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'É preciso cuidar da saúde lá no começo', secretário de Saúde do AM, Pedro Elias de Souza

Para o secretário de Saúde do Amazonas, “a atenção básica é, sobretudo, prevenção e tratamento” das  doenças menos complexas, entretanto, “temos que mudar a consciência das pessoas” 27/09/2015 às 16:56
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Pedro Elias de Souza
Natália Caplan Manaus (AM)

Reformular o sistema de atendimento aos pacientes de 62 municípios e, de cara, enfrentar índices preocupantes de três doenças graves — HIV, tuberculose e câncer do colo de útero. Isso, em plena crise econômica nacional, com a necessidade de enxugar os custos e melhorar a infraestrutura física e humana do serviço. Este é o desafio vivido há quase quatro meses pelo titular da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam), Pedro Elias de Souza.

Em entrevista ao A CRÍTICA, o cirurgião-geral e proctologista falou sobre as prioridades da administração, criticou o comodismo da gestão do SUS e apresentou metas que pretende colocar em prática ainda este ano, entre elas, a realização do primeiro transplante de coração em Manaus.


Hoje, a cada 100 mil habitantes, temos 37.1 infectados com Aids, o segundo maior índice do Brasil. Por quê esse número tão alarmante?

Combater Aids não é só sair distribuindo camisinha por aí, não. Tem que ter ações nas escolas. Na década de 90, quando começou a epidemia, as pessoas tinham em mente que a Aids matava. Como os pacientes estão vivendo mais agora, porque temos medicamentos que não existiam, veio a ideia que tem cura. Mas não tem. Temos que tirar isso da cabeça das pessoas. Mas nunca devemos discriminar.


Também somos campeões nacionais de casos de tuberculose, com 78 a cada 100 mil habitantes. Que fatores colaboram para isso?

Ao contrário do que muita gente pensa, a tuberculose mata também. Qual é o grande problema? O tratamento é longo, dura seis meses. O nosso índice de abandono do tratamento no Amazonas é o fator mais importante. Há um percentual elevado de pacientes moradores de rua e usuários de drogas. Como eu terei a certeza de que este cidadão está tomando a medicação? Quando volta para outra consulta, vê que a doença avançou e começa uma série de complicações.


A média mundial de diagnósticos de colo de câncer de útero é de 12 a 13 mulheres. Como o Amazonas apresenta um recorde de 35,13?

Na questão do câncer do colo de útero, 70% dos casos no Estado têm relação com o HPV. Há baixa adesão à campanha de vacinação. Não chegamos a 55%. Meninas de 9 a 12 anos não têm discernimento e nem podem ter a iniciativa de procurar a vacina. É uma responsabilidade do pai e da mãe.


O que será feito efetivamente para enfrentar esse problema triplo?

A estratégia é junto ao Ministério da Saúde, no Pacto Inter-Federativo e à Secretaria Municipal de Manaus [Semsa]. Tem várias ações previstas. A mais importante é a descentralização do atendimento. Não ver a Fundação de Medicina Tropical como a única instituição de saúde apta para lidar com a Aids. Tínhamos o Centro de Tisiologia Clínica, que tratava de doenças do pulmão, mas virou a Policlínica Cardoso Fontes e conseguimos descentralizar um pouco. A primeira consulta, acompanhamento e acesso gratuito aos tratamentos, podem ser feitos nas Unidades Básicas de Saúde [UBSs]. No caso do câncer de colo de útero, queremos aumentar a adesão à vacinação contra o HPV. Por isso a campanha continua e queremos levar de volta às escolas. Em 2016, vamos fazer a ampliação do diagnóstico para o interior, com a digitalização do exame de Papa Nicolau.


O senhor falou em ‘descentralizar’ o fluxo de atendimento na rede pública, de forma a desafogar os hospitais. Explique.

O cidadão brasileiro tem em mente que não resolve o problema de saúde dele na atenção básica. Um exemplo é o Pronto Socorro 28 de agosto, localizado na Zona Leste, onde existe uma rede de instituições de saúde pública. Não adianta ampliar o hospital. Temos que mudar a consciência das pessoas de que é preciso cuidar da saúde lá no começo. A atenção básica é, sobretudo, prevenção e tratamento daquelas doenças menos complexas, que não deixam de ser importantes. Até 60% dos atendimentos que acontecem nessas unidades de urgência são pacientes que poderiam ser atendidos na atenção básica.


Qual o erro gerou essa ‘desordem’?

