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Cotidiano
INTORELÂNCIA

Grupo denuncia Estado de não investigar crimes de intolerância religiosa no AM

A ação é motivada por uma tentativa de assassinato contra um pai de santo ocorrida quinta-feira (1º), em Manaus. Segundo eles, os delegados se negam a apurar 05/03/2018 às 14:34 - Atualizado em 05/03/2018 às 15:02
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Mesmo relatando a intolerância no B.O foi registrada apenas a ameaça. Foto: Márcio Silva
Silane Souza Manaus (AM)

Representantes do Povo Tradicional de Terreiro de Matriz Africana de Manaus foram nesta segunda-feira (5) ao Ministério Público Federal do Amazonas (MPF-AM) denunciar o Estado por não tomar as medidas cabíveis para acolhimento das denúncias de crimes de intolerância religiosa, bem como de proteção as vítimas. A ação é motivada por uma tentativa de assassinato contra um pai de santo ocorrida no último dia 1º, por volta de 20h, na rua Louro Tachi, bairro Monte das Oliveiras, Zona Norte.

De acordo com o presidente da Articulação Amazônica de Povos Tradicionais de Matriz Africana (Aratrama), Alberto Jorge, após a Recomendação 009/2014 do MPF-AM, o Estado do Amazonas, por meio da portaria normativa 000611014-GDG/PC, atribuiu a Delegacia Especializada de Ordem Política e Social (Deops) o registro e apuração das notícias crimes por motivação religiosa, cabendo as demais unidades policiais tal competência nos horários que a Deops não funciona. Mas os delegados se negam a fazer isso.

Ele citou como exemplo a situação vivenciada pelo pai de santo André Luiz Ferreira Franco, 45, que quase foi morto, no último dia 1º, dentro da própria casa, e houve negativa por parte do 18º Distrito Integrado de Polícia (DIP) em registrar o caso como sendo de crime de ódio religioso quando todas as evidências apontavam para tal situação. “Esse tipo de ocorrência sempre é tipificada como ‘briga de vizinho’. Não dá mais para aceitar. Não é problema só de Manaus, acontece em todos os municípios do Estado”, afirmou.

Agressão

André Franco contou ao A CRÍTICA que no dia da ocorrência estava em sua casa, com cerca de 15 pessoas, inclusive crianças, mulheres grávidas e idosos, realizando as funções (ritos) quando o vizinho Laércio dos Santos Vieira, que estava bebendo, olhou por cima do muro baixo e viu o que estava acontecendo ficou transtornado. “Ele ficou gritando alto que ia acabar com essa macumba. Não demorou muito ele deu um pisão no meu portão que abriu completamente e entrou com uma faca dizendo: macumbeiro safado eu vou te matar”.

E só não matou, conforme Franco, porque um pastor da igreja que Laércio frequenta passou na hora e o reconheceu. Na hora, entrou na casa, o imobilizou e desarmou. “Ele (Laércio) foi levado para a casa dele e ficou atirando pedra e pau para dentro da minha casa. Eu acionei a polícia, liguei umas 12 vezes, e a viatura só apareceu porque um dos meus filhos de santo foi atrás. Registrei Boletim de Ocorrência (B.O), o agressor ficou detido, mas no outro dia foi solto. Ontem (sábado) mesmo ele já estava me ameaçando”, afirmou.

Franco disse que está vivendo um drama. Uma situação muito séria e não tem proteção de nenhum órgão. “Nem a delegada do 18º DIP aceitou registrar o caso como crime de intolerância religiosa. Disse que ele não podia responder pelo crime porque não estava respondendo por ele porque estava bêbado. Isso não existe. Eu estou morando aqui há um mês. Ele não me conhece, não sabe meu nome, nem da minha vida. Não pode ser briga de vizinho. Ele não tem nada contra mim a não ser minha religião”.

A CRÍTICA tentou falar com Laércio dos Santos Vieira, mas não o encontrou em seu endereço.

Uma morte em 4 anos

De acordo com Alberto Jorge, de 2014 para cá, houve o assassinato do pai de santo Rafael da Silva Medeiros, 28, além de duas tentativas de homicídio por arma branca contra pais de santo. Uma mãe de santo quase morreu ao ser atingida por uma pedra que foi arremessada para dentro do terreiro dela.

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