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Cotidiano
SEMANA DA MULHER

Ela conseguiu denunciar o ex que a agredia e queria matar sua filha

Mulher de 42 anos denunciou ex-companheiro que queria matar sua filha e conseguiu superar os momentos ruins para recolocar a vida nos trilhos 12/03/2017 às 05:00 - Atualizado em 12/03/2017 às 18:47
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J. C. S. entrou os problemas e denunciou o ex-companheiro / Foto: Aguilar Abecassis
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Nunca foi fácil para a diarista *J. C. S., 42, esquecer da violência física e psicológica que sofreu há quase 7 anos do ex-companheiro por um motivo hediondo: o mesmo não queria que ela desse à luz sua filha, uma menina hoje com 6 anos de idade. No entanto, ela passou por cima dos receios naturais de boa parte das mulheres vitimizadas dentro de casa. Ela denunciou o agressor, desfazendo, ali, um relacionamento de cinco meses e dando exemplo para milhares de outras mulheres - mesmo que muitas sequer tenham a possibilidade de escapar de relacionamentos abusivos como esse. Hoje, longe do antigo parceiro, ela tenta reconstruir a vida, ainda ressabiada, mas disposta a superar seus medos.

“Fiz a denúncia em 2010 quando eu estava grávida de quatro meses. Na época eu morava com ele no Manôa, e fui denunciá-lo no 6º DIP, mas me encaminharam para o 18º DIP e depois para a Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher (DECCM). Fiquei quatro dias instalada em um abrigo no Cream (Centro Estadual de Referência de Apoio a Mulher) até ele ser chamado e ouvido, entrar com medidas protetivas”, disse ela.

Em seguida veio a consequente separação do casal e a total renúncia do pai da criança em querer registrar a filha. E até hoje não dá assistência alguma, garante a mãe. “Ficamos só eu e ela realmente”, frisa a diarista.

“Eu queria um futuro melhor do que eu para ela, mas acabei sofrendo ameaças: ele me agrediu com palavras, disse que se dependesse dele ela não nasceria, e se nascesse ela não viveria. E me menosprezava, me desprezava quando eu chegava em casa por causa da gravidez, e me humilhava. Fiquei com medo da minha filha não nascer porquê ele não queria a própria filha”, relembra ela.

Além da ameaça de tirar a vida da própria filha, empurrões e muitos palavrões direcionados a ela eram comuns nessa época, conta J. C. S. “Primeiro ele tentou me convencer a fazer um aborto. Eu já tinha 35, quase 36 anos, me falou que eu correria risco de morte, que a criança poderia nascer com problemas, ou seja, toda um preconceito comigo. Antes da gravidez era tudo bom. Namoramos nove meses, decidimos morar juntos no Manôa e eu logo engravidei. Depois que soubemos da criança começaram essas atitudes dele.

Essa pressão sobre a diarista aconteceu na mesma época que ela perdeu a sua mãe, um momento delicado onde ela precisa de apoio, e o que recebeu foram agressões.  “No momento que eu mais precisei ele agiu dessa maneira. Não é só a pessoa agredida que sofre: é toda a família. Não sabemos qual vai ser a reação dos nossos familiares porquê, às vezes, esse tipo de violência vai gerando outra violência. Há um conflito grande. Por isso as mulheres devem resolver logo isso e procurar logo uma solução”, destaca .

Foi difícil recuperar a vida normal do dia a dia sozinha e com uma criança a tira-colo, mas J. C. S. está vencendo. Demoraram três anos para ela voltar a se relacionar afetivamente com um homem. Hoje, ela reside na Colônia Antônio Aleixo, e ainda guarda traumas desse relacionamento infrutífero, mas está namorando e procurando reconstruir a sua vida ainda com resquícios de um homem que a maltratou. Mas, do qual, ela conseguiu cortar o mal pela raiz.

