Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2020
Entrevista da semana

‘Em 50 anos nunca houve sindicância. Já abrimos 5’, diz Armando do Valle

Presidente da Cosama desde janeiro deste ano, Armando do Valle faz balanço dos sete meses à frente da companhia e revela que recebeu a empresa, que atua em 12 municípios do interior, com 70% de inadimplência, que foi reduzida para 30%



armando_valle_4E4FA685-E722-4641-842C-63DD7B881E2D.jpg "O nosso gargalo é o tamanho dos salários. Tem gente que ganha R$ 25 mil... Vinte e cinco por cento da folha de pagamento é destinada a salários antigos", dia Armando do Valle / Foto: Junio Matos
19/08/2019 às 10:44

Alvo de controvérsias durante anos, a Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama) é o órgão estadual  que responde hoje pela captação, tratamento e distribuição de água para consumo humano em 12 municípios do interior do Estado. A parte de Manaus foi privatizada, e nos outros 49 municípios as prefeituras cuidam do sistema. A companhia atende cerca de 170 mil consumidores e tem um orçamento estimado  para este ano de quase R$ 17 milhões. Em entrevista concedida para  A CRÍTICA no dia 15 de agosto, o presidente da Cosama, Armando do Valle, afirmou que “para cada real investido em saneamento, se evita quatro na saúde”. Confira a entrevista.

Quais os maiores desafios de fazer saneamento básico no Amazonas?



A Cosama foi a primeira empresa de água do Brasil a ser privatizada (parcialmente). A maior parte dela, Manaus, foi vendida por R$ 178 milhões em 2000. Quando aconteceu, os municípios praticamente perderam tudo porque 80% da receita vinha da capital. A companhia passou a ser deficitária, sucateada pelo governo da época em sua totalidade e vimos isso quando chegamos. O maior desafio é resgatar as pessoas e a própria companhia, na qualidade da água dos 12 municípios em que estamos. Esses primeiros sete meses foram de aprendizado. A empresa não tinha computadores, cadeiras, usava o mesmo sistema interno desde a década de 80. Vimos nas cidades roubo de material e venda de motores. Em 50 anos, nunca houve sindicância, e nós já abrimos cinco por desvios de conduta, por determinação do governador Wilson Lima. O cliente pagava a dívida ao colaborador e ele não repassava à empresa. A companhia precisa existir porque as prefeituras não têm capacidade de conhecimento e gerenciamento para gerir uma água. Prova disso foram as 20 que já bateram à nossa porta querendo devolver o sistema. 

Qual a condição atual da empresa? O orçamento é ideal? 

A empresa está deficitária. Temos dois tipos de entrada: o que temos que pagar em obrigações, que são salários, produtos. É o governo quem paga. E tem as nossas arrecadações baseadas no trabalho das cobranças dos usuários. Quando começamos, essa receita vinda dos clientes estava em R$ 200 mil e pouco, e hoje está em R$ 700 mil e pouco. Quase triplicamos o valor. A meta é superavitar, mas isso não é feito do dia para a noite. Leva em torno de um ano e meio a dois anos. A inadimplência beira 30%, estava em 70%, porque as pessoas não cobravam e não reconheciam a Cosama. Itamarati (município) ficava um mês sem contato algum com o financeiro, contabilidade ou RH para se ter uma ideia.   

O senhor cogita fazer parcerias público-privadas?

Sim, porém ninguém quer.  Nenhuma empresa privada quer se interessar porque as nossas unidades são deficitárias. Desde 2007 que não era reajustada as prestações de água. Ela valia um copo d’água. Podia consumir 1 milhão ou 10 mil litros que era apenas pago um copo: R$ 7,50. Numa fiscalização do TCE (Tribunal de Contas) entendia-se que era importante o reajuste e este ano o fizemos para R$ 16,50. Não somos contra as PPBs, desde que alguém queira conversar conosco. As pessoas precisam saber que a Cosama existe e que deseja prestar um bom serviço. A Cosama tem um laboratório para aferição da qualidade da água em todos os municípios que atua, e qualquer desequilíbrio que haja sabemos imediatamente. Você não ouve falar sobre os 12 municípios que atuamos em matéria de água contaminada. Qualquer prefeitura que precise de subsídios, estamos prontos para atender.

Como ficou a dívida de R$ 1,2 milhão dos municípios, com alguns devendo há 12 anos?

A maioria das prefeituras pagou, contudo só de janeiro para cá. Algumas, com contas atrasadas de antes de 2018 estão renegociando porque entendem que não devem pagar por gestões passadas. Estamos conversando com Tabatinga porque essa conta é de muitos anos. Não existe, hoje, possibilidade de corte. O que existe é uma negociação para a gente fazer um acerto para pagarem as contas.

Como a sua participação na cúpula da Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento beneficia o Estado?

Procuramos buscar uma alternativa que nos abrisse portas, e a associação é peça fundamental. Todas as maiores empresas do País estão nela, empresas com balanços na Bolsa de Valores. Como vice-presidente da região Norte, isso representa que teremos assento nas reuniões da Aesbe, participação na discussão da medida provisória que tramita no Senado sobre o Marco Regulatório do saneamento. Uma chance de dizer que o Amazonas foi abandonado nos últimos anos. Estamos trabalhando para criar o fundo de saneamento do Amazonas. Ele geraria recurso para investir no interior, principalmente. É uma proposta que iremos apresentar ao governador daqui a três, quatro meses.

