Quarta-feira, 20 de Novembro de 2019
AO SUL DA AMÉRICA

Eleito presidente da Argentina, Fernández comemora com sinal 'Lula Livre'

Bolsonaro lamentou a vitória do candidato de esquerda. Novo presidente da Argentina visitou três vezes o ex-presidente Lula na sede da Polícia Federal em Curitiba



hoho_D486147A-E84F-457E-A8A8-E313F6F33430.JPG Foto: Reprodução
28/10/2019 às 08:02

Os peronistas voltaram ao poder na Argentina, no domingo (27), com o candidato Alberto Fernández derrotando o presidente neoliberal Mauricio Macri com uma vantagem confortável, em uma eleição que desloca a terceira maior economia da América Latina para a esquerda depois de sofrer uma profunda crise econômica. Fernández obteve 48,02% dos votos, à frente dos 40,45% de Macri, com quase 96% dos votos apurados, ficando acima do limite de 45% para evitar um segundo turno e vencer a eleição imediatamente.

Macri, falando em seu partido eleitoral, reconheceu a derrota e parabenizou Fernández. Ele disse que convidou o adversário político ao palácio presidencial para discutir uma transição ordenada, considerada essencial para a economia e os mercados da Argentina.



Fernández, falando ao lado da companheira de chapa Cristina Kirchner, disse que se encontrará com o atual presidente e colaborará com o atual governo “da maneira que pudermos”.

“Os tempos à frente não são fáceis”, disse ele a apoiadores em seu partido eleitoral. “Mas é claro que colaboraremos em tudo que pudermos, porque a única coisa que nos preocupa é que os argentinos parem de sofrer de uma vez por todas”.

Multidões eufóricas comemoraram na sede de campanha de Fernández. “Esta vitória retumbante no primeiro turno é uma expressão muito clara do povo argentino”, disse Felipe Solá, um dos conselheiros mais próximos de Fernández no partido “Frente por Todos”.

Um candidato precisa de 45% dos votos, ou 40% e uma vantagem de 10 pontos sobre o segundo colocado, para evitar um segundo turno.

Trajetória

Fernández era o franco favorito desde que obteve uma vitória contundente nas primárias de agosto — uma dianteira que ele manteve nas pesquisas de opinião na véspera da eleição.

“Alberto venceu e estou super feliz. Atravessamos quatro anos muito duros”, disse Paola Fiore, servidora pública de 35 anos, à Reuters na sede eleitoral de Fernández. “O entusiasmo e as expectativas que temos são porque sabemos que um governo que pensa no povo voltou”.

O clima estava bem mais contido na sede do partido de Macri, do outro lado da cidade, embora sua coalizão “Juntos pela Mudança” tenha se saído muito melhor do que muitas pesquisas haviam previsto.

A votação terá implicações abrangentes. A Argentina é um dos maiores exportadores de grãos do mundo, está alvoroçando o setor energético com seu enorme campo de xisto de Vaca Muerta e está prestes a iniciar conversas com credores para reestruturar uma dívida de mais de 100 bilhões de dólares.

A economia foi o tema central, já que o país passou a maior parte do último ano mergulhado em uma recessão, as perspectivas de crescimento recuaram, a inflação anual passa dos 50%, os número do emprego pioram e a pobreza aumenta consideravelmente.

Mas outros eleitores disseram temer a volta da esquerda peronista, que culpam por ter deixado a economia despedaçada quando Macri tomou posse em 2015. Apoiadores do presidente dizem que ele precisava de mais tempo para resolver as coisas.

“Embora tenham sido quatro anos complexos, tenho esperança de que Macri consiga resolver”, disse Pablo Nicolás, contador de 36 anos, ao votar. Ele disse não confiar na ex-presidente Cristina Kirchner.

Macri conquistou apoiadores com planos para reformar a economia notoriamente fechada da Argentina com acordos comerciais e uma iniciativa bem-sucedida para atrair investimento estrangeiro para projetos de energia e infraestrutura.

Seus planos de reforma foram duramente afetados em 2018, quando uma crise monetária e fiscal o obrigou a fechar um acordo de eventuais 57 bilhões de dólares com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para ajudar a Argentina a pagar suas contas.

Agora Fernández assumirá o cargo de Macri e as negociações com credores, incluindo o FMI, a respeito da reestruturação de mais de 100 bilhões de dólares de dívida soberana em meio a temores de que a nação tenha que enfrentar um calote danoso.

A maioria dos investidores já computava uma vitória da oposição peronista, mas um grande triunfo pode desencadear uma nova volatilidade nos mercados, já limitados pelos controles de capital recém-impostos.

Lamento de Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro lamentou nessa segunda-feira (28) a vitória do candidato de centro-esquerda Alberto Fernández na eleição presidencial argentina e disse que não irá parabenizá-lo pelo resultado, reiterando que o país vizinho pode inclusive ser afastado do Mercosul.

“Lamento, eu não tenho bola de cristal, mas acho que a Argentina escolheu mal. Primeiro ato do Fernández foi já Lula Livre, dizendo que ele está preso injustamente, já disse a que veio”, disse Bolsonaro a jornalistas ao deixar os Emirados Árabes Unidos a caminho do Catar, sua próxima parada em uma viagem pela Ásia e o Oriento Médio.

Perguntado se daria os parabéns a Fernández, que derrotou o presidente neoliberal Mauricio Macri na votação de domingo, Bolsonaro respondeu que não, mas ressaltou que não vai se indispor. “Vamos esperar o tempo para ver qual é a posição real dele na política. Ele vai assumir, vai tomar pé do que está acontecendo, e vamos ver qual linha ele vai adotar”.

A vitória de Fernández, que tem a ex-presidente argentina Cristina Kirchner como vice, levou o peronismo de volta ao poder na Argentina após uma profunda crise econômica atravessada pelo país durante o governo Macri.

Durante a campanha eleitoral no país vizinho, Bolsonaro quebrou a tradição da posição brasileira de não comentar as questões políticas internas dos vizinhos e ameaçou tentar suspender a Argentina do Mercosul.

O presidente voltou a comentar essa possibilidade após a confirmação da vitória de Fernández, dizendo que será considerada caso o futuro governo argentino prejudique o acordo negociado pelo bloco com a União Europeia.

“Se interferir (no acordo Mercosul-União Europeia), segundo o Paulo Guedes, nós, não digo que sairemos do Mercosul, mas podemos juntar ali Paraguai, não sei o que vai acontecer nas eleições do Uruguai, e decidirmos se a Argentina fere alguma cláusula do acordo ou não”, disse Bolsonaro.


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