Números

No ano passado, os registros de mortes relacionadas à Lei Maria da Penha, em Manaus, totalizaram 10 casos, segundo dados fornecidos pela Secretaria de Segurança Pública do Estado do Amazonas (SSP). Em 2016, nos meses de janeiro a março, ocorreu 1 morte, bem diferente deste ano, quando, até o último dia 10, foram contabilizadas 3 mortes, evidenciando um crescimento no número de casos.

Em todo o ano 2016 houve 3 casos de feminicídios (assassinato de uma mulher pela condição de ser mulher. Suas motivações mais usuais são o ódio, o desprezo ou o sentimento de perda do controle e da propriedade sobre as mulheres, comuns em sociedades marcadas pela associação de papéis discriminatórios ao feminino, como é o caso brasileiro). Comparativamente, 2017 apresenta crescimento em feminicídios nos três primeiro meses: até março de 2016 não haviam registros desses tipos de crimes pela estatística da SSP; já até o dia 10 deste mês, haviam ocorrido três casos.

Rede de atenção

Atualmente, a Rede de Atenção à Mulher envolve órgãos como a Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher, Ronda Maria da Penha, Apoio Emergencial à Mulher (Sapem), Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (Cedim), Centro Estadual de Referência de Apoio a Mulher (Cream), Juizados Especializados no Combate à Violência Doméstica e Familiar, Núcleo de Atendimento Especializado, Serviço de Atendimento à Vítima de Violência Sexual, Maternidades e Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas). Entre os números úteos, estão o da Central de Atendimento à Mulher (180) e o Disk Denúncia (181).

*Nome fictício para preservar a identidade da entrevistada

Avanços são muitos e é importante trazer à tona as discussões, diz delegada titular

A delegada Andrea Nascimento, titular da Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher (DECCM), frisou que são muitos os avanços em prol da classe feminina, e que é muito importante trazer à tona, sempre, as discussões acerca da temática e quanto ao que vem funcionando efetivamente.

“Nós avaliamos pelo lado positivo. Notamos que os índices aumentam a cada ano, como nos registros de boletins de ocorrência, mas isso é positivo pois mostra que elas estão denunciando os crimes com mais facilidade que antigamente, do que há 3, 4 anos. As mulheres demoravam tempo para tomar coragem para denunciar, e hoje denunciam na primeira ou segunda ameaça”, destaca a titular.

“Temos uma rede de enfrentamento muito fortalecida no combate à violência doméstica. O Amazonas cumpre a Lei Maria da Penha com juizados, delegacias especializadas, serviços de assistência social, , acompamhamento da vítima no Cream (Centro Estadual de Referência de Apoio a Mulher) e, além do procedimento criminal, temos acompanhamento psicológico para romper com esse ciclo de violência”, disse a delegada, que cita mecanismos como o “botão do pânico” como um mecanismo a mais de proteção para o público feminino.

“É preciso sempre enfatizar que a denúncia é o melhor caminho por mais que as pessoas não acreditem. Os dados são positivos. Ano passado, foram registrados mais de 8.700 boletins de ocorrência e nenhum óbito na Delegacia das Mulheres”, atesta a titular da DECCM.

BOXE 2

Viga mestra da família é a mulher, diz juíza de Direito

A juíza de Direito Elza Vitória de Mello, juíza auxiliar da Presidência do Tribunal de Justiça do Amazonas e coordenadora da campanha Justiça pela Paz em Casa, no Amazonas, comentou que a Semana da Mulher - que aconteceu nos últimos dias com ações e eventos em todo o País - faz parte de uma política de consciência da não violência contra a viga mestra da família que é a mulher, mãe e companheira, trabalhadora.

“A violência doméstica, que é o tema principal da campanha promovida pelo Poder Judiciário em todo o País – a ‘Justiça pela Paz em Casa’ -, ocorre em todas as classes sociais, sem distinção. Obviamente, que as divulgações feitas na mídia, buscando uma maior discussão quanto a essa mazela que atinge profundamente a nossa sociedade, sempre reforçam a conscientização e as ações de combate à violência contra a mulher. Mas as estatísticas nacionais ainda mostram que precisamos avançar mais em relação a esse problema. O Mapa da Violência de 2015 mostrou em seus indicadores que o Brasil registra 4,8 assassinatos a cada 100 mulheres, uma média de 5 mil mortes anuais”, analisa a magistrada.