Começou-se a espalhar policlínicas e SPAs [Serviço de Pronto Atendimento], sem planejamento. Elas são vistas, pelo Ministério da Saúde, como Unidades de Pronto Atendimento [UPAs]. Aqui, misturamos. Na UPA não se prevê especialistas. Nós criamos isso. É para ter um médico com visão emergencial, que resolva e encaminhe ao ambulatório quando for estritamente necessário. O que acontece aqui? O cidadão chega numa UPA e é atendido por um especialista. Ele não tem uma doença emergencial. O médico, que não está lá para fazer urgência e nem ambulatório de especialidade, passa uma receita e encaminha o cidadão de novo para o ambulatório. Não resolveu.


Como isso pode ser solucionado?

 Já solicitei que se faça um estudo técnico. O Ministério prevê uma UPA para cada 300 mil habitantes. Nós temos dez só do Estado, suficiente para três milhões de habitantes. Não poderíamos utilizar melhor esse profissional que está ali de outra maneira? Nos ambulatórios de especialidades, onde estamos precisando e há filas de espera? Pronto atendimento é para atender urgência. Essas mudanças de conceito não são simples. Eu prefiro ter uma Policlínica funcionando bem, do que 15 funcionando mal. Ela vai ser muito mais útil. Isso tem que ser revisto. Também estamos trabalhando em parceria com órgãos para diminuir acidentes de moto.


Qual é o impacto do número de acidentados no sistema?

Só com acidentes de moto o Brasil gasto quase R$ 7 bilhões por ano. Temos que trabalhar com educação e prevenção. Uma vítima de acidente grave, internada por 30 a 40 dias, tem um custo muito elevado para o Estado. Aí, aquele paciente crônico está precisando de leito e não tem, porque está ocupado por um acidentado. Ele também tem direito, mas se pudermos evitar, melhor. Estamos lançando um curso de prevenção de acidentes de moto, com gestores. Depois, chegar aos usuários.


Por falar em gastos, a economia brasileira passa por dificuldades. Como a Susam está lidando com a crise? Houve cortes?

Não aconteceram cortes ou redução. Foi uma reorganização da divisão de atendimento na urgência, especificamente. Um local que eventualmente tinha um especialista que não estava tendo a capacidade de trabalho bem utilizada foi deslocado. Eventualmente, reduziu-se carga horária de plantão. Nessa cadeia de atendimento, a prioridade absoluta é a urgência e emergência. Somos o Estado que mais investe recurso próprio com Saúde. Nosso orçamento é em torno de R$ 2,5 bilhões. Nesses tempos de crise, a prioridade é fortalecer a atenção primária. Não adianta sair prometendo hospital novo, que isso não vai resolver. Investir no profissional de saúde também é importante.


Então, qual será o grande investimento para o próximo ano na Saúde?

Melhorar o nosso fluxo, investir no profissional e não esquecer o interior. Toda vez que se fala em saúde no Amazonas, só se pensa em Manaus. A hora que conseguirmos que a população do interior tenha seus problemas resolvidos por lá mesmo, vai desafogar Manaus e deixará mais recursos. E não tem nada melhor para o paciente do que ficar perto da família. Isso acaba resolvendo outro problema crônico: a fixação do profissional da saúde no interior. Ninguém fica. O Conselho Regional de Medicina fez um estudo sobre isso. Todo mundo achava que era salário. É falta de estrutura adequada para trabalhar, falta de investimento na capacitação profissional e por aí vai. Salário ficou em quinto lugar. Não adianta colocar um médico no hospital do interior se ele não tem laboratório para pedir um hemograma.


Quais são os projetos da Susam para o interior?

Primeiro, rever o Programa Pronto Especialista, mesmo que em períodos alternados. Depois, ações por meio do Telessaúde. Já temos um programa bem estruturado de tele-cardiologia e, agora, podemos ampliar com novos exames feitos à distância, como avaliação neurológica, oftalmológica e dermatológica. Aí, vem a questão da conectividade. Por isso temos que ir por etapas. Começa com os oito pólos de saúde — Tabatinga, Eirunepé, Tefé, Lábrea, Manacapuru, Humaitá, Itacoatiara e Parintins — para alcançar os municípios no entorno.


O Amazonas começará a realizar transplante de coração. Qual é a previsão para a primeira cirurgia?

A questão é mais burocrática. Agora, só falta a visita do Ministério da Saúde. Se depender de mim, até o fim do ano acontece. A demanda de transplantes se move pela necessidade dos pacientes. Tem 12 na fila, que eu saiba. Isso depende obviamente de doação. Em regra, imagina-se que deva acontecer, em média, uma cirurgia por mês. Depende dos doadores.



PERFIL

Nome: Pedro Elias

Idade: 49

Nome: Pedro Elias de Souza

Estudos: Formado em Medicina pela Ufam.

Experiência:  Coordenador do Programa Telessaúde Brasil Redes  no Amazonas membro da Câmara Técnica de Telemedicina do Conselho Federal de Medicina, do Colégio Brasileiro de Cirurgiões. Ex-diretor da Fundação do Coração.


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