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'É uma realidade que só cresce, mas que luto para evitar', diz diretora da Penitenciária Feminina

Com 45 anos dedicados à população carcerária feminina na capital, Suely Borges Oliveira, 67, fala sobre a difícil reinserção social 28/12/2015 às 11:44
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Após 22 anos como assistente social, assumiu a direção da Penitenciária Feminina de Manaus e, no ano passado, chegou à direção da Unidade Prisional Semiaberto Feminino, que continua sendo um desafio
acritica.com Manaus (AM)

Nas mãos, o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), apresentado à antiga Universidade do Amazonas, é um dos orgulhos da assistente social Suely Borges Oliveira, de 67 anos. Desses, 45 foram dedicados ao sistema prisional.

Quando começou o trabalho que faz com a população carcerária, Suely Borges era uma das primeiras assistentes sociais a integrarem o time do Estado. Ainda como estagiária, atuou como professora na Cadeia Pública Desembargador Raimundo Vidal Pessoa, na época, a Penitenciária Central do Amazonas.

Após 22 anos como assistente social, assumiu a direção da Penitenciária Feminina de Manaus e, no ano passado, chegou à direção da Unidade Prisional Semiaberto Feminino, que continua sendo um desafio. Tantos anos de dedicação não renderam apenas a experiência profissional, mas um aprendizado de vida que ela se orgulha em contar nesta entrevista a ACRÍTICA.

Qual o maior desafio no sistema prisional?

Dentro de uma unidade precisamos trabalhar os valores morais, educacionais e até religiosos. O ser humano só sai daqui consciente de que precisa mudar de vida se ele despertar a atenção para isso. Minha missão aqui é diária. Tenho que cuidar disso todos os dias. Eu sou muito tranquila quanto ao meu trabalho porque sei que sempre fiz tudo o que pude. Quando me tornei diretora passei a ser uma assistente social com mais poder para colocar os projetos que desejava para funcionar. Sei que permiti que muitas mulheres cumpram sua pena com dignidade. Tenho uma missão que está longe de acabar, que é reconstruir valores que dignificam a mulher.

Qual o marco nesses 45 anos de profissão?

Não sei se todos vão concordar, mas acredito que uma das melhores coisas que aconteceram para o sistema prisional foi a Lei de Execução Penal (LEP) (Lei 7.210, de 11 de julho de 1984). A LEP passou a existir 14 anos após a minha chegada ao sistema. Antes disso, não tinha nada que garantisse os direitos das pessoas presas. Para mim, a lei passou a obrigar o Estado a ser mais humano. Mesmo naquela época, onde tudo era mais difícil, eu e todos que trabalhavam comigo, já pensávamos na necessidade de se tratar as pessoas com mais respeito, dignidade. A LEP responsabiliza o Estado e obriga a manter os investimentos.

Como recuperar presos que vieram do ‘mundo do crime’?

Eu acredito que o ser humano precisa se sentir útil, por isso sempre pensei que é preciso investir no aprendizado. O aprendizado é a principal arma para a recuperação de alguém que, quando chega na cadeia, se sente inútil. Desde o início, em 1970, busco desenvolver projetos dentro das unidades prisionais que busquem isso. Sempre busco dar ocupação, estudo, trabalho para que eles passem a refletir. Não é com todos que vai funcionar, mas com um que funcione já nos ajuda.

Qual a importância do serviço social para o sistema prisional?

Os assistentes sociais são fundamentais na equipe técnica de cada unidade prisional. Com esses profissionais, nós temos os dados reais dos internos e das famílias, que são fundamentais para traçarmos nossas estratégias. Esse contato com a família é o assistente social que tem, por isso a importância do profissional. Meu apoio é o serviço social, é o meu termômetro. Qualquer decisão com uma detenta passa por esse setor.

Que avaliação a senhora faz da evolução da população carcerária feminina do AM?

Hoje, na UPSF, eu trabalho com 40 internas. Mas quando assumi a Penitenciária Feminina de Manaus, em todos os regimes, tínhamos 40 mulheres. Hoje, somente no semiaberto, eu tenho 40. Em 2001 houve a inauguração da unidade na estrada e o número de internas começou a crescer gradativamente. Hoje temos mais de 300 mulheres cumprindo pena no sistema penitenciário. Naquela época, a maioria das mulheres recolhidas era por envolvimento com algum homem que estava no mundo do crime. Hoje, infelizmente, nesse sentido, elas deixaram de ser submissas. Elas possuem poder em áreas de tráfico e cometem crimes por conta própria. Ainda vamos encontrar mulheres que estão presas por conta dos filhos, por conta dos maridos, companheiros. Mas elas já estão se impondo no mundo do crime. É uma realidade que só cresce. É uma realidade que eu não gostaria de ver, mas que, enquanto diretora de uma casa de recuperação, vou trabalhar para evitar.

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