Ela comentou que, em dezembro do ano passado, durante o 10º Encontro Nacional do Poder Judiciário, foi aprovada uma meta para fortalecer a rede de combate à violência doméstica e familiar contra as mulheres, e que deverá ser seguida pelos tribunais estaduais de todo o País. “É mais uma ação da Justiça para o enfrentamento desse grave problema social”, ressalta ela.

Ao ser questionada se as mulheres hoje em dia estão mais conscientes e denunciando mais os homens que as agridem ou não, a juíza de Direito disse que a Internet, mídias sociais, além dos meios tradicionais de comunicação trazem sempre informações e orientações sobre esse assunto. “Acredito que hoje, até mesmo por essa maior facilidade de acesso a essas informações, as mulheres estejam procurando mais os órgãos públicos para denunciar. Por outro lado, também acredito ser significativo o número de mulheres que acabam guardando para si a violência sofrida seja por vergonha, por pressão de parentes, ou alguma outra situação que as impedem de denunciar. 

Mas a expectativa é que as mulheres agredidas passem a denunciar cada vez mais? É o que pergunta a reportagem, ao passo que a coordenadora da campanha Justiça pela Paz em Casa no Amazonas responde: “No mundo contemporâneo, com as técnicas avançadas de comunicação, as mulheres, cada vez que percebem a efetividade da lei com a respectiva punição do agressor, tendem a se encorajar a denunciar”.

A magistrada reforça que os principais fatores que levam à violência contra a mulher são o uso de substâncias entorpecentes, o álcool e a cultura machista ainda muito arraigada em nossa sociedade. “Então, as hipóteses tem que ser analisadas caso a caso. Não se pode combater a violência doméstica e familiar contra a mulher, sem que se cuide, também, da saúde do agressor e da própria família no seio da qual ocorre a violência”, frisa a juíza de Direito.

Três perguntas para delegada Andrea Nascimento, titular da Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher (DECCM)

1 - As mulheres hoje em dia estão mais conscientes e denunciando mais os homens que as agridem, ou não?

Com certeza elas estão mais conscientes da lei que as protege, e que há organismos e órgãos especializados por ela. As mulheres estão mais encorajadas e empoderadas. Estamos chegando lá frente à uma sociedade machista.

2 - A expectativa, então, é que as mulheres agredidas passem a denunciar cada vez mais?

Não. O ideal é que não passemos o resto de nossas vidas aumentando o numero de denúncias. O que é preciso é repreender o crime, e há os trabalhos de prevenção, de enfrentamento e discussões. É preciso educar primeiro os adultos e depois as crianças. Haverá o dia que não se precisaremos mais de uma lei para defender a mulher, isso a longuíssimo prazo. O trabalho é de prevenção. Temos direitos iguais e não se pode medir força física e sensibilidade com os homens, mas queremos igualdade de direitos. Pena que o interior do Estado é muto inacessível.

3 - Os homens agressores costumam se arrepender de seus atos ou, quando isso acontece, é apenas uma encenação perante vossas excelências juízes?

Nós observamos muito (a atitude dos agressores), mas não existe regra. É muito comum o homem chorar na Delegacia das Mulheres quando estão presos. É tão normal que ele não reconhece que pratica a violência. Um processo de conscientização do homem inicia quando passamos a saber o que eles sofreram no passado. Eles passam a ter acompanhamento psicológico e se conscientizam que têm atitudes criminosas. A maioria dos agressores são pessoas comuns , e não criminosos , mas caracterizam o crime perante suas parcerias. A violência doméstica é democrática, vem de todas as classes. É a questão da violência velada e que acontece da porta pra dentro, onde as pessoas do lado de fora não presenciam. A percepção que ela (mulher agredida) tem é que o companheiro vai mudar para melhor.

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