Domingo, 20 de Outubro de 2019
EDUCAÇÃO

Em 12 anos, modelo de ensino atendeu quase 300 mil no interior do AM

Ensino por mediação tecnológica mudou o futuro de mais de 300 mil jovens do interior do Amazonas, que não teriam outra forma para estudar



m_dias_9E245411-0D41-4AFD-A197-17BF8B68E556.JPG Aulas são transmitidas diretamente da sede da Seduc, em Manaus. Foto: Junio Matos/freelancer
09/09/2019 às 07:50

Até não muito tempo atrás só havia duas opções para os milhares de estudantes de comunidades rurais do Amazonas que terminavam o ensino fundamental: parar de estudar ou se mudar para uma cidade maior para continuar os estudos. Há 12 anos, porém, a questão geográfica está sendo superada com a ajuda da tecnologia. O Ensino Presencial com Mediação Tecnológica, da Secretaria de Estado Educação (Seduc-AM), desde então, tem permitido o acesso desses alunos não só ao ensino médio, mas também às séries do ensino fundamental (do 6° ao 9° ano) e educação de jovens e adultos (EJA) sem que eles saiam do local onde vivem. Cerca de três mil comunidades espalhadas pelos rincões do Estado são alcançados pelo programa.

O Ensino Presencial com Mediação Tecnológica, um projeto que já ganhou prêmios nacionais e internacionais, é uma modalidade que une o ensino presencial com o ensino a distância (EAD). As aulas acontecem por meio de um processo de videoconferência, via satélite (o que dribla a internet precária ofertada no interior). O grande diferencial é a interatividade entre o estudante e o professor que ministra a aula, transmitidas “ao vivo” dos estúdios localizados na sede da Seduc-AM, no Japiim, Zona Sul da capital. Dúvidas podem ser tiradas por meio de um chat ao fim das aulas.



A principal diferença entre o ensino presencial com mediação tecnológica e o EAD é que no ensino a distância o estudante faz o próprio horário, enquanto na mediação tecnológica os alunos se reúnem no mesmo horário (à tarde ou à noite) numa escola para assistir às aulas acompanhados de um professor presencial (formado em qualquer licenciatura), que ajuda a aplicar os exercícios propostos e as avaliações. No geral, esse tipo de ensino, dadas as particularidades, seguem os mesmos ritos avaliativos de uma escola convencional.

Alcance

“Na última década foram alcançados mais de 290 mil alunos. Em 2019, estão sendo atendidos cerca de 40 mil alunos. Atualmente, há 62 professores ministrantes e 20 pedagogos (todos concursados) atuando nos estúdios da capital, e 2.387 professores presenciais sendo tutores nessas comunidades distantes dos centros urbanos. Na zona rural de Manaus há 70 turmas em cinco comunidades alcançadas por essa modalidade de ensino”, explicou o diretor do Centro de Mídias de Educação do Amazonas (Cemeam), Júnior Mar Ferreira.

De acordo com Ferreira, a ideia é que o Ensino Presencial com Mediação Tecnológica passe a oferecer ensino profissionalizante e técnico para se adequar ao novo ensino médio. “Essas mudanças estão sendo alinhadas com a nossa equipe pedagógica. No momento, estamos em fase de estudo e formatação”, disse.

A própria extensão territorial do Amazonas, por si só, já é um grande desafio para levar os equipamentos necessários para essa modalidade de ensino como TVs, microfones, caixas de som e antenas parabólicas para as escolas das comunidades distantes dos centros urbanos do interior, que, às vezes, demandam mais de um dia de viagem rio adentro.

A secretária executiva adjunta do interior da Seduc -AM, Ana Maria Araújo, explica que cada um dos 61 municípios do interior tem um coordenador e cada escola, um gestor. “No total, temos 2.387 turmas em quase três mil localidades. Cada sala tem um professor presencial que fica o ano letivo inteiro responsável por aquela turma. São 200 dias letivos, exatamente como no ensino convencional”, explanou.

As avaliações (com os gabaritos) são elaboradas pelos professores que ministram as aulas nos estúdios de Manaus. Essas provas são enviadas aos professores presenciais que imprimem, aplicam à turma, corrigem e lançam as notas em um diário digital.

Interatividade faz toda a diferença

As aulas são produzidas pelos próprios professores ministrantes (todos concursados da Seduc-AM), que tem total liberdade didática de proporem atividades e exercícios, e recebem treinamento interno para dar aula com mais desenvoltura em frente às câmeras. As aulas que serão transmitidas contam com uma assessoria pedagógica.

Na tarde em que a equipe de reportagem de A CRÍTICA visitou os estúdios do Centro de Mídias de Educação do Amazonas (Cemeam), as professoras de História Isabel Saraiva e Petty Ribeiro, transmitiam uma aula para turmas de sétima série espalhadas em mais de 20 comunidades do interior. Isabel dá aulas no estúdio há oito anos e Petty, há sete meses.

“A gente dribla o calor humano dos alunos usando um exercício de imaginação e utilizando todos os recursos tecnológicos para incrementar as aulas”, conta a veterana Isabel. “Eu sei que tem um monte de crianças assistindo às nossas aulas. A responsabilidade pedagógica é tão grande quanto como se estivéssemos em uma sala de aula convencional”, destaca Petty.

As duas são unânimes em afirmar que, inevitavelmente, o planejamento das aulas é diferente do convencional e segue uma estrutura de roteiro de TV. “Temos um cuidado redobrado com a linguagem utilizada nas aulas. A interatividade faz toda a diferença, porque a gente consegue ver como os alunos estão recebendo o conteúdo”, destacou Isabel.

Universitários vindos dos rincões do Estado

Em Parintins (distante 369 quilômetros de Manaus), o programa alcança, atualmente, 41 comunidades da zona rural. Para a professora Conceição Regina Andrade, gestora do Centro Mediado por Tecnologia de Parintins, esta é a ação educacional mais incrível que o governo já fez pela educação no interior do Estado. “Nesta modalidade de ensino temos, hoje, 1.303 alunos nas 41 comunidades em 109 pontos mediadores assistidos direitamente por 112 professores presenciais. Esta modalidade de ensino oportunizou que esses jovens do interior concluam os seus estudos nas próprias comunidades sem deixar de ajudar as suas famílias que vivem da agricultura”, disse.

Conceição lembra que a maior prova de que essa modalidade de ensino tem feito a diferença nessas comunidades estão as dezenas de alunos que já conseguiram ingressar na universidade e, recentemente, a classificação de um número expressivo de alunos (68 só da zona rural) para a segunda fase da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), que será realizada no dia 28 de setembro na Escola Estadual Brandão de Amorim, em Parintins.

Entre os casos de sucesso da zona rural parintinense lembrado pela gestora está o do estudante Christian Douglas de Souza Ribeiro, de 17 anos, que, ano passado, foi aprovado na primeira turma do curso de Engenharia Civil da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), do Centro de Estudos Superiores de Parintins (Cesp). Christian concluiu o terceiro ano do ensino médio através do Ensino Mediado Tecnológico na Escola Municipal São Sebastião do Jará, na calha do rio Uaicurapá, distante da sede de Parintins cerca de cinco horas de viagem de barco.

Para Conceição, a aprovação de Christian Douglas no vestibular serviu para superar a ideia de que o acesso à universidade é um feito “distante demais” para um jovem do interior.

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Repórter do caderno de Cidades - Jornal A Crítica

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