Domingo, 16 de Maio de 2021
entrevista

‘É um saque em favor de interesses de multinacionais’

Um dos fundadores do Cimi e CPT, o indigenista Egydio Schwade comenta em entrevista concedida para A CRÍTICA a atual conjuntura política do país, com destaque para as ações que afetam a vida dos povos indígenas



Sem_t_tulo_CE6E5162-C7C4-4E4E-AD44-452D4017D01D.jpg Foto: Arquivo A CRÍTICA
11/04/2021 às 11:03

Com uma vida dedicada à defesa dos direitos dos povos da floresta, o indigenista  Egydio Schwade foi agraciado com o título de doutor honoris causa pela  Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). Um reconhecimento pelo seu legado histórico. A comenda é a maior distinção concedida  por uma instituição universitária.

Coordenador do Comitê da Verdade no Amazonas em 2012, o ativista denunciou as violações sofridas pelos Waimiri Atroari durante a construção da rodovia federal que liga Manaus a Boa Vista, a BR-319, no período do regime militar. Um dos fundadores da Comissão Pastoral da Terra (CPT), do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e do PT no Amazonas, Egydio, que reside no  Município de Presidente Figueiredo, e este ano completa 85 anos,  é o entrevistado desta semana de A CRÍTICA.



Qual avaliação o senhor faz da queda de toda cúpula das Forças Armadas, na semana passada?

O PT quando estava no poder perdeu uma grande oportunidade de retirar as Forças Armadas do atoleiro que foram colocadas desde a colonização do País. Eles não estão do lado do povo brasileiro, mas do lado da burguesia, de uma causa triste e dolorosa. Nos primórdios da colonização da América do Sul, especificamente do Brasil, as tropas portuguesas e espanholas se uniram para destruir a República dos Guaranis. E isso depois se acentua com a Guerra do Paraguai que foi uma guerra suja contra os índios. Canudos demonstra o papel do Exército na perseguição e morte das forças populares. Sempre as Forças Armadas estiveram ao lado da destruição dos mais fracos.

Hoje mais do que nunca isso está evidente no meu ver. A Comissão Nacional da Verdade no seu escopo não previsto e nem sequer pretendia apurar violações dos povos indígenas. No entanto, o nosso comitê do Amazonas entrou com o primeiro relatório dos Waimiri Atroari e alertou a comissão que os indígenas foram os que mais sofreram com a ditadura militar. A impressão que eu tenho é que eles [militares] estão perdidos no meio de um governo que demonstra que persegue a destruição do povo.

O senhor enxerga a possibilidade de uma aventura autoritária ou a promoção de um auto golpe pelo atual presidente?

Ele [Bolsonaro] tem tudo isso na cabeça. A única preocupação dele vai por aí desde o início. Até acho que ele colocou a ideia na cabeça de levar o Brasil à aventura que viveu a Alemanha no século passado. Isso passa pela cabeça dele. Muito triste que uma pessoa dessa chegue à Presidência da República pichando toda uma história do povo brasileiro. A gente percebe por todos os meios que ele tenta implementar, mas não vai dar certo.

O senhor também sofreu os horrores e as perseguições do regime militar no Brasil, que consequências teria para o país hoje uma ruptura institucional?

Acho uma ruptura meio difícil, apesar de já ter acontecido. Não vejo como isso daria certo. Não tem futuro. Você sempre tem uma expectativa da sociedade de mudança para melhor. Caso os militares chegassem ao poder novamente, seria um fenômeno de atraso na caminhada da história do país. Durante esse regime, o país teve a renda nacional concentrada, um grande retrocesso.

O senhor é um defensor dos povos da floresta. Qual o impacto da liberação do garimpo em terras indígenas?

Na minha opinião, o garimpo causa um problema sério de degradação ao meio ambiente em qualquer paisagem que é praticado. Esse modelo de exploração realizado por mineradoras multinacionais deu início ao saque de minérios. Esse tipo de atividade é desempenhada em Presidente Figueiredo, mas ninguém sabe o que sai do município. É um saque em favor de interesses mundiais, de multinacionais. Então, teria que ser interrompido, para apontarmos para um novo rumo. Isso me área indígena nem se fala.

Infelizmente, temos aqui no Amazonas o deputado estadual  Sinésio Campos que faz uma propaganda disso, que para mim, é  intolerável. Acho que a mineração é impraticável em terra indígena. Uma vez ao participar de uma reunião sobre mineração na Alemanha, um representante de uma agência europeia para mineração me revelou que todo o minério extraído na Amazônia é todo comercializado no mercado negro.

Como o senhor vê o negacionismo do presidente na gestão da pandemia? Qual o principal resultado desse comportamento?

Acho que o posicionamento que ele toma a respeito da pandemia não é digno do povo brasileiro. Falar muito sobre isso só faz propaganda para ele. Para mim, esse tipo de coisa é o fim da picada. O Amazonas tem que se organizar e abrir as suas fronteiras para uma diplomacia. A diplomacia desse governo atual deixa muito a desejar. Através de movimentos populares ao longo dos anos, o Brasil criou boas relações com povos perseguidos pelo mundo todo. Aqui mesmo no Amazonas, quando faltou oxigênio, fomos socorridos pela Venezuela, porque não aceitar? Por que não prosseguir com o estreitamento das relações? Não temos motivos para continuar com uma política externa como a deste governo.

O senhor acabou de receber o título de doutor honoris causa pela Unimontes. Qual o sentimento de receber esse reconhecimento?