Existe um plano para retomar a gestão em outros municípios do interior?

A água é uma questão municipalizada. Qualquer prefeitura que entenda que a Cosama chegue e examine a possibilidade de trazer o serviço para nós, vamos lá e fazemos, como o caso de Atalaia do Norte. Havia uma contaminação na água, e estamos há três meses no processo de reintegração da cidade (para o Estado), existe um contrato entre a prefeitura que concede o poder de administrar lá. Se você for mapear Amazonas, dificilmente encontra prefeitura que não tenha problemas com água.
 
Por isso mesmo, não seria melhor a Cosama assumir?

Primeiro eu tenho que acompanhar as contas da companhia, porque qualquer operação dessa é deficitária. O governo entende que temos que fazer a nossa parte. Atalaia vai gerar um déficit de R$ 50 mil por mês, pela logística.

Por que os municípios são tão problemáticos?

Os prefeitos têm que entender que com água não se brinca, não se faz política. Haviam 7 mil hidrômetros escondidos em Tabatinga desde 2007, o que daria para hidrometrar de 40% a 50% de todos os 12 municípios em que atuamos. Hoje, estamos nessa fase. Apenas Carauari e Tabatinga têm hidrômetros. O resto, nenhum. Recebemos nos primeiros meses R$ 9 milhões de dívidas, de prefeitos que há 14 anos não pagavam contas porque achavam que era obrigação da Cosama dar água.  O governo banca para não abandonar os cidadãos, temos que pagar produtos, energia, pessoal. Nos demanda tempo e é caro.

A atuação em Atalaia do Norte foi célere. Quando começa a operação?

Em 1º de setembro. As pessoas vão começar a receber as contas automáticas. Quando chegamos, levavam dois meses para chegar na casa das pessoas. A partir de agora vai ser online, com o leiturista. Vai ser de porta em porta. No primeiro mês, equilibramos a água. Hoje, está entre 70 e 80% de água potável. A partir do dia 30 será administrada permanentemente. Existe um contrato que nos concede esse poder. Mesmo com déficit, a companhia entende que com essa arrecadação (própria) que aumentou é preciso investir. 

Qual o papel da Cosama no Plano Estadual de Recursos Hídricos ?

A Cosama foi chamada para conversar e estamos dialogando, não temos uma participação efetiva desse projeto. O que buscamos é a questão do Marco Regulatório e a criação do fundo estadual. O governo federal quer privatizar todas as companhias de água do Brasil, e entendemos que isso tem que ser complementar, e não totalitário. A privatização é bem-vinda quando vem para os dois, privado e público. Se a cidade já tem infraestrutura, não tem problema de privatizar.

Desde a sua posse, que medidas práticas o senhor implementou?

Internamente, pudemos automatizar e entregar a conta na hora para a pessoa, fizemos estruturação da companhia, trocamos os sete gerentes das unidades do interior, com maioria com ensino superior, sendo que o nível era fundamental. Fizemos o recadastramento de pessoas, reforma em todas as agências e revisão de salários e cargos. Demitimos 36 pessoas neste ano com altos salários. Inclusive, sobre o 13º pago, existe um acordo coletivo feito na gestão de 2017 no MPT (Ministério Público do Trabalho) que nos obrigava a quitar. Também estimulamos a especialização de cada servidor.

E sobre os comissionados de Manaus receberem sem irem ao trabalho, como a Waldívia Alencar, que foi condenada pelo Tribunal de Contas?

Vimos que há oito anos  ela e o esposo, também funcionário, não apareciam na Cosama. Hoje, com o ponto eletrônico, nem tem como fazer isso. Eles foram demitidos por justa causa por abandono de emprego. A Waldívia entrou de férias em janeiro e quando foi em fevereiro, não compareceu. Ela ainda recorreu na Justiça, mas perdeu. Se ela tivesse voltado a trabalhar, estaria naturalmente agora ou se não quiséssemos os serviços dela, iríamos pagar os direitos. O nosso gargalo é o tamanho dos salários. Tem gente que ganha R$ 25 mil, pessoas que estão há 45 anos, que se forem demitidas vão nos dar indenizações enormes. Vinte e cinco por cento da folha de pagamento é destinada a salários antigos. Como a Cosama não se modernizou, muitos colegas não se atualizaram, e é um desnível grande de conhecimento. Nessa gestão, readequamos para contratar mais gente e com salários mais baixos. 

O senhor ainda tem algum envolvimento com o Festival de Parintins?

Nunca mais. Faz seis anos que nem vou lá. E as pessoas sempre me perguntam, mas é normal, né? Faz parte. Ajudei no Garantido, mas hoje não mais.

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Jornalista
Formado pela Faculdade Boas Novas. Pós-graduando em Assessoria de Comunicação e Imprensa e Mídias Digitais. Com passagens por outros veículos locais, hoje atua nas editorias de política e economia de A Crítica. Valoriza relatos humanizados e contos provocativos do cotidiano.

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