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Em homenagem a elas, A CRÍTICA conta histórias de mulheres amazônidas de sucesso

Uma vez já proibidas de trabalhar, votar e tomar decisões sobre suas vidas, hoje é possível ver mulheres liderando organizações e empresas 06/03/2016 às 13:22
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Ana Janaína Nelson (esq.), Corina Viana (centro) e Isa Assef (dir.) são exemplos de sucesso
Cinthia Guimarães ---

Há um século elas não podiam trabalhar, votar, dirigir e tomar decisões sobre suas vidas. Na segunda década do XXI, as mulheres deixaram para trás o estereótipo de sexo frágil e se tornaram protagonistas de sua própria história, conquistando não apenas espaço no mercado de trabalho, mas alcançando posições de comando no mundo dos negócios. 

Mais do que ter uma profissão, algumas mulheres mostraram que com determinação e senso de liderança podem chegar onde elas quiserem: de chefes de estado, a parlamentares, dirigentes de instituições públicas, industriais, reitoras, doutoras, profissionais da saúde a empreendedoras.

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, o A CRÍTICA conta a história de mulheres amazônidas de sucesso, que atravessam gerações e ganham destaque no mundo empresarial, liderando com competência organizações e empresas aqui e até fora do país.

Ana Janaína Nelson é uma delas. “Nasci em Manaus onde vivi até 18 anos, fiz universidade em Brasília, depois fui fazer mestrado nos EUA e tive o privilégio de ser selecionada pelo Departamento de Estado (equivalente ao Itamaraty), onde trabalhei por cinco anos com temas de Brasil. Ajudei na visita do presidente Obama ao Brasil (2010) e na visita da presidente Dilma aos EUA (2012). Ano passado deixei o governo para ir ao setor privado, porque queria trabalhar num país que não conhecesse”, conta ela que por ser filha de amercinos é nativa em inglês e português e fluente em espanhol.

“Meus pais mudaram para o Amazonas em 1980. Meu pai é botânico e minha mãe trabalha com turismo. Eles vivem em Manaus há 36 anos e são apaixonados pela cidade”, diz emocionada.

A professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e estudiosa das questões de gênero, Iraildes Caldas, afirma que a conquista dos espaços de poder representa um simbolismo muito grande para o protagonismo da mulher brasileira na última década.

“A presença da mulher nos espaços de poder vai acontecer de maneira mais nítida a partir de 2003, quando se cria a chamada a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. Quando a política discutida pelos movimentos de feminismo acontece, aparece este tema nos espaços de poder. Com isso as empresas passam a valorizar a presença das mulheres”, explica.

Disparidade

Mas a equivalência ainda está longe de acontecer. O Brasil foi considerado o segundo pior entre 134 países quando o assunto é igualdade de salário entre homens e mulheres, segundo o Índice Global de Desigualdade de Gênero, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial em novembro de 2015. 

O importante debate sobre empoderamento feminino na mídia tem colocado várias questões em pauta e feito as vozes das mulheres ecoarem cada vez mais forte.

Executiva

A amazonense Ana Janaína Nelson é um exemplo de quem chegou longe! Formada em Relações Internacionais (UnB) e mestre pela Universidade de Georgetown (EUA), ela passou numa seleção para integrar o Departamento de Estado do governo americano, em Washington, onde trabalhou por cinco anos para o Pentágono e para o Senado.

Há um ano ela trocou o status da capital americana pela iniciativa privada e hoje é vice-presidente da Speyside Corporate Relations, no México, empresa que presta consultoria a multinacionais para inserção dos seus negócios em mercados emergentes.

Lá, Janaína comanda uma equipe de 21 pessoas. “Nunca me imaginei nos EUA, pensei que moraria em outro país. Vim para o México porque queria algo totalmente diferente. É importante continuar aprendendo. A carreira internacional é de pouco em pouco, você vai construindo. Depois você se acostuma a estar longe da sua família e de seus amigos”, afirma feliz com suas escolhas.

Médica

Prestes a completar sessenta anos (o aniversário é dia 09/03) a mulher, mãe e médica pediatra Corina Viana tem encontrado força e coragem nos desafios diários para se reinventar e encarar o que considera uma missão divina, de superação pessoal e profissional: presidir a Unimed Manaus, maior cooperativa médica do Amazonas – que atende mais de 160 mil usuários, conta com 1.064 médicos cooperados em mais de 50 especialidades, pouco mais de 1, 5 mil  colaboradores e possui três unidades próprias de saúde: maternidade, pronto-socorro e hospital infantil e adulto.

“Estava com minha vida tranquila atendendo no consultório, dando plantão e cumprindo as tarefas que tinha no SUS quando surgiu este desafio da Unimed. Entendi como uma missão do Espírito Santo, aquilo era para mim, e segui adiante. Primeiro com algum receio, mas completamente disposta a aprender e fazer a engrenagem rodar satisfatoriamente”. Nos últimos quatro anos ela vem tocando com maestria a administração privada.

Administradora

Uma mulher a frente do seu tempo. É como se pode definir a trajetória da advogada e administradora Isa Assef, que aos 71 anos dirige a Fundação Centro de Análise, Pesquisa e Inovação Tecnológica (Fucapi), instituição que promove pesquisa e ensino em tecnologia no Amazonas.

Sua trajetória começou em 1978, quando assumiu cargos de gerência e de diretoria em empresas do Polo Industrial de Manaus, foi consultora de inúmeras empresas de comércio e serviços e, em 1987, iniciou uma frutífera carreira na Fucapi.

Por 25 anos, Isa também conciliou suas ocupações com a universidade, sua paixão. “Ser professora foi uma das funções mais gratificantes que eu tive”, conta ela que lecionou na Faculdade de Estudos Sociais (FES) da Ufam. Colecionadora de méritos profissionais, Isa só tem a agradecer pela vida.

“Construí uma família à minha moda. Adotei uma filha, tenho netos maravilhosos. Nunca me casei, então comigo não teve essa de me submeter ao marido”, afirma com serenidade e sabedoria.

Blog: Dra. Iraildes Caldas, professora e estudiosa das questões de gênero no Amazonas

"As mulheres ganham uma presença no mercado de trabalho com a industrialização. Depois elas ganham o mundo quando elas começam a ser vistas como classe trabalhadora, não como movimento feminista mas como parte fundante. Dentro desta perspectiva de classe, vão se tornando protagonista de um tempo de reivindicação de política pública.

Com o governo Getúlio Vargas, vão tomando campo e se expressando como sujeitos. Há um salto quando elas começam a reivindicar, quando é dado o basta no assédio, pedem melhores condições às gestantes e à ampliação da licença-maternidade. Antes, a licença era 1 mês, depois passou para 2 meses (distrito industrial de Manaus foi o pioneiro).

Em 1987, durante a Constituinte, o Lobby do Batom, formado com movimento feminista e deputadas, pressionam em torno dos direitos da mulher. Aí que foi ampliada a licença para 120 dias.

Elas também reivindicaram a presença na diretoria dos sindicatos. Conseguimos em 1992 direito à creche aos filhos das trabalhadoras, após convenção coletiva. Após isso ganharam espaço geral, em vários locais, até em plataforma de petróleo. As mulheres estão na aviação, na economia informal e nos comandos. A presença da mulher nos espaços de poder vai acontecer de maneira mais nítida a partir de 2003".

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