O meu sentimento é que não é uma homenagem apenas para mim, mas uma homenagem a todo um mutirão de pessoas não só do Brasil, mas também de outros países que vieram aqui ver a luta desse povo ameaçado pelos nossos governos. Embora toda a minha caminhada, isso não é trabalho meu, mas uma grande luta que participei. Vejo que é uma homenagem a todos que estiveram ao meu lado na luta pelos menos favorecidos, inclusive alguns que morreram de  doenças que contraíram na interação com o homem branco e outros martirizados nos latifúndios. Não só indígenas mortos, mas lideranças indígenas, dezenas dessas lideranças. Dezenas de missionários mortos nessa luta aqui no Amazonas em meio à violência cometida por militares contra os Waimiri Atroaris. Essa homenagem que recebi também inclui vários jornalistas que muitas vezes enfrentam o seu próprio veículo.

Lembro que em 1975 o jornal A CRÍTICA publicou duras denúncias com relação à violação de direitos humanos de indígenas da etnia Waimiri Atroari. Gostaria também que todos esses  jornalistas que atuam dentro de órgãos de imprensa se sintam homenageados.

O senhor foi preso durante a ditadura? Por que?

Não fui nenhuma vez preso. Fui sempre acompanhado. Fui fichado em vários documentos, mas não cheguei a ser preso. Fui chamado a prestar depoimento, mas nunca fui preso. Acho que devo primeiramente esse feito aos povos e toda gente brasileira excluída e em segundo lugar aos jornalistas com as suas matérias que causaram incômodo e evitaram a prisão.

Em 2020, profissionais de imprensa e veículos sofreram 469 ataques da família do presidente. Para o senhor, o ambiente de liberdade de imprensa está ameaçado no país?

É claro que o governo é uma ameaça não propriamente ao valor da liberdade de imprensa, mas aos próprios jornalistas sérios. Acredito que a ameaça afeta mais os jornalistas, porque quem realmente mantém a liberdade de imprensa são esses profissionais. Na minha visão, sempre o maior perigo está para os jornalistas, inclusive o risco de vida.

Nesta quarta-feira, a Justiça liberou obras em um trecho de 50 km da BR 319. Dá para conciliar a reabertura da BR 319 com o desenvolvimento sustentável? 

Essa é uma questão complicada. Os americanos e suas montadoras conceberam um Brasil rodoviário que tem que abrir uma rodovia pela floresta para poder ligar o estado ao resto do país. Não foi uma boa escolha. Para mim, a repavimentação desta rodovia deveria não levar avante a depredação do meio ambiente. A rodovia pode favorecer latifúndios.

Várias organizações da sociedade civil que lidam com a questão ambiental apontam um desmonte dos órgãos de controle como Ibama e ICMBio. Como o senhor vê esse processo?

Esse governo não tem nenhum interesse de apoiar  essa estrutura de combate ao crime ambiental. O governo só tem o interesse de deixar a boiada passar como está acontecendo com os Ianomâmis. Nos últimos tempos ocorreu uma invasão geral dessas terras e isso é por toda a Amazônia. Se a sociedade não se levantar e tomar interesse, o retrocesso pode só piorar. Esse ministro [do Meio Ambiente] não tem interesse nenhum em proteger a floresta. Infelizmente, os nossos políticos do Amazonas estão na mesma linha.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, criticou a prisão recorde de madeira irregular pela Polícia Federal no Pará. Essa é a postura que se espera do titular desse posto?

É uma tristeza ter um ministro desses. Ele é abertamente contra a política de defesa e preservação da Amazônia. Também é claramente favorável ao agronegócio. Temos que colocar as pessoas certas no lugar certo.

Inclusive ele anunciou que iria pedir um fundo de R$ 1 bilhão aos Estados Unidos para combater o desmatamento. Ele não possui nenhuma condição de liderar um esforço desta natureza. É uma tentativa desse governo da mentira de enganar.

Como um dos fundadores do PT no Amazonas, como o senhor vê o retorno do ex-presidente Lula ao cenário eleitoral? O partido precisa fazer uma mea culpa pelos escândalos de corrupção?

Acho que o problema dos governos do PT vai além da corrupção. O governo Lula foi muito melhor que esse atual governo. Só para citar algumas coisas desse período: o Ministério da Agricultura sempre foi ocupado por nomes que sabem que agricultura não é a mesma coisa que negócio. Nesse governo, colocaram o Ministério da  Agricultura nas mãos de agronegociantes. Alienaram o  Ministério da Agricultura. Talvez a aliança do Lula com a direita foi um dos problemas do governo dele.  A questão da corrupção é outro assunto, mas não foi esse o mais grave erro. A corrupção não veio do próprio partido, mas através das alianças. Não se pode entregar o povo às elites, as elites tradicionais não têm a visão de humanidade. Eles querem preservar os privilégios e isso não dá certo. Mudanças estruturais teriam evitado isso.

Que impacto a condução da pandemia pelo governo tem na vida dos indígenas da Amazônia, especialmente do Amazonas?

É uma condução totalmente desastrosa, principalmente, no que tange aos indígenas Yanomami que estão tendo as terras invadidas por grileiros que veem no discurso antiambiental do presidente uma segurança para cometer esses atos. A situação é mais calamitosa ainda porque o governo não faz questão de escolher que a assistência aos povos indígenas durante a pandemia não é prioridade. Vejam que o presidente vetou o fornecimento de água potável por ocasião da pandemia aos indígenas. É muito movimento que revela muito sobre os planos deste governo para os índios.


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