charles de Araújo, o projeto ‘Imageamento por Vant para identificação e classificação de voçoroca na área do Cemitério Indígena no bairro Nova Cidade, na Zona Norte’ contou com a participação de dois alunos pesquisador bolsista, ambos finalistas do curso Técnico em Meio Ambiente do Ifam, Arllean Gomes de Freitas e Erivelton dos Santos Fernandes. A pesquisa foi financiada com recursos do próprio Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas, e os resultados devem ser publicados numa revista americana.

Arllean Freitas, Charles Araújo, Erivelton Fernandes e José Roselito (da esquerda para a direita)

Desdobramento

O projeto deste ano foi uma continuação de uma pesquisa realizada pelo professor José Roselito no ano passado, cujo propósito foi estudar os impactos ambientais ocasionados pelas obras de construções no conjunto João Paulo II, na Zona Leste. Na ocasião, sua equipe trabalhou com o Phantom 2, e um dos objetivos era observar a qualidade das imagens feitas pelo Vant para poder utilizá-lo na análise de processos erosivos. Roselito garantiu que dará desdobramento deste trabalho na sua tese de doutorado ano que vem.

Blog: Charles Silva de Araújo, especialista em geoprocessamento e georreferenciamento

"A intenção é ampliar nossa visão territorial tendo em vista que entender o espaço tanto na dimensão quanto na temporalidade podemos compreender a evolução de alguns danos naturais ocorridos naturalmente ou a partir da intervenção humana. Esperamos que os resultados que conseguimos alcançar com o projeto ‘Imageamento por Vant para identificação e classificação de voçoroca na área do Cemitério Indígena no bairro Nova Cidade, na Zona Norte’ sejam bem-vindos para a sociedade científica e que esse trabalho desenvolvido com Vant possa no futuro se tornar uma metodologia comum, que outros possam fazer novos estudos com esse tipo de tecnologia e melhorar as técnicas aplicadas. O que nós fizemos foi um experimento que trouxe resultados muito positivos, primeiro porque existe a vantagem do custo benefício referente ao equipamento, e segundo, porque existem softwares, alguns gratuitos, que são capazes de tornar tudo isso possível".

Charles Araújo é analista de geoprocessamento da Secretaria Municipal de Educação (Semed)

Desmatamento: principal causador

O mau uso do solo urbano em Manaus tem acelerado os processos erosivos nas áreas de encostas e microbacias da cidade gerando grande carga de sedimentos para o canal de drenagem dos cursos d’água e consequentemente o assoreamento dos seus leitos. De acordo com o professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (Ifam), José Roselito Carmelo da Silva, estudar essas áreas é fundamental para encontrar possíveis soluções mitigadoras para o problema.

“O primeiro processo de desencadeia a erosão é a retirada da floresta”, destaca Roselito. Ele ressalta que os processos erosivos geram grandes perca de solo e o impacto é sinérgico. “O sedimento perdido vai parar em algum lugar, normalmente, dentro de um igarapé assoreando seu leito e fazendo o transbordar no período de chuva, inundando as casas de quem mora na sua margem. E aí se repete aquela história que vínhamos nos igarapés do 40 e Mindu há um tempo atrás”.

O professor aponta que a Zona Norte poderia ser modelo de planejamento, mas o que se ver são invasões e desmatamentos que provocam as erosões e degradam os igarapés. “A vegetação é o guarda chuva do solo, se você tirá-la ele fica desprotegido e o impacto das gotas d’águas é como uma verdadeira micro bomba. Uma das soluções para tentar reverter ou estancar uma voçoroca é fazer o processo de revegetação da área. Uma voçoroca gera perda de capital natural e social”, frisa.

Voçoroca encontrada na área do Cemitério Indígena no bairro Nova Cidade, na Zona Norte, está em plena atividade


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