Quinta-feira, 04 de Junho de 2020
PREPARO

Dseis terão profissionais treinados para ataques de animais peçonhentos

Com descentralização da distribuição dos soros, vítimas dos rincões serão atendidas de forma mais rápida nos sete Distritos Sanitários Especiais Indígenas



1583676_CD2EF77F-5D0F-4A3B-A66A-1A88F32A2FAE.jpg Foto: Arquivo/AC
09/03/2020 às 09:12

Descentralizar a distribuição de soros antiofídicos em comunidades indígenas é o mote de um projeto-piloto que uniu órgãos estaduais e federais e, desde outubro de 2019, vem realizando encontros a fim de aperfeiçoar o programa. O terceiro encontro, previsto para a última semana de maio, terá como objetivo capacitar 14 profissionais da saúde, entre médicos e enfermeiros que atuam nos sete Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei).

Entre o conteúdo a ser ministrado no treinamento estará o manejo adequado do soro, a avaliação adequada de cada paciente picado por animais peçonhentos e a quantidade ideal de soro a ser administrada, bem como o procedimento a ser adotado pela equipe médica para preservar os soros caso uma dessas geladeiras especiais apresente problemas técnicos.



O projeto-piloto interinstitucional é uma parceria entre a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), a Fundação de Medicina Tropical Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) e o Departamento de Atenção Básica (Dabe), da Secretaria de Estado de Saúde (Susam), com a Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), ambos do Ministério da Saúde.

O primeiro encontro entre os gestores foi realizado em outubro de 2019. No segundo encontro, realizado semana passada, os Dseis apresentaram, um por um, dois polos que poderiam receber as ampolas dos soros antiofídicos ainda no segundo semestre desse ano. Destes foi selecionado um Polo Base de cada um dos sete distritos.

“Selecionamos os polos que apresentaram melhor estrutura para receber as ampolas. Ao todo, sete polos serão abastecidos com o soro ainda esse ano [após a capacitação dos médicos e enfermeiros], um de cada Dsei. Em 2021 está previsto o envio aos outros sete polos restantes, totalizando 14”, disse a enfermeira Jacqueline Sachett, doutora em Doenças Tropicais e Infecciosas pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA) na linha de animais peçonhentos.

O impulso para a criação do projeto aconteceu quando a Sesai implantou aproximadamente 50 geladeiras em comunidades indígenas do Estado em fevereiro de 2019. “Os soros devem ser conservados em um frio de dois a oito graus”, explicou o médico-veterinário da FVS-AM Deugles Cardoso. “Quando foi implantada a rede de geladeiras, disparou a demanda solicitando o envio de ampolas para esses lugares mais distantes”, disse.

Acidentes com picadas de cobra são comuns no interior do Amazonas, principalmente entre os indígenas, mais vulneráveis à falta de assistência médica em tempo hábil devido à distância de suas comunidades dos centros urbanos, o que pode ser fatal dependendo da quantidade de veneno injetada pelo animal.

“A parceria entre as instituições [estaduais e federais] foi uma percepção de que havia a necessidade de todos trabalharem a ampliação da prestação desse serviço de saúde a comunidades indígenas que, por ora, ainda estão bastante isolados e com muitas limitações de acesso à saúde. É uma obrigação do Estado ampliar o atendimento a eles”, destacou Cardoso.

Uma morte evidenciou o problema

Em outubro de 2019 , o professor de matemática Antônio Claudino Lopes da Silva, 32, morreu em decorrência de uma picada de cobra no município de Japurá (distante 744 quilômetros de Manaus).

O servidor foi picado por uma surucucu numa área de mata fechada e, segundo a direção do hospital Mayara Redman Abdel Aziz, demorou cerca de cinco horas para chegar à unidade e ser socorrido. Na época, a repercussão do caso acabou, justamente, revelando um problema grave: o estoque baixo de soro antiofídico nos hospitais do interior do Amazonas.

Casos cresceram em 2019

De acordo com levantamento feito pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), o número de acidentes com animais peçonhentos chegou a 3.235 no período de janeiro a dezembro de 2019 no Amazonas. Em comparação com o mesmo período do ano passado, houve aumento de 8%. Foram 2.971 casos notificados no mesmo período de 2018. Os registros incluem casos envolvendo cobras, aranhas, arraias, escorpiões, lagartas e abelhas.

Se levarmos em consideração só as picadas de cobra, o acidente mais comum, de janeiro de 2019 a início de 2020 foram registrados 2.542 acidentes ofídicos (principalmente da espécie surucucu e jararaca) no Amazonas.

“As picadas dessas cobras acontecem geralmente no tornozelo ou na perna porque, por hábito, as pessoas usam mais sandálias e bermudas nessas comunidades indígenas. Assim, elas ficam mais desprotegidas dos ataques. A maiorias dos acidentes acontece com a cobra jararaca”, explicou o médico infectologista Marcus Vinitius  Guerra, diretor-presidente da Fundação de Medicina Tropical Heitor Vieira Dourado  (FMT-HVD).

Segundo o médico-veterinário da FVS-AM Deugles Cardoso, de 2018 a 2019 foi constatado um aumento de um pouco mais de 16% de acidentes com cobras. “O que mais nos preocupa é que estamos em um período com alta ocorrência de chuvas, com elevação gradual dos níveis das águas dos rios. Nós constatamos que a proximidade desses animais peçonhentos junto às populações, especialmente as ribeirinhas e indígenas”, disse.

Diante do aumento de ocorrências, a orientação de Cardoso é que a pessoa picada por cobra procure o serviço de saúde o mais rápido possível para evitar sequelas irreversíveis e, até mesmo, a morte. “Uma das formas de prevenção é o uso de botas de borracha de cano longo, já que é comum que os ataques desses animais ocorram nos pés ou nas pernas”, reforçou.

“Em casos de acidente com animais peçonhentos as pessoas devem apenas lavar o local picado com água e sabão, mais nada. E levar o paciente para o hospital mais próximo. Em hipótese alguma faça torniquete, ou seja, amarrar uma corda ou cinto no local da picada para tentar evitar que o veneno se espalhe. Esse tipo de procedimento é pior porque concentra todo o veneno do animal naquele local causando danos ainda maiores”, complementou o médico infectologista Marcus Vinutius Guerra.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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